A cozinha dele parecia cenário de revista, mas não tinha cara de vitrine. Tinha cara de casa usada. Daquelas que alguém realmente mora, e cuida.
Eu entrei ainda com a camisa dele no corpo, o cabelo meio bagunçado, descalça no piso frio que era gostoso de sentir na sola do pé. A luz da manhã vinha limpa pelas janelas enormes, batendo nos detalhes: bancada de pedra clara, armários sem um dedo de marca, máquina de café que parecia coisa de hotel, uma fruteira com fruta de verdade, brilhando como se alguém tivesse acabado de passar pano.
E ele já tava ali, sem camisa, com o cabelo amassado do travesseiro, mexendo em alguma coisa com a calma de quem não tem pressa pra provar nada.
— Tu já veio fiscalizar minha casa? — Victor perguntou, sem virar de imediato, a voz ainda rouca de sono.
— Eu vim ver se você é real. — respondi, encostando no batente. Ele riu baixo.
— Sou real, sim. Só sou caro.
Eu soltei um riso curto, caminhando devagar até a bancada. Em cima dela tinha pão, manteiga, geleia, queijo, frutas cortadas, um suco já servido. E eu fiquei olhando aquilo como se tivesse medo de tocar.
— Você tem… tudo. — falei, sem conseguir esconder a surpresa.
Victor deu de ombros, pegando duas canecas.
— Tenho. Mas não é café da tia.
Ele colocou uma caneca na minha frente.
— O café da tia é brabo. É barulho, bronca, prato batendo, cheiro de alho no ar, gente entrando sem pedir licença…
— E pano de prato voando. — eu completei, e ele riu.
— Exatamente. — ele tomou um gole do café, fez uma careta satisfeita. — Mas isso aqui… — ele apontou ao redor, como se não fosse nada. — Isso aqui é com amor de bandido.
Eu arqueei a sobrancelha.
— Amor de bandido?
— Amor torto. — explicou, pegando uma fatia de pão e passando manteiga do jeito mais concentrado do mundo, como se aquilo fosse uma missão. — Não é fofo, não é perfumado… mas é amor. Eu só sei fazer do meu jeito.
Eu fiquei olhando ele fazer as coisas simples com aquela concentração quase engraçada. A mão dele era firme, grande, marcada, e ainda assim ele arrumava a mesa como se tivesse prazer nisso.
— Você faz café aqui… — eu disse devagar, como quem monta uma pergunta com cuidado. — e depois vai tomar café na pensão.
Ele olhou pra mim por cima da caneca.
— Vou.
— Por quê? — a palavra saiu antes de eu pensar. — Tipo… com todo respeito à Dona Tereza. Mas lá é apertado, cheio, barulhento… você ganha bronca. Você come o que ela manda. Você lava louça.
Victor soltou um riso curto.
— E?
Eu franzi a testa.
— E… por que você faz isso? Você não precisa.
Ele deixou a caneca na bancada, com calma. A expressão dele mudou só um pouco. Não ficou pesada. Só ficou real.
— Porque aqui — ele apontou pra casa dele, o espaço bonito, silencioso. — aqui é tudo muito certinho. Muito no lugar. Muito meu.
Ele fez uma pausa curta, como se escolhesse a frase com cuidado.
— Na casa da tia tem vida. Tem gente. Tem cheiro de comida e história. Tem amor que não vem com etiqueta.
Eu engoli seco, sentindo a frase me atravessar num lugar sensível.
— E porque — ele continuou, com a voz mais baixa — na casa da tia… tem você.
Meu peito apertou de um jeito ridículo. Eu tentei manter a cara neutra, mas acho que falhei, porque ele sorriu de canto.
— Tá vendo? — murmurou. — Tu fica toda boba.
— Eu não fico boba. — respondi, rápido demais.
Ele deu um passo pra perto e encostou na bancada, diminuindo a distância como se fosse a coisa mais natural.
— Fica sim. E eu gosto.
Eu senti o calor subir pelo meu rosto.
— Victor…
— Ayla. — ele falou meu nome como se fosse segredo.
E aí ele me beijou.
Não foi aquele beijo de ontem à noite, carregado de tudo. Foi um beijo pequeno, simples, de manhã. Um beijo que parecia dizer: tô aqui. E foi isso que me deu mais medo, porque beijo simples não é só desejo. Beijo simples é hábito.
Eu me afastei um milímetro, só pra respirar, e ele ainda ficou perto, a testa encostando na minha.
— Come. — ele falou, como se fosse cuidado. — Tu fica sem comer e vira um passarinho.
Eu ri baixo, pegando uma uva, e ele acompanhou o movimento com os olhos, como se tudo em mim fosse interessante.
— Você é ridículo. — eu murmurei.
— E tu tá aqui. — ele respondeu.
A gente tomou café devagar. Eu comendo fruta, ele comendo pão e olhando pra mim como se tivesse ganhado alguma coisa. E eu tentei não pensar demais no fato de que eu tava confortável. Que meu corpo não tava gritando “perigo” a cada segundo.
Depois, ele pegou minha mão.
— Vem cá. Vou te mostrar minha casa direito.
— Eu já vi. Ela é… — eu olhei em volta de novo, ainda meio incrédula — absurda.
— Tu não viu nada. — ele disse, com aquele sorriso que prometia zoeira.
Ele me puxou pela sala, passando pelo sofá enorme, pela parede com quadros, pela janela com vista. Abriu uma porta e eu vi um corredor com quartos. Tudo cheirando a limpo, mas com detalhes de vida: uma jaqueta jogada numa cadeira, uma caixa com ferramentas num canto, uma foto antiga em cima de um aparador que eu só vi de relance.
— Aqui é meu quarto. — ele falou, apontando, e eu senti o rosto esquentar lembrando da noite.
Ele riu, percebendo.
— Acordou com vergonha?
— Cala a boca. — eu empurrei o ombro dele de leve.
Ele fez drama.
— Ih, agressiva. Tia Tereza te ensinou.
— Ela me ensinou a bater em homem safado. — eu respondi, e ele arregalou os olhos, fingindo medo.
— Que isso, Loirinha. Eu sou um cidadão.
— Um cidadão procurado. — eu provoquei sem pensar muito, e vi a sombra passar rápido no olhar dele. Só um segundo.
Eu me arrependi na hora.
— Eu… eu não quis…
Victor respirou fundo e afastou aquilo com um sorriso forçado.
— Deixa isso pra lá. Vem ver o melhor.
Ele abriu outra porta e eu senti o ar mudar.