Eu cheguei na ONG com a bronca da Dona Tereza ainda morando no meu peito, como se ela tivesse deixado um bilhete dentro de mim: não some. E era engraçado, não pelo drama, mas pela novidade.
Eu sempre fui a pessoa que some. Sempre achei que era assim que se sobrevivia. Só que agora eu tinha uma senhora brava me esperando com panela no fogo e um monte de mulheres me chamando pelo nome como se eu fosse parte da parede.
O segundo “dia de beleza" tava em modo operação desde cedo. Rita parecia uma diretora de escola em surto, andando com lista na mão, distribuindo tarefas e ameaçando moralmente quem tentasse sentar.
— Ayla! — ela gritou assim que me viu. — Tu fica no espelho dois. A dona Rosa vai chegar e ela é tímida. Faz ela se sentir bonita sem virar novela.
— Eu não sei fazer isso. — eu rebati, rindo, pegando as toalhas.
— Sabe sim. — Carla apareceu do meu lado, já com o olhar de quem lê gente fácil. — Tu só faz sem perceber.
Eu organizei o cantinho com cuidado, limpando a superfície, alinhando os produtos, colocando tudo num jeito que não parecesse "luxo" nem "favor". Só cuidado.
A primeira mulher que sentou na cadeira parecia estar fazendo algo proibido. Mexia nas mãos, olhava pros lados como se alguém fosse brigar com ela por se permitir.
— Pode relaxar. — eu falei, sorrindo pequeno. — Hoje é seu dia.
Ela riu sem graça.
— Meu dia... faz tempo que eu não ouço isso.
Eu senti um aperto que não era tristeza. Era reconhecimento. Eu sabia o que era ficar tempo demais sem se sentir gente.
A manhã passou com uma sequência de pequenas vitórias: uma mulher que chegou calada e saiu rindo, outra que chorou na frente do espelho e pediu desculpa como se emoção fosse sujeira, uma que trouxe a filha pra ver "como é que mulher se cuida" e fez pose, toda orgulhosa. Eu ajudava, ouvia, segurava mão, fazia trança, passava creme, elogiava sem exagero.
Em alguns momentos eu me pegava sorrindo sozinha, como se minha cabeça ainda lembrasse do Victor me dizendo "eu te busco hoje" com aquela naturalidade absurda. Eu mordia o lábio, olhava pro nada por um segundo e voltava, antes que a Rita me pegasse no flagra.
— Tá, tá, já vi. — cochichou passando por mim. — Tá pensando no "homem". Depois tu pensa. Agora tu passa o hidratante.
Eu revirei os olhos, mas obedeci, rindo.
Quando chegou perto do meio-dia, o movimento diminuiu. As últimas mulheres foram embora com a unha feita e a autoestima um pouco mais alta, e a sala ficou com cheiro de creme e risada.
Carla fechou uma caixa, suspirando.
— Deu certo. — ela disse, satisfeita. — Hoje deu muito certo.
Rita apareceu com a mão na cintura.
— E agora, almoçar. Porque se eu ficar sem comer eu viro um demônio.
Eu peguei minha bolsa e olhei o horário.
— Eu vou subir pra almoçar na pensão. — falei, lembrando da ordem da Dona Tereza.
— Vai lá. E cuidado na rua, tá? — Carla avisou. — Hoje tá cheio de gente esquisita circulando.
Eu assenti, saí da ONG e comecei a subir o caminho de volta com aquela sensação boa de dever cumprido. O morro tava vivo, normal. Gente na porta, criança correndo, música vazando das janelas. Eu tava com fome e com uma paz rara, e por alguns minutos eu quase esqueci que paz costuma ser provocada.
Foi quando vinha descendo uma mulher do lado oposto, como se tivesse escolhido aquele caminho de propósito. Bonita de um jeito afiado, arrumada demais pra meio-dia no morro, cabelo impecável, unha feita, olhar que varria o ambiente procurando alguma coisa, ou alguém. Tinha um salto baixo, mas tinha salto. Tinha perfume forte. Tinha presença.
Ela me viu e sorriu primeiro. Não um sorriso simpático. Um sorriso de quem reconhece e já decide dominar.
Eu tentei seguir andando, fingindo que não era comigo, mas ela atravessou a rua e parou bem na minha frente, cortando meu caminho como se aquilo fosse natural.
— Você é a loirinha. — ela disse, olhando meu rosto como se estivesse avaliando produto.
Meu estômago apertou.
— Eu... desculpa?
Ela riu, um riso curto.
— Ayla, né? — falou meu nome como se já soubesse. — Dizem que tu tá morando na casa da tia dele.
