O silêncio pesado do quarto se quebrou quando a porta se fechou atrás de Rycon e César. O corredor branco, iluminado por luzes frias, parecia amplificar a inquietação que ambos carregavam. Por alguns segundos, caminharam lado a lado sem dizer nada. O som dos passos era a única música que acompanhava os seus pensamentos.
César respirou fundo, passando a mão pelos cabelos como quem tenta organizar a mente.
— Eu não consigo parar de pensar nela — murmurou, sem olhar para Rycon. — Em tudo o que Cara passou... e no medo de que ele volte. Arthur não pode, de jeito nenhum, chegar perto dela ou do Gael.
Rycon parou no meio do corredor, fazendo César se deter também. O olhar dele era firme, duro, mas havia uma chama de determinação que contrastava com a calma aparente. Ele se recusava a deixar que Cara se ferisse novamente, não enquanto estivesse por perto.
— Isso não vai acontecer — disse com convicção. — Já coloquei meu detetive no caso. Arthur não vai sair impune. Não depois do que fez.
César engoliu seco, os punhos cerrados.
— Eu só... — ele hesitou, buscando as palavras certas. — Eu só não quero que ela sofra de novo. Você sabe o que é ver alguém tão forte quebrar aos poucos? Eu vi isso acontecer com Cara uma vez e não desejo presenciar nada daquilo novamente. E ver Gael... aquele menino carrega nos olhos coisas que nenhuma criança deveria carregar.
Rycon respirou fundo, desviando o olhar por um instante, como se também fosse atingido pelas lembranças. A única coisa que o impedia de ir pessoalmente atrás de Arthur era a mulher e a criança no quarto ao lado.
— Eu sei. — A voz dele saiu mais baixa, carregada de uma raiva contida. — Arthur precisa pagar. Não só pelo que já fez, mas pelo que ainda representa. Ele é uma ameaça. E eu vou fazer questão de que cada passo dele seja vigiado.
César assentiu lentamente, mas havia algo mais em sua expressão.
— E se ele tentar de novo? Se ele não parar até conseguir?
Rycon estreitou os olhos. Ele não gostava de pensar naquela possibilidade, por mais real que fosse.
— Então eu mesmo vou cuidar disso.
O silêncio retornou, denso. César percebeu que não havia erro nas palavras de Rycon, apenas a certeza de quem já havia tomado uma decisão. Ele sentiu um alívio discreto, mas também uma pontada de temor: aquela promessa não vinha sem riscos, e ele sabia bem do que o filho era capaz. O nome de Rycon não havia sido forjado do nada no mundo dos negócios.
— Eu confio em você — disse, enfim. — Sei que vai fazer o melhor nesta situação, filho.
Rycon apenas assentiu, e voltaram a andar. O hospital parecia ainda mais silencioso, como se o próprio prédio aguardasse os próximos passos daquela batalha que se desenhava fora de suas paredes.
— Senhor, o pequeno Gael teve alta. Se desejar que eu os leve de volta, farei isso imediatamente — disse Geovani, aproximando-se de Rycon.
— Desde quando você namora a tia de Gael, Geovani? — perguntou César.
O auxiliar corou enquanto arrumava os óculos nos olhos.
— Nós nos conhecemos em uma das empresas que visitei a pedido do senhor Vasquez, faz pouco tempo — respondeu, desviando os olhos.
— Isso é bom, vai ser meus olhos agora — disse Rycon, com um sorriso de canto.
Cara jamais permitiria que ele a vigiasse como devia, mas agora ele tinha Geovani, que sempre estaria por perto e poderia mantê-lo informado sobre tudo o que acontecia na casa de Cara.
— Mas, senhor...
— Vou considerar isso como hora extra e pagar o dobro do convencional — disse Rycon antes que ele pudesse recusar.
Geovani encarou o chefe com os olhos arregalados. As suas horas extras já eram bem altas em valor; se ele pagasse o dobro, conseguiria um bom dinheiro.
— Já que está pedindo com tanto jeitinho, senhor, eu não poderia negar — respondeu ele, com um sorriso.
— Ótimo. Me informe sobre qualquer coisa que possa ser um problema no futuro — disse Rycon.
César observava o filho com um sorriso no rosto. Queria saber até quando Rycon esconderia o sentimento que tinha por Cara.
— Então devo levar a senhorita Cara e o pequeno Gael para casa? — perguntou Geovani.
— Não! Eu mesmo cuido disso — respondeu ele rapidamente, fuzilando Geovani com o olhar.
— Não vai esperar o resultado dos exames dela? — perguntou César.
— Eles me enviam depois. Quero ter certeza de que ela realmente está bem.
Rycon deixou os dois no corredor e retornou para o quarto, encontrando Gael já arrumado para partir. Ele foi até o menino e o pegou em seus braços, fazendo-o rir.
— Não precisa, ele pode andar — disse Cara.
— Eu sei, mas ele não pesa nada. Não vai me incomodar levá-lo para casa.
— Eu vou chamar um táxi, apenas espere um pouco — disse Cara, pegando o telefone da bolsa.
Rycon suspirou frustrado e pegou o telefone da mão de Cara.
— Eu vou levar vocês, não precisa se preocupar com isso — disse ele, guardando o telefone no bolso e saindo com Gael nos braços.
— Mandão — disse Cara.
— Apenas aceite, querida. Rycon pode ser muitas coisas, mas ele cuida das pessoas que são importantes para ele — disse Mira, passando por Cara.
Cara queria discordar do que Mira tinha dito, mas, durante aquele dia, Rycon tinha demonstrado uma mudança que ela não imaginava ver no CEO m*l-humorado com quem convivia.
Assim que chegaram ao estacionamento, Rycon colocou Gael no carro e prendeu seu cinto de segurança. Em seguida, abriu a porta de Cara e, antes que ela pudesse colocar o cinto, ele se inclinou na sua direção, os olhos fixos nos dela. Cara sentiu a respiração travar e os olhos se arregalarem enquanto o rosto dele se aproximava mais do dela. Então, ele puxou o cinto e o prendeu, afastando-se com um sorriso no rosto. Ele gostava de saber que Cara não era imune ao seu charme.