Rycon ainda estava em pé, o peito arfando, os punhos cerrados. Cada palavra de Cara queimava em sua mente, pintando um retrato de horrores que ele nunca poderia perdoar. Arthur não era apenas um homem violento — era um covarde, um predador, um monstro.
Ele olhou para Gael, adormecido, tão pequeno e frágil, e a raiva cresceu como um incêndio descontrolado.
Rycon tinha imaginado muitas coisas ao pensar que Cara escondia algo, mas nunca havia imaginado que seria aquilo, que a pessoa que estava ao lado dela e do filho fosse a responsável por sua dor e miséria.
— Onde ele está? — perguntou de repente, a voz grave, quase sombria.
Cara o encarou, surpresa, o coração disparado. Os seus olhos encontraram os dele e ela estremeceu; o que via estava além de pura fúria.
— Rycon...
— Me diga, Cara. — Ele se aproximou, os olhos faiscantes de fúria. — Onde Arthur está?
Ela balançou a cabeça, nervosa, desviando o olhar. Ela também queria saber onde ele estava. Cara sabia que só teria paz no dia em que soubesse que Arthur estivesse atrás das grades, pagando por tudo o que tinha feito.
— Eu não sei. Ele fugiu logo depois do que me fez; a polícia está atrás dele.
— Não se preocupe, tenho os meus meios de descobrir isso. Vou tirá-lo da toca em que se escondeu, disso você pode ter certeza — disse ele, a voz baixa, mas afiada como uma lâmina. — Esse homem quase te matou. Ele quebrou o corpo da mulher que eu... — interrompeu-se, respirando fundo, como se tivesse revelado mais do que queria. — Ele feriu o próprio filho.
Cara ergueu os olhos, tomada por um misto de medo e desespero. Ela queria estar errada, mas, pela forma como Rycon a olhava, ele lhe oferecia o que ela tanto desejava: a prisão de Arthur. Mas ela também pensava no que aconteceria caso o plano de Rycon desse errado — aquilo seria o seu fim.
— Eu fugi, Rycon — disse, a voz embargada. — Passei tempos escondida para que ele nunca mais nos encontrasse. Você não entende... se for atrás dele, vai trazer esse pesadelo de volta!
Ele se ajoelhou diante dela, os olhos em chamas. Ele podia ver o medo e a dor nos olhos de Cara, a forma como as lágrimas marcavam as suas bochechas; ela estava tão frágil, de um modo que ele jamais havia imaginado.
— Esse pesadelo nunca acabou, Cara — murmurou, com a voz rouca de emoção. — Você ainda vive com medo, ainda carrega as cicatrizes. Gael tem marcas que nunca deveriam existir. E eu... eu não consigo respirar sabendo que esse homem anda por aí, livre, como se nada tivesse acontecido.
Ela tremeu, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Você não sabe do que ele é capaz...
Rycon segurou as suas mãos, apertando-as com força, como se pudesse transmitir a sua própria determinação.
— Eu sei exatamente do que ele é capaz — respondeu, firme. — E é por isso que vou encontrá-lo. A diferença é que ele não sabe do que eu sou capaz — disse ele com um sorriso sombrio nos lábios.
O silêncio se alongou, pesado, até que Cara fechou os olhos, rendida.
— Se fizer isso... vai se sujar, Rycon — sussurrou, quase inaudível. — Não quero que pague por algo que não é sua obrigação.
Ele ergueu o rosto dela, forçando-a a encará-lo.
— Não — disse, com firmeza. — Vou cuidar de vocês, Cara, bem melhor do que esse inútil um dia fez.
O brilho nos seus olhos deixava claro: aquilo não era apenas uma promessa. Era uma sentença. Arthur estava marcado.
Rycon se levantou e caminhou até a janela. As luzes do hospital refletiam no seu rosto, endurecendo os traços. No fundo do peito, já começava a traçar o primeiro passo de um plano que não teria volta.
Ele não descansaria até encontrar Arthur.
— Por que está fazendo isso? Não somos sua responsabilidade — disse Cara, voltando-se novamente para ele.
— Passou a ser no momento em que seu filho desmaiou por minha causa — respondeu Rycon. Ele não estava pronto para confrontar o que sentia por Cara, mas também não a deixaria ir, não depois de tudo o que tinha ouvido dos seus lábios minutos antes.
— Isso é loucura! Você não pode estar pensando com clareza — exclamou ela, levantando-se e vindo em sua direção.
— Você está errada. Eu só faço o que quero e, neste momento, quero a cabeça do seu ex-marido numa estaca — disse ele. As palavras eram ríspidas, e Rycon se esforçava para não magoar Cara, mas toda vez que a sua mente se permitia lembrar da cicatriz de Cara e de Gael, a sua fúria dominava a sua razão.
Os olhos de Cara arregalaram-se diante das palavras dele. Um tanto hesitante, ela segurou o seu braço e o virou na sua direção. Cara procurou os olhos de Rycon, mas era como se ele usasse uma máscara — tudo o que ela via era a frieza que tomava o seu rosto.
— Use a cabeça, Rycon — pediu Cara.
Ele a olhou com a sobrancelha arqueada, e quando ela se lembrou do que tinha acontecido quando dissera aquilo, soltou-o rapidamente, dando um passo para trás. Rycon riu de sua atitude.
— Pervertido — murmurou ela, desviando o olhar.
— A única pervertida aqui é você; eu não disse nada — respondeu ele.
Rycon suspirou. Sabia que não adiantava bater de frente com Cara e não queria que aquela conversa se transformasse numa briga entre os dois. Pela primeira vez, Rycon queria um pouco de paz.
— Apenas confie em mim. Sei que não tenho lhe dado motivos para isso, mas preciso que confie em mim quando digo que vou cuidar disso.
Cara observou o rosto de Rycon e encontrou a sua expressão tranquila, bem diferente de minutos atrás, e, sem que percebesse, pegou-se concordando com o que ele dizia.