Já havia se passado duas semanas desde o último dia que havíamos nos visto na sala, ele teve que viajar a negócios naquela mesma madrugada.
Minha única dor pela sua partida era ver que Marco sentia a sua falta, e estava triste por ele ter ido sem nem ao menos se despedir.
Agora estávamos na sala com algumas malas prontos para ir embora daquela casa e ir para onde Marco dizia ser sua "casa de verdade".
Ele está sentado no chão brincando com seus carrinhos. O dia está frio e chuvoso, e isso me fazia pensar ainda mais, o mesmo sentimento de quando o vi pela primeira vez havia se apoderado de mim.
Naquela noite eu não consegui dormir, minha mente tentava processar e ainda tenta, sobre a morte da garota, e desde então eu não parava de sonhar com ele apertando o gatilho e me matando.
Igman aparece pegando as malas e me olhando de soslaio, o motorista nos avisa que o carro já está a postos do lado de fora.
Fecho o agasalho de Marco, e o ajuda a ir para o carro, o ar quente me faz sentir mais confortável, vejo que estávamos fazendo o mesmo caminho de quando cheguei a propriedade, estávamos indo para a pista.
— Hele, será que o papà estará na Sicília? — pergunta manhoso se encostando em mim.
— Amor, eu não sei, mas em breve ele estará em casa — afago seus cabelos — não fique tão apreensivo.
Ele assente ficando em silêncio.
Nossa pequena viagem foi silenciosa o único barulho eram das hélices, fiquei bem surpresa com a naturalidade que era para Marco viajar de helicóptero.
Dormimos o percurso inteiro, mas mesmo assim eu me sentia exausta.
De cima podia ver que a propriedade era imensa, tinha um lago, campo de futebol, e mais algumas coisas que eu não conseguia identificar.
Ao pousar somos recebidos por alguns funcionários que ajudam a pegar as malas de Marco e as minhas que eram agora duas sacolas, já que eu havia ganhado algumas roupas de Dana, que logo mais estaria aqui também, ela me explicou que era a governanta principal da casa e que sempre cuidava do Marco.
Eu sentia a luxúria daquele lugar e me reprimia ao sentir isso, não é certo, é pecado.
Ultimamente meus pensamentos me traíam, não estava sendo fácil para mim, talvez Deus me enviou para cá, para ser testada.
Caminho pela grama úmida segurando Marco pela mão, observo o imenso lago ao longe, uma pena estar tão frio, se não adoraria sentar perto dele e ler um livro.
A casa de mármore branca a minha frente chama minha atenção, as grandes janelas de vidro traziam charme e elegância ao lugar, ao entrar percebi que eu nunca teria isso me convertendo à igreja e virando uma freira, apesar de me deixar curiosa eu não sentia a necessidade de ter tudo isso ou coisa parecida, achava minha vida perfeita do jeitinho que ela era.
A casa tem um pé direito alto, lustres pendem no teto, no meio da sala tinha uma estátua, com a assinatura de Michelangelo, deve ter custado muito caro, a sala é vasta e bem decorada em tons de preto e branco.
Uma moça está parada próximo a porta da sala, Marco corre para abraçá-la. Ela tem os cabelos longos e escuros, sua pele é morena e os olhos são de um tom esverdeado, sua roupa é extremamente colada e chamativa.
— Cata, que saudades — fala carinhoso.
— Oi Marco, também senti sua falta. E quem é esta moça? — pergunta agora me encarando.
— Hele, minha nova amiga — sorri docemente.
— Sou Helena, babá do Marco! — me apresento.
— Ah sim, só não pensei que seria uma freira. — ri baixo e eu fico sem entender. — Dante tem sérios problemas com quem é religioso. Muito me admira ainda estar viva...
— Deus tem me ajudado.
— Que cansativo! — ela revira os olhos e eu me calo.
— Sou Catarina, a namorada.
— Namorada? De quem?
— Do Marco que não é — debocha — Sou a namorada de Dante.
— Senhor... — murmuro, então ele a trai? — Namorada?
— Sim, por que? Tinha algum interesse nele? — olha com deboche.
— Não, senhora.
— Melhor assim, caso contrário darei sua carne aos cachorros. — joga o cabelo para detrás dos ombros.
