– A Última Chance

875 Words
As semanas seguintes pareceram décadas. O desprezo da matilha se intensificava dia após dia, como se cada um competisse para ver quem conseguia ferir mais fundo. O que antes eram risos abafados e cochichos maldosos se tornaram zombarias abertas, escancaradas. Isla já não tinha refúgio. Até mesmo sua melhor amiga ... a única que até então ousava dirigir-lhe um olhar de compaixão ... passou a evitá-la. Um dia, ao cruzarem no corredor do refeitório da matilha, Isla sorriu com a esperança de um aceno discreto. Mas a amiga virou o rosto, fingindo não vê-la, e acelerou o passo. O coração de Isla se partiu de forma irreparável. Se nem aquela que um dia lhe prometera lealdade estava disposta a arriscar sua posição por ela, então não restava mais ninguém. --- Na universidade o dia que ia limpar porque estudar ela já no poderia mais, os ataques eram ainda mais cruéis. Os colegas a chamavam de a rejeitada inútil. Livros eram derrubados de suas mãos, a cadeira em que sentava era chutada, bilhetes com insultos. Os professores fingiam não ver ... afinal, contrariar o Alfa era impensável. Certa manhã, ao tentar se concentrar em uma tarefa, alguém sussurrou alto o suficiente para que todos ouvissem: Como uma rejeitada poderia ainda estar aqui? Ela nem é digna de pisar nessa universidade. A sala inteira riu. Isla fechou os olhos, sentindo a garganta arder, mas permaneceu em silêncio. Se respondesse, só daria a eles mais munição. --- Em casa, a dor era ainda maior. Seu pai, que antes lhe oferecia um mínimo de proteção, agora passava por ela como se fosse um fantasma. Não havia sequer um olhar, uma palavra. Apenas o vazio. Era como se sua existência fosse uma vergonha que ele precisava esquecer. Naquela noite, Isla se encolheu no pequeno quarto e chorou até a exaustão. “Nem sangue, nem laços... ninguém me quer aqui.” Sua loba permaneceu silenciosa, como se compartilhasse do mesmo cansaço. --- O estopim veio em um treino da matilha. O Alfa parecia particularmente disposto a esmagar qualquer resquício de dignidade que Isla ainda guardava. Ordenou que ela enfrentasse três guerreiros de uma vez. Ela sabia que não teria chance. E, ainda assim, tentou resistir. Recebeu socos, chutes, foi jogada ao chão inúmeras vezes. O corpo implorava para desistir, mas o orgulho não permitia que permanecesse caída. Quando finalmente não conseguiu mais se levantar, o Alfa se aproximou. Seus olhos brilhavam com crueldade. Patética ... disse, alto o bastante para que todos ouvissem. Uma vergonha para esta matilha. Ele fez um gesto, e os guerreiros a seguraram pelos braços, obrigando-a a se ajoelhar diante dele. Então, sem nenhuma compaixão, ele a golpeou no rosto. Isla sentiu o gosto metálico do sangue na boca, mas não chorou. Já decidi ... anunciou o Alfa, erguendo a voz. Amanhã, ao nascer do sol, será enviada ao exílio. Não há lugar para você entre nós. Um murmúrio de aprovação percorreu a multidão. Para eles, era como varrer a sujeira para fora da casa. Isla, com o corpo em frangalhos, manteve os olhos fixos no chão. Por dentro, algo se quebrava ... mas junto com a dor, nasceu uma centelha. --- Naquela noite, deitada em sua cama, o corpo dolorido e a mente em turbilhão, Isla ouviu sua loba pela primeira vez em dias. “Se ficarmos... morreremos.” Ela engoliu em seco. A sentença do Alfa já estava traçada. O exílio seria apenas uma execução lenta, jogada na floresta sem recursos, sem proteção, caçada pelas feras e pelo abandono. Então vamos fugir ... ela sussurrou, quase sem acreditar nas próprias palavras. Não vou esperar que ele decida o meu fim. “Será perigoso...” Mais perigoso do que ficar? Isla retrucou, com amargura. Aqui não tenho mais nada. Nem amigos. Nem família. O silêncio que se seguiu foi como uma aprovação silenciosa de sua loba. --- Isla ficou acordada até tarde, o coração acelerado, ouvindo cada estalo da casa, cada passo no corredor. Se fosse pega, a punição seria ainda pior que o exílio. Mas ela já não tinha escolha. Quando a lua alcançou o ponto mais alto, levantou-se em silêncio. Reuniu poucas coisas: uma muda de roupa, um pedaço de pão roubado da cozinha e uma garrafa de água. Era pouco, quase nada ... mas era tudo o que podia carregar sem chamar atenção. Antes de sair, olhou uma última vez para a casa que deixava para trás. Não sentiu saudade. Não sentiu pesar. Apenas vazio. --- Ao atravessar os portões da matilha, o coração de Isla parecia querer escapar do peito. A noite estava fria, e cada sombra parecia um inimigo à espreita. Mas o medo era menos sufocante que a certeza da morte se ficasse. Com passos rápidos, ela entrou na estrada que levava à florestas proibida. O vento gelado batia em seu rosto, trazendo lágrimas involuntárias. “Estamos indo, Isla.” ... a loba sussurrou, com mais força do que antes. “Agora é só nós duas.” Isla apertou os lábios, determinada. O mundo diante dela era incerto, selvagem e perigoso. Mas era também a única chance que tinha de sobreviver. E, pela primeira vez desde a rejeição, ela sentiu um lampejo de algo que há muito havia esquecido: esperança.
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