O corredor parecia mais estreito do que nunca. Cada passo de Rycon ressoava contra as paredes, pesado, seco, como se carregasse consigo a fúria e a incredulidade. O sangue ainda lhe fervia nas veias, não pela acusação em si, mas pela desonra de imaginar que até os próprios pais podiam duvidar dele.
Frio, calculista, de coração de pedra — essa era a imagem que todos tinham dele, e ele nunca fez questão de desmentir. Pelo contrário, cultivara-a. Era útil. Mas agressor? Levantar a mão contra uma mulher? Isso era um limite que ele jamais atravessaria. Não por moralidade, não por bondade, mas por uma linha que, em sua mente, definia quem era forte e quem era simplesmente covarde.
Ao entrar no escritório, a porta bateu com força atrás de si. A penumbra do espaço, iluminado apenas pela luz que se infiltrava pelas cortinas pesadas, combinava com o turbilhão dentro dele. Tirou o casaco e atirou-o na poltrona sem cuidado. O nó da gravata parecia sufocar-lhe a garganta, e por um instante considerou arrancá-la, mas resistiu — ele não se permitia sinais de fraqueza, nem mesmo quando estava sozinho.
— Senhor Rycon? — a voz de Geovani ecoou da porta, discreta, quase temerosa.
— Entre. — A resposta foi curta, ríspida, sem espaço para hesitações.
Geovani aproximou-se, sempre atento, sempre contido. Havia aprendido com o tempo a medir cada palavra diante do patrão, como se andasse sobre um campo minado.
Rycon virou-se lentamente, encarando o assistente com aquele olhar gelado que tantas vezes bastava para calar qualquer um.
— Quero que encontre o melhor investigador que temos à disposição. — Pausou, dando alguns passos até a mesa, apoiando-se nela como se planejasse o próximo movimento num tabuleiro de xadrez. — Preciso de um levantamento completo da vida de Cara. Quem ela é. O que esconde. O que a faz agir daquela maneira.
Geovani hesitou por um instante, mas logo acenou com a cabeça, anotando mentalmente cada ordem.
— Deseja que seja discreto, senhor?
Um breve sorriso curvou-se no canto dos lábios de Rycon, um sorriso que não trazia calor algum. Geovani o desafiava com aquela pergunta; ele sabia que gostava de manter os seus assuntos apenas para si, já que o contrato de trabalho especificava claramente que nada do que discutiam no trabalho ou fora dele poderia ser de conhecimento de terceiros.
— Sempre. Parece que andou esquecendo para quem trabalha, Geovani. — disse Rycon, com a sobrancelha arqueada.
O corpo de Geovani se arrepiou, como se uma corrente elétrica tivesse passado por ele. O olhar de seu chefe deixava bem claro o tipo de serviço que desejava, e ele tinha sido t**o ao esquecer disso.
— Me desculpe, senhor, vou cuidar disso imediatamente. — disse, retirando-se.
Enquanto Geovani se afastava para executar a ordem, Rycon recostou-se na poltrona de couro, fitando o teto por alguns segundos. Cara. Ela conseguira despertar nele algo raro: curiosidade. E isso o incomodava mais do que gostaria de admitir.
Não era o tipo de homem que se deixava perturbar facilmente. Ainda assim, a forma como ela o enfrentara, a coragem misturada ao medo nos olhos dela, deixava-lhe perguntas que não conseguia calar.
Frio e sem coração — era assim que gostava de ser lembrado. Mas, sozinho, não conseguia evitar a pontada de inquietação. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, alguém o tivesse feito sentir algo que não conseguia controlar.
A porta do escritório de Rycon se abriu com um silêncio sufocante. Ele nem sequer se deu ao trabalho de olhar para saber de quem se tratava — isso não importava mais, não depois das palavras que tinha ouvido.
— Sei que está chateado, mas precisa entender que não falamos por m*l. — disse César, sentando-se em frente ao filho.
— Não, papai, me acusaram de agressor por livre vontade e sem pressão. — respondeu, de forma sarcástica.
César revirou os olhos diante do comportamento infantil do filho. Conhecia-o bem e sabia que, por trás daquela casca grossa, havia uma pessoa gentil escondida, algo que poucos viam quando olhavam para sua aparência fria.
— Achamos que a tinha assustado, Rycon. Jamais pensaríamos que teria batido em Cara. Você pode ser muitas coisas, meu filho, mas eu o eduquei e sei bem como é o filho que criei. — respondeu César, com um olhar tranquilo sobre Rycon.
Rycon suspirou, virando-se para o pai. Não conseguia ficar bravo por muito tempo com César.
— Não acha estranha a forma como ela reagiu? — perguntou.
— Sim, mas vi as imagens das câmeras de segurança. Você também não foi gentil. — disse, com um olhar questionador.
— A culpa foi dela, que me desaforou novamente. Não pude me conter. — respondeu, desviando o olhar.
— Acho que precisa de uma pausa, filho. Você tem andado muito estressado com a empresa. Talvez um tempo longe lhe faça bem. — César não queria desgastar o filho ainda mais. Fazia anos que Rycon não tirava uma licença ou férias, e ele podia ver o quanto aquilo estava custando a ele naquele momento.
— Se está preocupado que eu possa matar alguém, pode ficar tranquilo. Isso não vai acontecer... ainda. — disse, segurando o riso ao ver a expressão do pai.
— Falo sério, Rycon. Podemos conversar e ver uma data para que você possa descansar. Eu cuido das coisas por aqui. — César só queria que o filho descansasse um pouco, e agora que Mira havia retornado, os dois poderiam cuidar de tudo sem problemas na ausência dele.
— Vou pensar sobre isso, papai, mas no momento tenho alguns compromissos que não posso adiar. — Rycon estava expandindo os seus negócios, e se afastar naquele momento significaria a perda de parcerias que havia lutado para conseguir, então não faria isso.
— Tudo bem, mas se mudar de ideia, me avise. — disse César, levantando-se e saindo, deixando Rycon só com os seus pensamentos.
No momento em que a porta se fechou, a mente de Rycon voltou-se para a única pessoa de quem devia manter distância, mas que, de alguma forma, a sua mente insistia em procurar.