Eu senti meu corpo inteiro entrar num alerta frio. Não era pânico. Era instinto. O tipo de instinto que eu aprendi em set: quando alguém chega doce demais, tem veneno.
— Quem é você? — eu perguntei, mantendo a voz o mais firme possível.
Ela inclinou a cabeça, satisfeita com a minha reação.
— Ah, calma. Não precisa ficar nervosa. — e aí ela estendeu a mão como se fosse apresentação formal. — Larissa.
A forma como ela disse o nome vinha cheia de importância própria. E meu corpo, sem nem ter certeza, já entendeu.
Larissa.
— Prazer. — eu disse, sem pegar a mão.
Ela olhou minha mão parada e riu de novo, como se aquilo fosse engraçado.
— Educada. — comentou. — O Victor gosta disso agora, né?
Eu respirei fundo, controlando a vontade imediata de recuar. Eu não queria dar a ela o prazer de me ver desconfortável.
— O que você quer comigo? — eu perguntei direto.
Larissa passeou o olhar por mim, devagar, e eu senti o julgamento em cada segundo. Ela reparou na minha roupa simples, no cabelo preso, no jeito de "ninguém importante" que eu tentava sustentar.
— Quero ver com meus próprios olhos. — ela respondeu. — Porque tá todo mundo falando.
— Falando o quê?
— Que o Victor tá diferente. Que ele tá... — ela fez uma pausa só pra me ver reagir — ...apaixonado.
Eu senti a raiva subir quente, mas eu segurei. Não ia perder o controle ali. Não na rua.
— Eu não sei o que você acha que tá fazendo, Larissa, mas...
— Você acha que ele não me contou de você? — ela interrompeu, inclinando o corpo um pouco pra frente como se fosse segredo. — Que ele não me mostrou foto? Que eu não sei exatamente quem você é?
Meu sangue gelou.
A frase me pegou no ponto exato. Porque ali não era só sobre ciúme. Era sobre ameaça. Sobre exposição. Sobre o meu passado.
Eu mantive o rosto neutro, mas minha mão apertou a alça da bolsa com força.
— Você tá me ameaçando?
Larissa fez uma cara de falsa ofensa.
— Eu? Jamais. Eu só... fico preocupada. — ela disse, com um ar de pena ensaiada. — Sabe como é, né? Homem assim... ele se diverte. Depois cansa. Depois troca.
Eu ouvi o zumbido do sangue no ouvido. A voz interna antiga tentou voltar: cuidado, você vai ser descartada, você vai ser humilhada. Eu senti a velha Ayla querendo se encolher.
Mas aí eu lembrei da Dona Tereza na cozinha e lembrei da minha própria decisão: eu não ia competir com passado nenhum mas também não ia aceitar ser provocada como se eu fosse fraca.
Eu ergui o queixo.
— Você veio até aqui pra me dizer isso?
Larissa sorriu, satisfeita com o meu tom. Ela gostava do embate.
— Eu vim te dizer pra não se iludir. — falou, doce. — Porque quando ele quer, ele faz qualquer coisa. Até se expor. Até arrumar confusão. E depois... — ela deu de ombros — ...quem paga é quem tá perto.
— Obrigada pela preocupação. — eu falei, com uma calma que eu tive que arrancar de dentro. — Mas eu não pedi conselho.
Ela segurou meu braço de leve.
Não apertou. Mas o toque foi suficiente pra me acender um alerta antigo no corpo. Eu travei por meio segundo, e ela percebeu. Os olhos dela brilharam com a pequena vitória.
— Ai, coitadinha... — ela murmurou. — Ele não te contou ainda, né? Do que ele é capaz. Do que ele já fez por outras.
Eu puxei meu braço de volta com firmeza. Dessa vez eu encarei ela com frieza.
— Não encosta em mim.
O sorriso dela vacilou um pouco. Só um pouco.
— Ui. — ela disse, fingindo surpresa. — Tá bravinha.
Eu respirei, sentindo o coração batendo forte, mas a voz saindo estável.
— Larissa... eu não sei qual é seu objetivo. Mas se você acha que vai me fazer sair correndo, você tá errada. Eu já corri demais na vida. Não corro mais por causa de provocação.
Ela me mediu em silêncio por um instante, como se recalculasse. Depois sorriu de novo, menor, mais venenoso.
— Vamos ver.
Eu passei por ela sem olhar pra trás, subindo o caminho com as pernas firmes e a cabeça trabalhando rápido demais. Eu sentia o olhar dela nas minhas costas como uma unha.