A palavra drogada me deu um enjoo imediato. Porque eu sabia como a imprensa tratava. Eu sabia o quanto era fácil me transformar em piada, em "queda", em manchete.
Eu passei a mão no rosto, sentindo a testa úmida.
— Você faria isso?
— Eu faço o que for necessário pra preservar o que a gente construiu. — ela respondeu, sem hesitar. — Você não é maior que isso.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio, com o peito subindo e descendo rápido. E aí eu disse, bem baixo, quase num sussurro:
— Eu sou maior sim.
Ela ficou muda.
Eu senti o medo tentando me engolir por dentro, mas eu continuei, porque se eu parasse agora eu ia voltar a ser a menina que pedia permissão.
— Eu não vou voltar. Eu não vou mais obedecer. Eu não vou mais deixar você... — minha voz quebrou, mas eu segurei. — me humilhar e chamar isso de cuidado.
— Você é patética. — cuspiu, finalmente perdendo um pouco da máscara. — Você vai se arrepender.
Eu senti lágrimas vindo, mas não deixei cair ainda.
— Talvez. — eu falei. — Mas eu prefiro me arrepender por mim do que viver pra sempre do jeito que você quer.
— Ayla...
— Eu tô desligando. — eu disse, antes que ela me prendesse de novo.
— Você não vai—
Eu desliguei. Na hora que a tela apagou, o corredor pareceu girar.
Eu encostei a cabeça na parede e deixei o ar sair como se meu corpo tivesse segurado respiração por anos. Minhas mãos tremiam tanto que eu tive que apertar o celular contra o peito, como se ele fosse um bicho que ainda podia me morder.
A vergonha veio primeiro. Uma vergonha antiga, automática, como se eu tivesse cometido um crime por dizer "não".
Depois veio a raiva. Uma raiva quente, que subiu pela garganta. E, por fim, veio uma coisa que eu não esperava: um alívio triste.
Eu ouvi passos atrás de mim. Eu me virei rápido, assustada, reflexo.
Victor tava no fim do corredor, parado, me olhando com o rosto fechado. Não era o Victor do deboche. Era o Victor que o morro obedecia quando ele falava grosso. A expressão dele tava séria demais pra ser curiosidade.
— Quem foi? — ele perguntou, baixo.
Eu tentei sorrir, fingir normalidade, como sempre fiz.
— Ninguém.
Ele deu um passo mais perto.
— Loirinha... — a voz dele veio firme, mas sem invadir. — Eu ouvi você falando "não vou" umas três vezes. Ninguém te faz falar assim por nada.
Minha garganta apertou. Eu passei a mão pelo cabelo molhado, tentando esconder a tremedeira.
— Foi minha mãe.
Ele ficou parado. O olhar dele mudou de novo, como se uma parte dele entendesse sem precisar de legenda.
— E ela quer o quê?
Eu respirei fundo, e senti minhas costas encostarem na parede como se eu precisasse de apoio pra não desmontar.
— Ela quer que eu volte. — eu disse. — Quer que eu pare de... "fazer graça".
Victor soltou uma risada sem humor. Um som curto, perigoso.
— Fazer graça. — ele repetiu, como se a frase fosse absurda.
Senti o olho arder, e dessa vez a lágrima escorreu. Eu odiei chorar na frente dele. Odiava dar prova de fraqueza. Odiava ser vista quebrando.
Mas eu tava cansada de ser estátua.
— Ela falou um monte de coisa. — eu admiti, com a voz falha. — Falou que eu sou... eu sou ingrata. Que eu... — eu engasguei.
Victor chegou mais perto, mas não tocou. Só ficou ali, preenchendo espaço com presença.
— Olha pra mim. — ele pediu, simples.
Eu levantei os olhos. Ele me encarou com uma seriedade que me dava medo e conforto ao mesmo tempo.
— Tu vai voltar? — perguntou.
Eu senti a pergunta bater no meu peito como teste e eu, ainda tremendo, com lágrima no rosto, respondi do jeito mais verdadeiro que eu consegui:
— Não.
Victor assentiu devagar, como se respeitasse aquilo.
— Então pronto. — ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Tu não vai.
Eu ri sem querer, um riso molhado, incrédulo.
— Não é tão simples, Victor.
Ele inclinou a cabeça.
— É simples sim. — e a voz dele ficou mais firme. — Difícil é aguentar a pressão. Mas decidir... tu já decidiu.
Eu passei a mão no rosto, limpando a lágrima com raiva.
— Ela vai tentar me destruir.
O olhar dele escureceu, e eu vi um pedaço do "dono do morro" ali, não como ameaça pra mim — mas como proteção contra o mundo.
— Deixa ela tentar. — ele falou baixo. — Aqui tu não tá sozinha.
A frase me bateu como soco. Eu engoli em seco, porque aquilo era exatamente o que eu mais queria e mais temia: pertencer a algum lugar. Antes que eu pudesse responder, a voz da Dona Tereza ecoou lá da cozinha, impaciente:
— AYLA! VEM CÁ CORTAR A CEBOLA DIREITO QUE TU SUMIU! E VICTOR, PARA DE RONDAR A MENINA COMO SE FOSSE GUARDA!
Victor soltou um riso curto, e a tensão que tava me esmagando deu uma afrouxada mínima. Ele estendeu a mão, não pra me puxar, só pra oferecer.
— Vem. — ele disse.
Eu olhei pra mão dele por um segundo, e meu corpo quis recuar por hábito. Mas eu não recuei. Eu só caminhei ao lado dele de volta pra cozinha, respirando fundo, sentindo o coração ainda disparado, mas com uma certeza nova queimando em mim:
Eu tinha dito não e o mundo não tinha acabado. Ainda.
(…)
O almoço terminou com aquela sensação boa de casa cheia: panela raspada, Dona Tereza reclamando que "ninguém deixa um grão de arroz pra amanhã", Rita aparecendo do nada como se morasse ali há anos, e o Victor circulando pela cozinha com a cara mais lavada do planeta, como se ele não tivesse me colocado em cima do balcão mais cedo e quase virado personagem principal de uma surra de pano de prato.
Eu tentei manter a normalidade. Eu precisava de normalidade. Depois da ligação da minha mãe, meu corpo ainda tava meio em alerta, como se a qualquer momento alguém fosse invadir e me puxar de volta pra vida antiga pela nuca.