Logo pela amanhã sou acordada com o barulho de batidas na porta, levanto-me apressada e abro, encontro o senhor Santoro do outro lado e minhas mãos gelam.
— Vamos. — segura por meu braço me tirando de dentro do quarto.
— Para onde? Me solta, está me machucando. — tento me solta mas ele me aperta mais, parando de repente no corredor.
— Se você der mais uma palavra apertarei ainda mais. — sentia como se suas palavras fossem o próprio punhal a me matar. Elas eram frias e cheias de raiva.
Ele me arrasta pelas escadas abaixo, tropeço algumas vezes mas ele me levanta com grosseria, meus cabelos estavam soltos o que me deixa incomodada e ainda mais por estar de camisola.
Ele me joga dentro do carro e um homem me segura, grito por socorro mas ninguém parecia me ouvir, Dante assume o volante saindo da propriedade cantando pneus, meu corpo corria no banco conforme ele passava pelas curvas em alta velocidade.
— Por favor, eu te imploro, para o carro. — choro copiosamente, sentia o pânico dominar meu corpo, só conseguia pedir a Deus para que me salvasse.
— Não quer mais me desafiar, Helena? — pergunta firme em tom de provocação.
— Não, não quero.
— Ah... mas eu sim, não está se divertindo? — ele acelera ainda mais fazendo-me gritar, o carro parecia voar pela pista.
Em um piscar de olhos estávamos em frente à um galpão velho, sou arrancada a força do carro por ele. E o homem nos segue logo atrás.
— Anda. — fala atrás de mim.
Forço minhas pernas moles a andar, olho ao redor vendo que não havia possibilidade alguma de fugir dali sem levar um tiro na cabeça.
Ele me empurra para uma entrada lateral, o lugar tem um cheiro forte de ferrugem, e de algo podre, causando-me arrepios.
Mesmo com a má iluminação consigo vê alguns homens posicionados nas laterais do galpão, chegando mais perto vejo quatro homens amordaçados e presos por correntes de suspensão.
Aparentemente eles haviam levado uma surra, um deles estava pior que os outros, seus olhos estão inchados e ensangüentados.
— Hoje você é minha convidada de honra. — Dante fala para mim. — Tragam uma cadeira para ela, vai precisar. — ele me puxa de forma desajeitada, me aproximando dos homens, uma cadeira de ferro descascada é colocada atrás de mim e eu sou empurrada contra ela.
— O nosso jogo será baseado em perguntas e respostas. — tira o blaser revelando o coldre com duas armas. Instintivamente balanço a cabeça concordando.
— O que você acha que aconteceu aqui? — pergunta olhando para os homens amordaçados.
— Não sei — digo baixo.
— Ôh baby, como não? Eles entraram na minha casa e fizeram lambança, foram no meu galpão e mataram meus homens. Quase igual a você, entrou na minha casa e fala comigo como quer, toma suas próprias decisões. Talvez queira me matar também! Você quer me matar, Helena?
— Ah meu Deus. — choro sem acreditar, cobrindo meu rosto com as mãos.
— Não era essa a resposta que eu esperava, não chame por Deus agora que está no inferno. Resposta errada. — o barulho oco e o tilintar da cápsula no chão faz um zumbido em meus ouvidos. Olho incrédula para o homem se engasgando com seu próprio sangue.
— Não, não, não... — grito apavorada, tento me levantar mas ele aponta a arma para mim mandando sentar novamente.
— Onde paramos? — pergunta despretensiosamente.
Eu podia ver a diversão em seus olhos, ele estava contente por ver meu sofrimento e o sofrimento daqueles homens. — Acho que no... você quer me matar?
— NÃO — Grito para ele, os soluços travam minha garganta, sentia-me suja e exposta aos olhos de todos. — Por favor, me leva para casa, não quero mais ficar aqui.
— Calma freirinha, estamos apenas começando. Só me dê as respostas e tudo ficará bem! Você acha que ele merece piedade? Seja sincera. — aponta para o homem de blusa laranja, preso ao lado do que Dante havia acabado de matar.
— Todos merecem uma segunda chance. — digo com a voz arrastada.
— Ah o que é isso? Reposta errada, Helena. — e sem que eu perceba ele dispara contra o homem — Na máfia não existe segunda chance, isso mostra fraqueza, e aqui, no meu mundo, isso não existe.
— Para, por favor, para. — sentia como se meu corpo estivesse sendo arremessado ao chão várias e várias vezes.
— Já falei, isso é apenas um jogo. Basta dar a resposta correta e tudo ficará bem. Você já está com o sangue de duas pessoas em suas mãos. — Olho para minhas mãos trêmulas, estava começando a delirar vendo-as sujas de sangue.
— Não, eu não fiz nada. — digo mais para mim do que para ele, tento a todo custo limpar minhas mãos na roupa.
— Vamos lá, se concentre. Aquele ali, é o pior de todos, traiu a todos da famiglia, traiu sua fraternidade. — ele se aproxima do homem que está mais ferido tirando sua mordaça.
— Per favore, non uccidermi. — o homem fala algo em italiano.
— Deveria se envergonhar por estar implorando por sua vida, tenha mais dignidade. — grita para o homem que balança a cabeça repetidas vezes. — Quais são os nossos maiores princípios?
— Fidelidade, obediência, sobriedade e moderação a famiglia. — todos os homens presente no galpão respondem em uníssono.
— Repitam — grita para eles.
— Fidelidade, obediência, sobriedade e moderação a famiglia. — suas vozes soam mais forte.
