O pequeno monomotor vibrava suavemente enquanto cortava o céu azul. O som constante do motor enchia a cabine, mas não abafava a curiosidade de Gael, que parecia não se cansar de fazer perguntas. O menino se sentia como em um parque de diversões e a alegria tomava o seu pequeno rosto.
— Rycon, este botão aqui é para quê? — perguntou o menino, os olhos brilhando de excitação enquanto apontava para o painel cheio de mostradores e alavancas.
Rycon, normalmente tão seco e impaciente, inclinou-se um pouco e explicou com calma:
— Esse é o altímetro, Gael. Ele mostra a altura a que estamos. Agora estamos a quase mil metros do chão.
— Uau! — exclamou o pequeno, com a boca aberta de admiração. — E como é que sabe onde fica a fazenda lá de cima?
Rycon soltou uma risada curta, mas sincera, coisa rara nele. Ele estava se surpreendendo em como estava gostando da companhia do seu pequeno copiloto, Gael era um garoto expontaneo o que deixava Rycon confortável com a sua presença.
— Eu conheço essas terras desde pequeno. Cada curva do rio, cada linha de árvores... é como se fossem sinais no mapa que só eu sei ler.
Rycon tinha boas memorias da fazenda, para onde estavam indo havia sido a primeira fazenda que eles haviam adquirido, e ela tinha um valor especial para Rycon e a sua família.
Cara, sentada no banco de trás, observava em silêncio. O coração dela parecia apertar-se e aquecer ao mesmo tempo. Rycon tinha aquela dureza no olhar e no tom de voz que sempre a irritava, mas ali, ao lado do filho, revelava outra face — mais leve, quase terna.
“Como pode o mesmo homem que me tira do sério ser também aquele que faz Gael brilhar de animação?” — pensou.
Gael inclinou-se para a frente outra vez.
— E posso pilotar um dia também?
Rycon ergueu uma sobrancelha, mantendo os olhos na linha do horizonte. Ele podia ver a expectativa no rosto do pequeno, algo muito parecido com o que ele tinha quando criança e fazia a mesma pergunta ao seu pai.
— Talvez um dia. Mas primeiro tem de aprender a respeitar o avião. Ele não é um brinquedo, Gael. É preciso ouvir o motor, sentir o vento, confiar nos teus instintos.
Cara sorriu discretamente. A forma como ele falava parecia mais uma lição de vida do que apenas sobre pilotagem. E aquilo vindo de Rycon era bem mais do que ela poderia imaginar.
No fundo, ela odiava admitir, mas havia uma beleza na relação entre os dois, por mais que tivessem se conhecido apenas há dois dias. Uma parte dela queria guardar aquela imagem para sempre: Rycon descontraído, paciente, até carinhoso. Outra parte, mais orgulhosa, lembrava-se de todas as vezes em que ele a havia provocado ou ferido com a sua frieza.
“Será que esse homem que vejo agora é real? Ou apenas aparece quando Gael está por perto?” — questionou-se, sentindo um turbilhão de emoções contraditórias.
Com um balançar de cabeça Cara espanta aqueles pensamentos da sua cabeça. Rycon era filho do seu chefe e qualquer pensamento sobre ele que cruzasse aquela linha ela não permitiria que durasse na sua mente.
O avião balançou levemente com uma rajada de vento, e Gael agarrou-se ao banco, rindo em vez de se assustar.
— Isto é incrível!
Rycon lançou-lhe um olhar cúmplice e depois, por um instante, desviou os olhos para Cara. Havia ali algo não dito, algo que pairava no ar como as nuvens que os cercavam, e Rycon se pegava irritado ao pensar que não sabia o que o perturbava.
O céu parecia não ter fim. O pequeno monomotor avançava firme, deixando para trás campos verdejantes que se estendiam até onde a vista alcançava.
Gael, com as mãos inquietas sobre o colo, não parava de falar:
— Rycon, e se o motor parar? O que fazemos?
Rycon lançou-lhe um olhar rápido, com aquele ar sério que sempre o acompanhava. Mas a seguir suavizou o tom:
— Aí eu faço o avião planar, como uma ave. Encontramos um campo aberto e pousamos em segurança.
— Como uma águia? — os olhos de Gael brilharam, ele tinha ouvido falar sobre aquilo alguns dias atrás na escola.
— Exato, como uma águia. — Rycon deixou escapar um leve sorriso.
Cara observava. Era como assistir a um homem dividido: o Rycon que conhecia, sempre ríspido, e esse outro, que explicava o mundo ao filho com paciência e até um certo encanto. Ela não sabia ao certo qual deles era o verdadeiro.
Gael apoiou o queixo na janela, os olhos fixos no horizonte.
— Já consigo ver alguma coisa da fazenda?
Rycon inclinou-se ligeiramente, ajustando o manche com naturalidade.
— Ainda não. Mas vê aquele rio lá embaixo? — apontou com o queixo. — Segue em direção ao poente. Quando ele fizer uma curva grande, quase como um “S”, aí começa a terra que nos pertence.
— E quando era pequeno, também voava aqui em cima?
Rycon inspirou fundo, como se tivesse sido apanhado de surpresa pela lembrança.
— Não, Gael. Eu só sonhava com isso. Ficava lá embaixo, a olhar para o céu, a imaginar como seria. Agora… eu posso fazer isso quando quero.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo ronco do motor e pelo bater ritmado do vento contra a fuselagem.
Cara sentiu um nó na garganta. Ele podia ser duro, arrogante, até c***l às vezes. Mas ali, no meio do céu aberto, mostrava algo tão simples e verdadeiro que a desarmava completamente.
O avião começou a descer suavemente. Gael apertou os cintos com entusiasmo.
— Já estamos chegando?
Rycon assentiu.
— Lá está. — apontou. — Aquele retângulo mais claro no meio da mata, vê? É a pista da fazenda.
O coração de Cara disparou. Não sabia se era pela aterragem iminente ou pela sensação de que, ao tocarem o solo, ela também estaria em um território marcado pela presença de Rycon.