28. Ayla

1050 Words
A palavra drogada me deu um enjoo imediato. Porque eu sabia como a imprensa tratava. Eu sabia o quanto era fácil me transformar em piada, em "queda", em manchete. Eu passei a mão no rosto, sentindo a testa úmida. — Você faria isso? — Eu faço o que for necessário pra preservar o que a gente construiu. — ela respondeu, sem hesitar. — Você não é maior que isso. Eu fiquei alguns segundos em silêncio, com o peito subindo e descendo rápido. E aí eu disse, bem baixo, quase num sussurro: — Eu sou maior sim. Ela ficou muda. Eu senti o medo tentando me engolir por dentro, mas eu continuei, porque se eu parasse agora eu ia voltar a ser a menina que pedia permissão. — Eu não vou voltar. Eu não vou mais obedecer. Eu não vou mais deixar você... — minha voz quebrou, mas eu segurei. — me humilhar e chamar isso de cuidado. — Você é patética. — cuspiu, finalmente perdendo um pouco da máscara. — Você vai se arrepender. Eu senti lágrimas vindo, mas não deixei cair ainda. — Talvez. — eu falei. — Mas eu prefiro me arrepender por mim do que viver pra sempre do jeito que você quer. — Ayla... — Eu tô desligando. — eu disse, antes que ela me prendesse de novo. — Você não vai— Eu desliguei. Na hora que a tela apagou, o corredor pareceu girar. Eu encostei a cabeça na parede e deixei o ar sair como se meu corpo tivesse segurado respiração por anos. Minhas mãos tremiam tanto que eu tive que apertar o celular contra o peito, como se ele fosse um bicho que ainda podia me morder. A vergonha veio primeiro. Uma vergonha antiga, automática, como se eu tivesse cometido um crime por dizer "não". Depois veio a raiva. Uma raiva quente, que subiu pela garganta. E, por fim, veio uma coisa que eu não esperava: um alívio triste. Eu ouvi passos atrás de mim. Eu me virei rápido, assustada, reflexo. Victor tava no fim do corredor, parado, me olhando com o rosto fechado. Não era o Victor do deboche. Era o Victor que o morro obedecia quando ele falava grosso. A expressão dele tava séria demais pra ser curiosidade. — Quem foi? — ele perguntou, baixo. Eu tentei sorrir, fingir normalidade, como sempre fiz. — Ninguém. Ele deu um passo mais perto. — Loirinha... — a voz dele veio firme, mas sem invadir. — Eu ouvi você falando "não vou" umas três vezes. Ninguém te faz falar assim por nada. Minha garganta apertou. Eu passei a mão pelo cabelo molhado, tentando esconder a tremedeira. — Foi minha mãe. Ele ficou parado. O olhar dele mudou de novo, como se uma parte dele entendesse sem precisar de legenda. — E ela quer o quê? Eu respirei fundo, e senti minhas costas encostarem na parede como se eu precisasse de apoio pra não desmontar. — Ela quer que eu volte. — eu disse. — Quer que eu pare de... "fazer graça". Victor soltou uma risada sem humor. Um som curto, perigoso. — Fazer graça. — ele repetiu, como se a frase fosse absurda. Senti o olho arder, e dessa vez a lágrima escorreu. Eu odiei chorar na frente dele. Odiava dar prova de fraqueza. Odiava ser vista quebrando. Mas eu tava cansada de ser estátua. — Ela falou um monte de coisa. — eu admiti, com a voz falha. — Falou que eu sou... eu sou ingrata. Que eu... — eu engasguei. Victor chegou mais perto, mas não tocou. Só ficou ali, preenchendo espaço com presença. — Olha pra mim. — ele pediu, simples. Eu levantei os olhos. Ele me encarou com uma seriedade que me dava medo e conforto ao mesmo tempo. — Tu vai voltar? — perguntou. Eu senti a pergunta bater no meu peito como teste e eu, ainda tremendo, com lágrima no rosto, respondi do jeito mais verdadeiro que eu consegui: — Não. Victor assentiu devagar, como se respeitasse aquilo. — Então pronto. — ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Tu não vai. Eu ri sem querer, um riso molhado, incrédulo. — Não é tão simples, Victor. Ele inclinou a cabeça. — É simples sim. — e a voz dele ficou mais firme. — Difícil é aguentar a pressão. Mas decidir... tu já decidiu. Eu passei a mão no rosto, limpando a lágrima com raiva. — Ela vai tentar me destruir. O olhar dele escureceu, e eu vi um pedaço do "dono do morro" ali, não como ameaça pra mim — mas como proteção contra o mundo. — Deixa ela tentar. — ele falou baixo. — Aqui tu não tá sozinha. A frase me bateu como soco. Eu engoli em seco, porque aquilo era exatamente o que eu mais queria e mais temia: pertencer a algum lugar. Antes que eu pudesse responder, a voz da Dona Tereza ecoou lá da cozinha, impaciente: — AYLA! VEM CÁ CORTAR A CEBOLA DIREITO QUE TU SUMIU! E VICTOR, PARA DE RONDAR A MENINA COMO SE FOSSE GUARDA! Victor soltou um riso curto, e a tensão que tava me esmagando deu uma afrouxada mínima. Ele estendeu a mão, não pra me puxar, só pra oferecer. — Vem. — ele disse. Eu olhei pra mão dele por um segundo, e meu corpo quis recuar por hábito. Mas eu não recuei. Eu só caminhei ao lado dele de volta pra cozinha, respirando fundo, sentindo o coração ainda disparado, mas com uma certeza nova queimando em mim: Eu tinha dito não e o mundo não tinha acabado. Ainda. (…) O almoço terminou com aquela sensação boa de casa cheia: panela raspada, Dona Tereza reclamando que "ninguém deixa um grão de arroz pra amanhã", Rita aparecendo do nada como se morasse ali há anos, e o Victor circulando pela cozinha com a cara mais lavada do planeta, como se ele não tivesse me colocado em cima do balcão mais cedo e quase virado personagem principal de uma surra de pano de prato. Eu tentei manter a normalidade. Eu precisava de normalidade. Depois da ligação da minha mãe, meu corpo ainda tava meio em alerta, como se a qualquer momento alguém fosse invadir e me puxar de volta pra vida antiga pela nuca.
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