— Papà está aqui? — Marco pergunta, vejo o brilho em seus olhos.
— Não, pensei que estivesse com vocês. — vejo seus olhos decaírem.
— Ele saiu a umas duas semanas a trás para uma viagem de negócios. — digo.
— Peço para que não entre na conversa dos outros, saiba onde é seu lugar... — fala puxando Marco para outra sala.
Uma senhora leva minhas sacolas e eu as pego de sua mão agradecendo por sua hospitalidade, ela me orienta sobre onde é o quarto de Marco e por último o meu.
— Não ligue para ela, só é uma pessoa tola que tenta a qualquer custo se sobressair para ser o centro das atenções do senhor Santoro.
— É lamentável...
— Pois é, minha querida. Não esqueça que Marco tem aula de inglês agora a tarde, o almoço será servido em 15 minutos.
— Certo, obrigada. — sorrio e ela se despede saindo do quarto. O quarto é quase do mesmo tamanho que o outro, a cama é convidativa e os lençóis brancos são macios, parecia bastante com o outro, a varanda fica de frente para a piscina e o jardim. Depois de arrumar as poucas peças no closet desço em busca de Marco para o almoço.
— O que seu pai fez ultimamente? Viu ele com alguma mulher? Você me contaria não é Marquinho? — Ouço a mulher indagar. Cristo tenha piedade.
— Marco? Vamos almoçar? — pergunto e ele se levanta depressa.
— Ele irá depois, estamos conversando — olha duro.
— Você é muito entrona e m*l educada garota.
— Para crescer fortão preciso almoçar quando a tia Hele fala, não é tia Hele? E eu não sou uma criança desobediente. — ele me olha de soslaio.
— Exatamente. — seguro sua mão e saímos do cômodo indo para o balcão da cozinha.
— Não gosto quando ela fica me enchendo de perguntas sobre o papà, uma vez ele brigou muito comigo porque eu disse que tinha uma moça de cabelo vermelho aqui.
— Eita Marco... — olho arregalado para ele.
— É... — balança a cabeça concordando e dando de ombros.
Um homem alto entra na cozinha ajeitando as mangas do terno, os cabelos escuros e os olhos esticados me faz imaginar que ele era algum japonês ou chinês.
— Padrino — Marco fala alto.
— Oi garotão, soube que já tinha chegado então vim te ver. — bagunça os cabelos do garotinho enquanto ele sorri — Helena não é?
— Sim! — sorrio sem graça por não saber quem ele é.
— Sou Armano, braço direito de Dante, ouvi falar que você já está dando dor de cabeça... Se eu fosse você não tentaria muito a sorte, não somos de brincar com nossa palavra!
— Sim, senhor. — Fico quieta, não estava em busca de confusão alguma.
Tão rápido quanto apareceu ele se foi, fiquei em silêncio enquanto a comida era servida, ajudei Marco a comer e espetei um pouco de comida com o garfo, sem necessariamente estar com fome.
Uma voz família vinha da sala, Marco saltou de sua cadeira e correu gritando por seu pai, levantei e o segui, o senhor Santoro estava em pé na sala de estar, meu coração parecia um beija-flor batendo suas asas, sua mandíbula está cerrada e seus olhos estão infernais.
Ele estava irritado com algo, seus olhos caíram sobre mim por alguns segundos porém não me disse nada, Marco está agarrado ao seu pescoço e ele recebe um carinho suave em seus cabelos.
— Senti saudades. — Marco o abraça forte.
— Precisei resolver algumas coisas, mas já estou de volta.
Ouço barulho de saltos correndo e a mulher cujo dizia ser namorada de Dante aparece no nosso campo de visão.
— Amorzinho, pensei que nunca mais iria vê-lo. Me abandonou... — faz beicinho beijando seus lábios repentinamente.
— O que faz aqui Catharina? — pergunta sendo grosseiro.
— Não é óbvio? Senti sua falta, quero vê-lo. — era perceptível que tinha algum problema entre eles dois, e que provavelmente a história na cabeça dela estava um pouco distorcida sobre o relacionamento deles.
