– A Sombra da Sobrevivência

970 Words
O frio da madrugada entrou pelas frestas da janela quebrada do quarto que lhe restara. O espaço era pequeno, m*l cabia a cama estreita de madeira onde Isla repousava, e as cobertas finas já não aqueciam seu corpo. Cada respiração vinha acompanhada de dor; as marcas das últimas surras ainda latejavam, roxos espalhados pelas costas e braços, lembranças gravadas na carne da humilhação que sofrera. Quando abriu os olhos, demorou alguns segundos para se convencer de que realmente estava desperta. A exaustão se tornara sua companheira inseparável. Cada dia parecia mais difícil que o anterior. “Você ainda está viva.” A voz suave de Nathasa, sua loba, ecoou dentro de sua mente. Isla apertou os olhos, desejando poder se perder naquele timbre familiar. Às vezes não sei se isso é bênção ou castigo… murmurou. “É sobrevivência. E enquanto eu falar com você, ainda não acabou.” O problema era que Nathasa já não tinha a mesma força de antes. Antes da rejeição, a loba era sua âncora, vibrante e imponente, pulsando como fogo dentro dela. Agora, m*l passava de uma brisa distante, sempre cansada, sempre frágil. A quebra do vínculo não apenas partira o coração de Isla; havia arrancado de Nathasa a vitalidade que a definia. E o pior: Isla não conseguia mais se transformar. Na primeira vez que tentou, foi desesperador. Havia fugido dos olhares maldosos da matilha e se escondido entre as árvores próximas, suplicando pela mudança, querendo sentir o conforto da pele se desfazendo para dar lugar ao pelo. Mas nada aconteceu. O corpo estremeceu em espasmos de dor, os ossos chegaram a doer, mas a transformação nunca veio. Desde então, Isla carregava não apenas o título de rejeitada, mas também a vergonha de ser uma loba incapaz de se tornar lobo. --- A matilha não deixava que ela esquecesse. Sempre havia alguém pronto para lembrá-la de seu fracasso. Veja, a inútil está entre nós outra vez ... riu uma das fêmeas na cozinha comunitária, quando Isla se aproximou para pegar água. Será que ela ainda pensa que pertence à alcateia? Pertencer? ... outro riu. Pertencer é para quem tem valor. Os risos ecoaram e, quando Isla saiu apressada, quase derrubando o balde, a gargalhada foi ainda mais c***l. Naquele mesmo dia, Caelan Draven, o Beta, a interceptou no corredor da sede da matilha. Ele era alto, imponente, e seus olhos não escondiam o prazer em vigiá-la. O Alfa pediu que a cozinha fosse limpa antes do banquete desta noite ... disse, cruzando os braços. Você sabe o que acontece se algo estiver fora do lugar. Ela sabia. A lembrança dos últimos castigos ainda queimava em sua pele. Eu farei, Beta ... respondeu em voz baixa. Mais alto ... ele exigiu, inclinando-se sobre ela. Quero que todos ouçam como a rejeitada ainda implora por lugar aqui. Isla engoliu em seco e repetiu, desta vez mais firme: Eu farei. Caelan sorriu satisfeito e se afastou. Ela correu até a cozinha, limpando cada canto até os dedos racharem. O cheiro de sangue misturado ao de sabão era sufocante, mas ela não parou até que o chão refletisse como vidro. --- À noite, a humilhação atingiu um novo nível. O banquete reuniu todos os membros da matilha. Dorian Blackthorn, o Alfa, entrou com Selene ao seu lado, mais radiante que nunca, como se tivesse nascido apenas para ser exibida. Ela sorria com os lábios pintados de vermelho, uma mão pousada no braço dele, sinal de posse. Isla foi obrigada a servir as mesas. Passava entre os guerreiros e as fêmeas, todos rindo, conversando alto, fingindo que ela não existia até que fosse conveniente zombar. Cuidado para não deixar cair, ômega ... disse um deles quando ela colocou a travessa diante dele. Você sabe que a sujeira gosta de você. As palavras arrancaram risos ao redor. Isla manteve a cabeça baixa, como aprendera a fazer, mas por dentro sentiu-se dilacerada. Quando finalmente chegou à mesa do Alfa, o silêncio caiu. Dorian a olhou como se ela fosse um inseto incômodo. Mais vinho, Isla. A voz dele era fria, carregada de autoridade. Ela se apressou a encher a taça dele. As mãos tremiam tanto que o líquido quase transbordou. Inútil ... ele murmurou, não tão baixo. Selene inclinou-se para ele, com um sorriso c***l. Deveríamos colocá-la para entreter os servos. Pelo menos assim teria alguma utilidade. Os dois riram, e Isla sentiu a garganta arder. Terminou seu trabalho e recuou, voltando ao fundo da sala como uma sombra. --- Mais tarde, sozinha em seu quarto, o peso das humilhações desabou sobre ela. As mãos ainda tremiam, e ela apertava o travesseiro contra o peito como se aquilo pudesse preencher o vazio que sentia. Por que, Nathasa? ... sua voz saiu rouca. Por que ainda estamos aqui? A loba respondeu depois de alguns segundos de silêncio. “Porque ainda não é hora. Porque, mesmo quando eles tentam nos destruir, existe algo que não podem tirar.” Mas eu não consigo mais me transformar… Isla sentiu as lágrimas escorrerem. Eu sou fraca, inútil. “Você não é inútil. Eu estou aqui. Ainda respiramos, ainda caminhamos. Enquanto isso acontecer, não estamos derrotadas.” As palavras trouxeram um conforto breve, mas insuficiente. Isla sabia que estava se apagando. Cada dia como ômega humana era uma condenação. Sem poder se transformar, estava indefesa contra qualquer ameaça, fosse da matilha ou da floresta além dos muros. E, no entanto, havia algo dentro dela que se recusava a morrer. Era uma faísca pequena, quase invisível, mas que resistia mesmo à escuridão. Talvez fosse Nathasa, talvez fosse o último resquício de esperança. Não importava. Isla respirou fundo, limpou as lágrimas e fechou os olhos. O corpo estava quebrado, o coração em ruínas, mas no fundo da alma havia uma promessa silenciosa: ela ainda não tinha desistido. Ainda não.
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