O silêncio acompanhava Cara e Gael durante a volta para casa. O motor do carro zumbia suavemente, enquanto as luzes da cidade passavam rápidas pela janela. Cara olhava de relance para o filho, sereno, com o rosto apoiado no vidro. Havia algo naquele instante que lhe trazia uma mistura agridoce de alívio e peso: alívio por tê-lo ao seu lado, inteiro, protegido; peso por saber que a infância dele já carregava sombras que nenhuma criança deveria conhecer.
Cara queria poder ser capaz de dar novas memorias para o seu filho, de poder apagar tudo o que ele tinha visto e ouvido, mas sabia que aquilo não seria possível. Ela era grata por seu filho ser tão forte e corajoso, Gael levava tudo o que tinha acontecido com mais tranquilidade do que ela poderia desejar, mesmo ela sabendo que el tinha um trauma a ser tratado, ele estava melhor que ela esperava.
Quando entraram em casa, o cheiro familiar trouxe uma sensação breve de segurança. Cara deixou as chaves na mesa e, com um gesto suave, chamou o filho para o sofá. Sentou-se ao lado dele, segurando-lhe as mãos pequenas, que pareciam ainda mais frágeis sob a luz amarelada da sala.
Os olhos de Cara param em um dos dedos de Geal que havia sido quebrado em uma das tentativas do menino de salvar a mãe das agressões do pai, a ferida tinha sarado, mas a cicatriz e memorias sempre permaneceriam vivas no menino.
— Gael, preciso que prestes muita atenção ao que vou dizer — começou, a voz embargada.
Os olhos do menino, grandes e atentos, encontraram os dela.
— O que aconteceu com a gente... — Cara respirou fundo, lutando contra o nó na garganta. — Não podemos contar a ninguém. As pessoas não iriam entender, e poderiam pensar coisas erradas sobre nós.
Gael franziu o cenho, genuinamente confuso. Ele não entendia como alguém poderia não entender o que tinha acontecido.
— Mas, mãe... nós não fizemos nada de m*l. Não temos culpa. Por que iriam pensar m*l?
A inocência do filho doía mais do que qualquer cicatriz. Cara acariciou-lhe o rosto com ternura e respondeu com esforço:
— Porque nem todos veem as coisas como elas realmente são. Algumas pessoas não compreendem... e podem julgar sem saber.
O silêncio se fez entre eles. Então, Gael apertou-lhe as mãos, como quem fazia um pacto.
— Está bem, mãe. Prometo que não vou dizer mais nada.
O coração de Cara apertou-se. Ela forçou um sorriso, inclinou-se e depositou um beijo demorado na testa do filho. Gael era mais compreensivo do que ela poderia pedir.
— Obrigada, meu amor. Agora vai descansar. — Diz ela o soltando para que pudesse ir se deitar.
Gael obedeceu, desaparecendo pelo corredor com passos leves.
Sozinha na sala, Cara deixou o corpo cair contra o encosto do sofá. A promessa do filho ecoava-lhe na mente como uma faca de dois gumes: protegia-os, mas também o condenava ao silêncio.
As lembranças voltaram, como sempre acontecia quando a noite chegava. O grito, a violência, a presença esmagadora daquele homem que um dia amara e que se transformara no seu pior pesadelo. Recordava o medo nos olhos de Gael quando presenciara as agressões. Esse era o peso mais c***l: saber que o filho, ainda tão pequeno, tivera de assistir ao desmoronar da mãe.
Lágrimas silenciosas escorriam-lhe pelo rosto. Pedia a si mesma que fosse forte, que não deixasse o passado vencer, mas a dor ainda vivia dentro dela, latejando. Sentia-se injusta por pedir ao filho um silêncio que talvez lhe roubasse parte da inocência, mas também sabia que não suportaria mais julgamentos, mais dedos apontados.
Ela e Gael mereciam paz. Mereciam recomeçar longe do monstro que os havia marcado.
E, em meio ao vazio da sala, Cara prometeu a si mesma — e ao filho adormecido — que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para nunca mais deixá-lo sofrer.
— Não devia pedir isso para ele. — Diz Lúcia se aproximando dela com um copo de água na mão.
Cara limpa as lágrimas que escorria por seu rosto e se vira para a amiga.
— Desculpe se te acordei, não era minha intenção. — Diz ela.
— Já estava acordada, estava vendo um filme, e não ouvi a sua conversa por querer, estava na cozinha quando chegou. — Explica ela
— Sabe que eu jamais pensaria m*l de você Lúcia. — Cara sabia que Lúcia era curiosa, mas ela sempre perguntava diretamente a ela quando queria saber de algo.
— Mas ainda acho que fez m*l em impedir que ele falasse sobre isso. Aquele menino precisa por para fora tudo o que aconteceu Cara, não é normal uma criança da idade dele não fazer um escândalo com o que houve. — Lúcia só queria que o sobrinho ficasse bem, e Gael era um menino doce e sensível e que precisava de ajuda para lidar com o que tinha acontecido.
— E sei que esta certa Lúcia, mas não quero mais ninguém se metendo nessa história, meu filho precisa de paz, e não ser apontado na rua como o filho da mulher que era agredida. — Diz ela com amargura, enquanto limpava as lágrimas que desciam por seu rosto sem a sua permissão.
— Quando você vai entender que o que aconteceu não tem nada a ver com vocês? Meu irmão é um maluco doente, e merece mofar na cadeia pelo que fez. — Lúcia havia criado profundo ódio pelo irmão após ver o estado em que Cara estava na última surra que ele tinha lhe dado, ela jamais perdoaria aquilo.
— Eu sei Lúcia...
— Será que você sabe mesmo Cara? Porque age como alguém que cometeu um crime e está fugindo da polícia. Você não sai, não se diverte, vive para trabalhar e voltar para casa.
As palavras de Lúcia eram cruéis aos ouvidos de Cara, mas mesmo não gostando de ouvir aquilo ela não podia negar a verdade por trás de tudo o que sua amiga dizia.