Vejo o horário no relógio de pulso, já estava quase na hora de Marco ir, resolvo me aproximar deles dois, o que faz com que o senhor Santoro me olhe estranho.
— Marco terá aula daqui a pouco. — Aviso para ele.
— Não quero ir... — Marco choraminga apertando ainda mais o pescoço do pai.
— Mas você precisa ir. — Dante fale em tom alto e ele se encolhe em seus braços.
— Amor? — chamo o pequeno e Dante me olha de lábios crispados pela forma carinhosa. — eu sei que você está com saudades do seu pai, e ele também deve estar morrendo de saudades de você. Mas você precisa ser um mocinho e ir para a aula, tudo bem? — estendo os braços para ele que vem e apoia a cabeça em meu ombro ainda chorando. Afago suas costas enquanto ele abraça meu pescoço.
— A noite assistiremos a um filme, tudo bem? — Dante propõem, de forma suave.
— Sério? — ele levanta a cabeça secando suas lágrimas com as mãozinhas.
— Juramento de sangue — O senhor Santoro toca no peito de Marco.
— Juramento de sangue. — Marco grita empolgado colocando a palma de sua mão no peito do pai. Ele se aproxima de nós dois, sua respiração faz cócegas em minha pele, ele beija a face de Marco, ficando ainda mais próximo de mim, então ele se afasta indo para outro cômodo com Catharina.
Marco termina de almoçar e o motorista busca ele, que sai todo contente por mais tarde ter um tempo com o pai.
A tarde não tinha muito o que fazer, então decidi conhecer a casa, em uma das muitas portas que eu havia aberto, encontrei uma vasta biblioteca, meus olhos brilharam por ver tantos livros, passando os dedos por eles, decido escolher algum para ler, dentre eles um me chamou atenção, cujo o título é "O inferno de Dante".
Sentei-me em uma das namoradeiras da biblioteca lendo o primeiro canto, me perdi no tempo e nas coisas que estavam descritas no livro.
Uma parte me chamou muita atenção: "No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise."
Agora me perguntava se eu já estive em uma posição de neutralidade, e isso fazia minha carne tremer por dentro.
Via que a luz natural baixava, o que indicava estar chegando no finalzinho do dia. Pego o livro tentando decidir se eu deixaria ele ali, ou levaria para o quarto, depois de alguns segundos decido deixar.
Saio do cômodo vendo o pessoal um pouco agitado, fico do lado de fora aguardando a chegada de Marco, ainda fazia bastante frio, mas agradecia por meu hábito me deixar quente.
Alguém passa por mim batendo em meu ombro com brutalidade, Igman me olha com um sorriso maroto nos lábios o que me faz ficar enojada.
— Deveria olhar por onde anda... — digo sem pensar muito.
— Quem é você para me dizer o que eu faço ou não? Freirinha imunda? — se aproxima, seu rosto me causa medo, meu corpo se arrepia. — Gosta de palavras suja não é? — passa o dedo indicador por minha pele arrepiada.
— Você realmente não conhece uma mulher, se não, saberia que estou é sentindo nojo de você, não me toque nunca mais. — cuspo as palavras em seu rosto tirando sua mão abruptamente de mim.
— Eu ainda vou te f***r duro, até vê-la sangrar e pedir por menos, sua v***a. Você não perde por esperar!
Ele se afasta quando vê o carro se aproximando, indo para longe. Tento segurar a qualquer custo as lágrimas que insistiam em querer cair, minha carne treme de medo e eu me sentia desnorteada, vejo Marco pular do carro e correr até mim, abraçando minhas pernas.
De alguma forma isso me trouxe conforto e me trouxe de volta aos poucos, o pego no colo abraçando forte.
— Uau... não sabia que tinha sentido tanta falta de mim. — sua voz doce e infantil atravessa a névoa que envolve os meus ouvidos.
— Claro que sinto. — digo levando-o para dentro. — Vá para o quarto, preciso ir na cozinha. Te encontro lá daqui a pouquinho! — bagunço seus cabelos e o deixo no pé da escada e ele sobe pulando de dois em dois degraus. — Sem correr Marco. — peço e ele sobe com mais calma.
Precisava urgentemente de uma água para acalmar os nervos, vou a cozinha encontrando uma moça preparando o jantar.
