Cara segurava o coração enquanto o pequeno avião descia em direção ao solo. Aquele com toda certeza era um sentimento que ela não esqueceria tão cedo. Quando as rodas do trem de pouso tocaram o solo, um pequeno grito escapou de seus lábios. Então, tudo se aquietou e o avião deslizou até chegar ao hangar.
— Você está bem? — perguntou Rycon, quando o motor foi desligado. Ele olhava com preocupação os lábios pálidos de Cara.
— Sim. — respondeu ela, desviando o olhar rapidamente.
— Vamos, mamãe, quero ver os cavalos. — disse Gael, abrindo o cinto de segurança que usava.
— Se acalme, garoto, me deixe abrir a porta primeiro. — disse Rycon, passando por ele e bagunçando seus cabelos.
Rycon abriu a porta e acionou a pequena escada para que eles pudessem desembarcar. Gael desceu primeiro, animado com a experiência. Cara vinha mais atrás, quando viu Rycon parado na escada, e estacou.
— Venha, eu te ajudo. — disse ele, estendendo a mão para ajudá-la a descer.
— Posso fazer isso sozinha. — disse ela, desconfiada de sua cortesia.
— Eu sei, mas estou tentando evitar que você caia de cara no meu chão. — respondeu ele, sem nenhum traço de humor.
Cara queria retrucar, mas Rycon apenas suspirou e pegou em seu braço, ajudando-a a descer.
— Seu grosso. — respondeu ela, chateada.
— De nada. — disse ele, entrando novamente para pegar as bagagens.
Cara olhou com o rosto fechado para Rycon, mas, ao mesmo tempo, não pôde deixar de notar como a b***a dele ficava perfeita na calça jeans que usava. Quando percebeu para onde sua mente estava indo, corou, desviando o olhar.
— Você finalmente está aqui. — disse Luka, aproximando-se de Cara com um sorriso.
— Sim, e viva. — respondeu ela, brincando com ele.
— Primeira vez que voa?
— Sim. — respondeu ela, um pouco sem graça ao se lembrar do grito que tinha dado ao pousar.
— Você se acostuma com o tempo. — disse ele com naturalidade.
Rycon saiu do avião e encontrou Luka conversando com Cara de forma animada. Seu rosto escureceu e, sem poder se conter, jogou uma das bolsas sobre ele.
— Leve essa. — disse, com o maxilar trincado, enquanto caminhava em direção à caminhonete com Gael ao seu lado.
— O que deu nele? — perguntou Luka, com uma ruga no meio da testa, sem entender o comportamento do futuro sócio.
— É mais fácil você perguntar o que não tem de errado com ele. — disse ela, fazendo Luka rir.
— Vamos, não queremos deixá-lo mais irritado do que já está.
O humor de Rycon tinha acabado no momento em que Cara e Luka entraram no carro. O riso, a conversa tranquila entre eles, até mesmo o respirar dos dois o incomodava. Suas mãos apertavam cada vez mais forte o volante do carro e, ao que parecia, os convidados não haviam percebido a forma assassina com que Rycon os encarava pelo retrovisor.
Assim que chegaram à casa da fazenda, Rycon desceu do carro batendo a porta com força. Caminhou a passos apressados em direção aos estábulos e, minutos depois, eles o viram passar em disparada montado em um cavalo n***o.
Cara tentava entender o que tinha acontecido com ele, mas não encontrava nada em sua mente. Naquele momento, o arrependimento de ter aceitado ir até ali batia forte em seu peito.
— Por que estão aqui fora? E onde está Rycon? — perguntou César, saindo e encontrando suas visitas na porta da casa com a bagagem nas mãos.
— Ele acabou de sair a cavalo, César. — disse Cara, ainda sem entender o que tinha acontecido.
— Esse meu filho… — disse César, balançando a cabeça. — Ele tem estado muito estressado com alguns assuntos da empresa. Me desculpem por isso.
— Não se desculpe, senhor Vasquez, entendemos perfeitamente. — disse Luka.
— Me chamem apenas de César. Vamos entrar, há um café da manhã divino preparado para vocês. — disse ele, animado, enquanto pegava a bagagem de Cara e abria a porta para eles entrarem.
Cara observava com admiração a casa da fazenda: uma estrutura com vigas de madeira exposta, com cômodos amplos que destacavam o estilo de vida do campo em cada pequeno detalhe.
— Finalmente chegaram. — disse Mira, descendo as escadas e vindo até eles. — Espero que gostem do café da manhã que a Marta preparou para vocês.
— Não precisava se preocupar, senhora. — disse Cara, constrangida.
— É claro que precisava, e sei que ela vai amar ter mais algumas pessoas elogiando a comida dela. — respondeu Mira, fazendo-os rir.
Quando chegaram à sala de jantar, havia uma mesa que fez os olhos de Cara saltarem de espanto: tinha comida para um batalhão de pessoas.
— A tia que cozinhou é muito boa, senhora. — disse Gael, estendendo a mão para pegar um pedaço de bolo.
— Gael! — disse Cara, o parando.
— Deixe-o se servir, Cara. Essa mesa foi feita especialmente para vocês. — disse Mira, puxando uma cadeira e ajudando Gael a sentar.
— Foi mesmo, e quero ver esse pequeno com a barriga bem redondinha e bem alimentado. — disse uma mulher entrando na sala e servindo Gael.
— Esta é a Marta. Ela é uma cozinheira maravilhosa e uma boa amiga. — disse Mira, dando um beijo em Marta.
— Não se deixem levar, isso tudo é apenas interesse. — respondeu ela, sorrindo.
— Olha que eu tomo de volta aquela bolsa que trouxe para você na última viagem. — disse Mira.
— Esqueça, senhora, ninguém me tira aquela bolsa, não enquanto eu estiver viva. — disse ela, fazendo-os rir.
— Bem, dona Marta, não vou cometer a desfeita de não experimentar as coisas maravilhosas que você preparou. — disse Luka.
— Isso mesmo, senhor, quero que todos tomem um café reforçado antes de saírem. — disse ela, animada.
— Cara? — chamou ele, puxando uma cadeira para ela se sentar.
— Obrigada.
Cara observava todos à mesa conversarem de forma tranquila, mas em seu peito havia um incômodo que se recusava a sair. E ela sabia que aquilo tinha a ver com a forma como Rycon tinha saído.