— Você acha Helena que ele merece uma segunda chance? Que ele merece ter piedade? Dê-me a resposta que eu quero e tudo terminará bem. — olha para mim em busca de uma resposta. E tudo terminará bem...
— Ele não merece. — digo o que ele queria ouvir.
— Excelente freirinha, você está pegando o jeito. Ele não merece mesmo e é por isso que vai morrer também. — sem dó nem piedade ele atira contra a barriga do homem até descarregar sua arma.
— Você disse que tudo ficaria bem. — digo enquanto choro.
— Para mim está tudo perfeito. O último ali eu nem vou me dar o trabalho de lhe perguntar, mas vou deixar claro uma coisa. — chega perto de mim, sussurrando em meu ouvido — Quando somos traídos pela primeira vez a culpa é deles, mas a segunda, essa é culpa nossa. Todos que se levantaram contra mim estão mortos, e todos os outros que se levantarem irão morrer também. Espero que você não seja uma dessas pessoas... — ao terminar de dizer pega sua outra arma, matando o último homem.
Sinto minhas vistas escurecerem e tudo se torna um borrão a minha frente, eu estava prestes a desmaiar, as últimas palavras que eu ouço são: Nunca mais ouse me desafiar.
Levanto sentindo minha cabeça pesada, demoro mais que o necessário para entender que eu estou na casa novamente, o quarto está escuro, a única luz é a do relógio ao lado da cama, marcando 01:03am.
Por quanto tempo eu havia dormido?
Sentia minha cabeça doer muito e meu corpo fraco, meus olhos instantaneamente enchem de lágrimas, puxo minhas pernas abraçando-as no peito, nunca havia me sentido tão sozinha desde que eu nasci, queria voltar para minha casa, para o mosteiro, lá eu sabia como lidar com meus problemas.
Eu havia presenciado a morte de quatro pessoas, uma delas poderia ter sido eu, eu poderia estar morta neste exato momento.
Chorar não estava resolvendo muito, só fazia minha cabeça doer ainda mais, vou ao banheiro tirando a camisola que está extremamente suja, me forço a entrar no chuveiro.
A água fria me dá um pouco de alívio, me perco no tempo debaixo dele, a água me deixava mais calma, ao sair dela os sentimentos voltam e a dor também, me olho no espelho, desta vez encarando meu reflexo sem medo, meus olhos estão triste, sem vida, vermelhos e inchados.
Coloco uma calça de pano mole e uma blusa que cobrem os meus pulsos, minha barriga ronca na mesma intensidade que minha cabeça dói, crio um empasse dentro de mim, se eu deveria ou não sair do quarto para comer algo e tomar algum remédio.
Abro a porta espreitado o lado de fora, ouvindo um silêncio ensurdecedor, ando até o quarto de Marco, com quem ele ficou todo esse tempo?
Vejo o garotinho dormir, aliso seus cabelos por um tempo, era uma pena ele ter que viver no meio disso tudo, arrumo seu lençol e beijo sua testa antes de sair do quarto.
Desço as escadas percebendo o silêncio, vou a cozinha encontrando alguns sanduíches naturais já pronto, minhas mãos tremem de fome, pego um deles devorando logo em seguida, me sirvo de suco de uva, sentindo-me mais saciada ao beber.
Procuro o kit de primeiros socorros nas gavetas, pegando o remédio para dor. Ponho o comprimido na boca engolindo com o auxílio do suco, ouço um barulho ao longe e meus pés estancam no chão, eram como burburinhos ou sussurros, quem estava a cochichar uma hora dessas?
Lentamente, saio da cozinha, seguindo de onde vinham os sussurros, ao parar perto da sala de jantar, um barulho alto de coisa se partindo me faz querer gritar, minha respiração está acelerada, me aproximo ainda mais cobrindo a boca com a mão ao vê-lo.
A sala está um pouco escura mas dava para ver o senhor Santoro aos beijos com Catharina, que está sobre o aparador, ele aperta seus cabelos e ela murmura contra seus lábios, sua outra mão passeia por sua coxa, trazendo-a para mais perto dele, sua mão sobe e desce por sua perna, levantando seu vestido.
Ela arranha o pescoço dele e ele solta um gemido sufocado do fundo de sua garganta. Tento sair mas algo naquela cena fazia com que eu quiser ficar ali e ver o que iria acontecer, meu coração parecia querer sair do meu peito, minhas mãos formigam e eu não consigo entender o que se passava dentro de mim.
Os dedos ansiosos de Catharina buscam pelo cinto de Dante, desatando a fivela de seu cinto, ele a tira do aparador como se ela não pesasse nada, a colocando de bruços sobre a mesa, ele beija seu pescoço enquanto aperta sua b***a, suas mãos vão até a barra do seu vestido, puxando para cima.
Ele morde sua b***a e ela arqueia as costas, quando ele desce sua calcinha saio correndo, me bato em algo no caminho fazendo barulho, subo as escadas como nunca havia subido antes, indo para o quarto e me trancando lá.
Sentia meu coração bater na minha garganta e o ar me faltar, sento na cama tentando me acalmar, vejo a maçaneta virar, eu sabia que era ele, mas ele não insiste muito indo embora logo depois.
Minha noite estava sendo péssima, não tinha conseguido dormir e quando finalmente o fiz, fui acordada por Marco batendo na porta dizendo que tinha tido um pesadelo, a princípio tinha achado que era o senhor Santoro e fiquei encabulada em abrir, mas assim que ouvi sua voz doce abri sem pestanejar, agora o garotinho estava deitado ao meu lado dormindo serenamente.
Ainda era madrugada então forcei-me a dormir novamente.