— Está tudo bem? Você está pálida. — ela pergunta ao me ver.
— Hum, sim. Deve ser o frio, estava lá fora. — encho um copo com água, derramando fora dele algumas vezes, minhas mãos estavam tremendo.
— Qual horário prefere que seja servido o jantar ? — pergunta.
— Não sei, o senhor Santoro come qual horário?
— As seis ou sete, mas ele não está aqui. — corta a couve.
— Ele não deve demorar muito.
— Provavelmente. — sorri.
Ao subir encontrei Marco já de banho tomado, penteando seus cabelos.
— Ligeiro em? — pego a escova de sua mão desembaraçando seus cabelos.
Estávamos na sala de tv a mais ou menos uma hora, esperando pelo senhor Santoro, e parece que ele não iria chegar tão cedo, Marco estava impaciente e triste.
— Ele não vem né? — Sua boca se enverga para baixo e seu queixo treme, as lágrimas silenciosas rolam por seu rosto.
— Ele deve ter tido algum problema, você sabe que seu pai é ocupado.
— Ele está sempre ocupado Hele, papà não me ama, eu só queria que a mama estivesse aqui, ela me amava. — chora mais alto e eu o puxo para mim.
— Ei, ele te ama sim. Vamos esperar mais um pouco, ele vai aparecer. — beijos seus cabelos e ele deita no meu colo, seu choro é baixo e continuo.
Dói meu coração vê-lo sofrendo por um pai que não é presente, ele é uma criança tão amável, não merecia estar passando por isso.
Em algum momento eu e Marco adormecemos no sofá, só percebi quando acordei com um barulho, as luzes estavam acesas e o tilintar de chaves chama minha atenção.
Levanto com cuidado a cabeça de Marco do meu colo e levanto seguindo o barulho, eram 04:12 da manhã.
Antes mesmo de sair da sala ele aparece na porta, seus olhos vão de mim para Marco no sofá, sentia minha pele borbulhar de ódio.
— O que estão fazendo aqui? — seu semblante está mais colérico que antes, seus olhos estavam escuros, nunca o tinha visto assim, ele parecia ainda pior depois desta última viagem.
— O que o senhor acha? — digo não me importando muito. — Alguém prometeu aquele garotinho que assistiria filme com ele.
— Merda. — ouço ranger os dentes.
— Ele chorou a noite inteira porque você não apareceu, ele só quer sua atenção. Você nem ao menos pergunta como ele está, ou tira um tempo para ficar com ele, simplesmente some, não manda uma mensagem, não faz uma ligação, ele só quer você por perto, você já percebeu o brilho nos olhos dele quando você está?
— Eu tive alguns problemas não pude vir. — fala tenso, suas mãos estão fechadas em punho.
— Não poderia ao menos ligar? Dar um jeito de avisar? Ele acha que você não o ama, ele sente saudades da mãe e pelo visto do pai também que parece já ter morrido faz tempo. — as palavras saem da minha boca com facilidade, não estava medindo o estrago e nem sabia o que iria acontecer.
— Você acha que eu ando brincando na rua? Eu tive a p***a de um maldito dia, homens da máfia russa invadiram um dos meus galpões e matou dez dos meus homens. Eu não pude vir, não tive tempo de ligar. — ele fala com a voz contida, mas era possível sentir sua raiva. Ele chega perto apertando meu braço. — Eu não vou tolerar que você me desrespeite em minha própria casa.
— E o que você vai fazer, em? — digo contra seu rosto. — Me matar? Então me mata, isso só seria um alívio para minha alma.
Sua mão entra no véu encravando os dedos no meu coque, puxando minha cabeça para trás fazendo encara-lo, o aperto doía.
Sua respiração soprava forte em meu rosto, ele levanta a mão no alto e eu fecho meus olhos me preparando para o impacto de sua mão contra minha face, mas ele pareceu ponderar, me largando de forma abrupta em seguida.
— Suma da minha frente. — fala entre dentes. Vou até Marco para pega-lo mas ele me para.
— Eu o levo para cama, sou a p***a do pai dele.
— Então, deveria agir como um pai de verdade. — pego ele no colo mesmo assim e vou para o quarto.