Irritação

1039 Words
Cara segurava o coração enquanto o pequeno avião descia em direção ao solo. Aquele com toda certeza era um sentimento que ela não esqueceria tão cedo. Quando as rodas do trem de pouso tocaram o solo, um pequeno grito escapou de seus lábios. Então, tudo se aquietou e o avião deslizou até chegar ao hangar. — Você está bem? — perguntou Rycon, quando o motor foi desligado. Ele olhava com preocupação os lábios pálidos de Cara. — Sim. — respondeu ela, desviando o olhar rapidamente. — Vamos, mamãe, quero ver os cavalos. — disse Gael, abrindo o cinto de segurança que usava. — Se acalme, garoto, me deixe abrir a porta primeiro. — disse Rycon, passando por ele e bagunçando seus cabelos. Rycon abriu a porta e acionou a pequena escada para que eles pudessem desembarcar. Gael desceu primeiro, animado com a experiência. Cara vinha mais atrás, quando viu Rycon parado na escada, e estacou. — Venha, eu te ajudo. — disse ele, estendendo a mão para ajudá-la a descer. — Posso fazer isso sozinha. — disse ela, desconfiada de sua cortesia. — Eu sei, mas estou tentando evitar que você caia de cara no meu chão. — respondeu ele, sem nenhum traço de humor. Cara queria retrucar, mas Rycon apenas suspirou e pegou em seu braço, ajudando-a a descer. — Seu grosso. — respondeu ela, chateada. — De nada. — disse ele, entrando novamente para pegar as bagagens. Cara olhou com o rosto fechado para Rycon, mas, ao mesmo tempo, não pôde deixar de notar como a b***a dele ficava perfeita na calça jeans que usava. Quando percebeu para onde sua mente estava indo, corou, desviando o olhar. — Você finalmente está aqui. — disse Luka, aproximando-se de Cara com um sorriso. — Sim, e viva. — respondeu ela, brincando com ele. — Primeira vez que voa? — Sim. — respondeu ela, um pouco sem graça ao se lembrar do grito que tinha dado ao pousar. — Você se acostuma com o tempo. — disse ele com naturalidade. Rycon saiu do avião e encontrou Luka conversando com Cara de forma animada. Seu rosto escureceu e, sem poder se conter, jogou uma das bolsas sobre ele. — Leve essa. — disse, com o maxilar trincado, enquanto caminhava em direção à caminhonete com Gael ao seu lado. — O que deu nele? — perguntou Luka, com uma ruga no meio da testa, sem entender o comportamento do futuro sócio. — É mais fácil você perguntar o que não tem de errado com ele. — disse ela, fazendo Luka rir. — Vamos, não queremos deixá-lo mais irritado do que já está. O humor de Rycon tinha acabado no momento em que Cara e Luka entraram no carro. O riso, a conversa tranquila entre eles, até mesmo o respirar dos dois o incomodava. Suas mãos apertavam cada vez mais forte o volante do carro e, ao que parecia, os convidados não haviam percebido a forma assassina com que Rycon os encarava pelo retrovisor. Assim que chegaram à casa da fazenda, Rycon desceu do carro batendo a porta com força. Caminhou a passos apressados em direção aos estábulos e, minutos depois, eles o viram passar em disparada montado em um cavalo n***o. Cara tentava entender o que tinha acontecido com ele, mas não encontrava nada em sua mente. Naquele momento, o arrependimento de ter aceitado ir até ali batia forte em seu peito. — Por que estão aqui fora? E onde está Rycon? — perguntou César, saindo e encontrando suas visitas na porta da casa com a bagagem nas mãos. — Ele acabou de sair a cavalo, César. — disse Cara, ainda sem entender o que tinha acontecido. — Esse meu filho… — disse César, balançando a cabeça. — Ele tem estado muito estressado com alguns assuntos da empresa. Me desculpem por isso. — Não se desculpe, senhor Vasquez, entendemos perfeitamente. — disse Luka. — Me chamem apenas de César. Vamos entrar, há um café da manhã divino preparado para vocês. — disse ele, animado, enquanto pegava a bagagem de Cara e abria a porta para eles entrarem. Cara observava com admiração a casa da fazenda: uma estrutura com vigas de madeira exposta, com cômodos amplos que destacavam o estilo de vida do campo em cada pequeno detalhe. — Finalmente chegaram. — disse Mira, descendo as escadas e vindo até eles. — Espero que gostem do café da manhã que a Marta preparou para vocês. — Não precisava se preocupar, senhora. — disse Cara, constrangida. — É claro que precisava, e sei que ela vai amar ter mais algumas pessoas elogiando a comida dela. — respondeu Mira, fazendo-os rir. Quando chegaram à sala de jantar, havia uma mesa que fez os olhos de Cara saltarem de espanto: tinha comida para um batalhão de pessoas. — A tia que cozinhou é muito boa, senhora. — disse Gael, estendendo a mão para pegar um pedaço de bolo. — Gael! — disse Cara, o parando. — Deixe-o se servir, Cara. Essa mesa foi feita especialmente para vocês. — disse Mira, puxando uma cadeira e ajudando Gael a sentar. — Foi mesmo, e quero ver esse pequeno com a barriga bem redondinha e bem alimentado. — disse uma mulher entrando na sala e servindo Gael. — Esta é a Marta. Ela é uma cozinheira maravilhosa e uma boa amiga. — disse Mira, dando um beijo em Marta. — Não se deixem levar, isso tudo é apenas interesse. — respondeu ela, sorrindo. — Olha que eu tomo de volta aquela bolsa que trouxe para você na última viagem. — disse Mira. — Esqueça, senhora, ninguém me tira aquela bolsa, não enquanto eu estiver viva. — disse ela, fazendo-os rir. — Bem, dona Marta, não vou cometer a desfeita de não experimentar as coisas maravilhosas que você preparou. — disse Luka. — Isso mesmo, senhor, quero que todos tomem um café reforçado antes de saírem. — disse ela, animada. — Cara? — chamou ele, puxando uma cadeira para ela se sentar. — Obrigada. Cara observava todos à mesa conversarem de forma tranquila, mas em seu peito havia um incômodo que se recusava a sair. E ela sabia que aquilo tinha a ver com a forma como Rycon tinha saído.
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