– O Peso da Rejeição

995 Words
A vida de Isla nunca mais foi a mesma depois da rejeição de Dorian Blackthorn. Se antes era apenas uma jovem discreta, agora era um estorvo. O ar dentro da matilha pesava, carregado de olhares que a perfuravam como lâminas. O que antes eram cumprimentos cordiais, transformou-se em silêncio incômodo, em cochichos e risadas abafadas quando ela passava. Seus pais, Hector e Marla Ravennor, tornaram-se estranhos dentro da própria casa. Hector não falava com ela; apenas desviava os olhos como se a filha tivesse se tornado um erro de sangue. Marla, antes tão cuidadosa, agora deixava pratos vazios à mesa, como se não valesse o esforço de cozinhar para alguém que havia trazido vergonha à família. Coma se quiser ... disse a mãe certa noite, colocando pão duro e água na ponta da mesa. Mas não espere que vou desperdiçar ingredientes com você. Isla não respondeu. As palavras já não tinham espaço em sua garganta. Engoliu o pouco alimento, sentindo o gosto amargo não só do pão ressecado, mas da rejeição impregnada nele. A humilhação mais c***l, no entanto, não vinha apenas da família, mas do próprio Alfa. Dorian fazia questão de exibir Selene Veyra, sua nova companheira, como se fosse um troféu cintilante. Selene era bela, de traços finos e postura altiva, e gostava de sorrir de forma que Isla soubesse exatamente que aquele sorriso era para feri-la. Numa manhã de reunião, Isla foi obrigada a servir bebidas aos membros da matilha. Dorian entrou no salão de pedra com Selene pendurada em seu braço. O olhar dele a encontrou, frio, calculado. Baixe a cabeça, ômega ... ordenou, a voz grave ecoando entre as paredes. Ela obedeceu, o rosto voltado para o chão. Mas o peso da humilhação se multiplicou quando Selene inclinou-se para sussurrar algo no ouvido de Dorian, e os dois riram como se ela fosse um espetáculo degradante. Mais rápido, Isla! ... a voz do Beta, Caelan Draven, cortou o ar. Ele a empurrou pelo ombro para que apressasse o serviço. Você serve a matilha, não o contrário. O copo escorregou de suas mãos e caiu no chão, espalhando vinho pelo piso. O silêncio que seguiu foi como o anúncio de uma sentença. Inútil ... murmurou Dorian, alto o suficiente para que todos ouvissem. Limpe de joelhos. Isla sentiu o rosto queimar, mas não havia escolha. Ajoelhou-se, recolhendo os cacos com as mãos nuas. Um deles cravou-se em sua palma, o sangue manchando o pano que usava. Quando ergueu os olhos por um segundo, encontrou o sorriso de Selene ... satisfeito, c***l. Os dias seguintes não foram diferentes. Era castigada com trabalhos que nenhum outro lobo de sua idade suportaria: carregar água até a madrugada, esfregar o chão até os dedos sangrarem, enfrentar o frio da noite guardando portões sem qualquer proteção. Cada tarefa vinha acompanhada do olhar vigilante de Caelan, o Beta, pronto para denunciá-la se hesitasse. Dentro dela, Nathasa, sua loba, permanecia em silêncio. Era como se o elo entre ambas tivesse se tornado frágil, um fio prestes a se romper. Às vezes, Isla a ouvia sussurrar, quase um eco distante: Aguente… só mais um pouco… Mas a força já não vinha. O corpo recusava-se a mudar de forma, como se a rejeição tivesse condenado sua essência à fraqueza. O peso não era apenas físico. Liora Hale, sua melhor amiga, passou a evitá-la. Antes inseparáveis, agora Liora atravessava a rua quando a via se aproximar. Certa tarde, quando Isla tentou chamá-la, a resposta foi um corte no peito. Não posso ser vista com você, Isla. Liora não a olhou nos olhos. Eu… eu também seria alvo de zombarias. Entenda. Ela entendeu. Entendeu tão bem que as lágrimas não caíram; ficaram presas, sufocando-lhe a garganta. O golpe final veio de seu próprio pai. Um encontro no corredor da casa. Hector, alto e imponente, passou por ela sem sequer reconhecê-la. Os ombros roçaram de leve, mas ele seguiu adiante como se tivesse atravessado um fantasma. Era isso que se tornara: um fantasma entre vivos. --- Certa noite, Dorian decidiu levar a crueldade além. Reuniu parte da matilha na clareira central, sob a luz da lua. Selene estava ao seu lado, adornada com joias que refletiam a prata da noite. Hoje celebramos o fortalecimento de nossa aliança ... anunciou o Alfa, a voz firme, dominadora. E para que não restem dúvidas, é preciso mostrar que fraqueza não será tolerada entre nós. Seus olhos recaíram sobre Isla. Venha até aqui, ômega. O coração dela disparou. Os pés se arrastaram, pesados, até parar diante de todos. O murmúrio da matilha era uma melodia c***l. Você falhou como minha companheira destinada. Dorian se aproximou, o olhar de desprezo a perfurando. Agora falhará como m****o da matilha, se não aprender a obedecer. Ele fez sinal para Caelan, que entregou-lhe uma corda grossa. Dorian jogou-a aos pés de Isla. Amarre lenha para a fogueira. E faça isso em silêncio, para que todos saibam que sua voz não tem valor aqui. As mãos dela tremiam enquanto segurava a corda. Cada pedaço de madeira parecia pesar toneladas. Mas Isla trabalhou até os dedos ficarem dormentes, sob os olhares de riso da matilha. Quando terminou, caiu de joelhos, exausta, respirando com dificuldade. Selene inclinou-se para Dorian e murmurou: Ela é patética. É isso que quero que todos vejam ... respondeu ele, sem esconder a voz. O coração de Isla sangrava, mas seus olhos permaneceram secos. No fundo, uma centelha ardeu. Nathasa sussurrou, suave, mas firme: Você não nasceu para viver de joelhos. Foi nesse instante que Isla percebeu. Podiam rir, podiam humilhá-la, podiam quebrar seu corpo com castigos. Mas dentro dela, escondida em silêncio, havia algo que eles não podiam tocar: a resistência. Levantou-se devagar, não como uma rebelde, mas como alguém que ainda não havia desistido de si mesma. Ajoelhou-se diante do Alfa, cabeça baixa, cumprindo o papel esperado. Por fora, era submissão. Por dentro, era promessa. Promessa de que, um dia, não seria mais o fantasma que todos ignoravam.
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