O dia tinha começado com uma nova animação no ar. Gael havia acordado Cara mais cedo do que ela imaginava; o menino estava animado com a visita à fazenda, mesmo que a sua mãe estivesse indo meio forçada. Cara queria evitar qualquer contato com Rycon, mas aquilo estava parecendo impossível nos últimos dias.
— O nosso pequeno homem acordou animado hoje — disse Lúcia entrando na cozinha.
— Animado demais para o meu gosto — respondeu Cara, fazendo a amiga rir.
— Eu quero ver os cavalos, tia! Em fazendas tem cavalos — disse ele animado.
— Sim, meu amor, lá deve ter muitos cavalos.
Cara gemeu ao perceber que não havia a menor chance de seu filho mudar de ideia quanto àquele assunto.
Alguns minutos depois, alguém bateu à porta. Quando Cara ia se levantar, Lúcia foi primeiro.
— Eu atendo — disse ela, abrindo a porta.
Quando Lúcia abriu, travou ao ver a pessoa parada à sua frente. Ele era alto, muito alto, moreno e com físico de dar inveja. Usava calças jeans e uma camisa de botões que parecia prestes a rasgar no peito de tão apertada que estava. Ele tinha um chapéu na cabeça e usava óculos escuros. No momento em que os retirou, o corpo de Lúcia se arrepiou por inteiro. O homem à sua frente tinha um olhar frio, como se o simples fato de Lúcia estar parada diante dele fosse uma ofensa.
— Vim buscar a Cara e o Gael — disse ele. Ao som daquela voz, Lúcia tremeu involuntariamente. Ele não havia dito nada ofensivo, mas seu corpo reagia de forma estranha.
— Quem é, Lúcia? — perguntou Cara, se aproximando.
Ao ver Rycon, Cara engoliu em seco. Nunca havia reparado em como seu chefe era bonito, mas, olhando para a forma normal como ele estava vestido, o seu corpo reagia de maneiras que ela não esperava. Balançando a cabeça, expulsou aqueles pensamentos. Era de Rycon que se tratava, e para ela ele sempre seria um demônio.
— Está pronta? — perguntou ele, ignorando o olhar dela sobre si. Rycon não queria pensar em como aquele olhar o afetava.
— Sim, já volto — disse ela, sem convidá-lo a entrar.
— Não... não quer entrar? — perguntou Lúcia, voltando a si.
— Espero aqui, obrigada — respondeu ele com a mesma voz sem emoção de antes.
Lúcia apenas sorriu e fechou a porta delicadamente. Tinha perguntas a fazer a Cara, muitas.
— Quem é esse homem, Cara? — perguntou, os olhos brilhando de curiosidade.
— O filho do meu chefe — respondeu ela, pegando a mochila no sofá.
Os olhos de Lúcia se arregalaram ao ouvir aquilo.
— Não brinca! Esse é o cara escroto de quem você falou antes?
— O próprio — respondeu ela, enquanto procurava o celular na sala. — Mas onde...
— Aqui, mamãe! Estava no quarto — disse Gael, entregando o aparelho.
— Obrigada, meu amor — disse ela, dando um beijo na testa do filho.
— Ainda estou aqui, sabia? — disse Lúcia, entrando na frente de Cara. — Tenho perguntas, e muitas.
— Prometo que respondo quando retornar.
— Não faz isso, Cara! Vou ficar morrendo de ansiedade até você voltar — disse ela, caindo no sofá de forma dramática.
— Você vai superar — disse Cara, rindo enquanto abria a porta.
— Chata!
Rycon observava Cara sair de casa rindo. A forma como ela sorria fazia o seu coração se derreter de uma maneira que ele não desejava. Ela caminhava até ele com o pequeno Gael ao seu lado.
— Bom dia, senhor — disse Gael, oferecendo-lhe a mão.
Rycon riu da forma tranquila como o garoto o tratava.
— Bom dia, garoto. Espero que esteja pronto para conhecer a fazenda — respondeu Rycon.
— Mais que pronto, senhor! Quero muito ver os cavalos — disse ele, animado.
— Então você vai gostar. Mas me chame apenas de Rycon — disse, enquanto abria a porta para Gael entrar.
Cara observava enquanto Rycon acomodava Gael no banco de trás e colocava o cinto de segurança nele. Depois, pegou a pequena bolsa que ela trazia na mão e colocou no porta-malas, entrando no carro.
— Vai entrar ou quer ir correndo atrás de nós? — perguntou ele, com um sorriso de canto.
Os olhos de Cara se escureceram com aquela provocação.
— Apenas se você estiver preso a uma guia — respondeu ela, também com um sorriso de canto.
— Está me chamando de cachorro? — perguntou ele, furioso.
— Se sabe do que estou falando é porque é verdade — respondeu ela, entrando no carro com tranquilidade.
— Você...
— O que é uma guia, mãe? — perguntou Gael.
— Algo que usamos para levar cachorros para passear — respondeu ela.
— Mãe, o senhor Rycon não é cachorro. Você se confundiu — disse Gael, na maior inocência, alheio à troca de farpas entre os dois.
— Você está certo, querido.
Rycon olhou pelo retrovisor com raiva. Cara estava obviamente brincando com a sua paciência, mas ele daria o troco — e não demoraria. O percurso até a pista de decolagem foi curto e, quando Gael viu o pequeno avião parado no hangar, não conteve a emoção.
— Não brinca! Vamos de avião! — disse animado.
— É mais rápido, e assim você poderá ver a cidade de cima — disse Rycon, puxando-o consigo enquanto caminhava em direção ao avião.
Cara observava a paciência de Rycon com seu filho e ficava satisfeita. Podia ter as suas diferenças com ele, mas era grata por não estender isso a Gael. Em silêncio, seguiu atrás deles, com um sorriso no rosto ao ver a felicidade que há tanto tempo não estampava o rosto do filho.