Cara se sentia letárgica. Em um momento estava na sala de César, sendo atendida pelo médico; em outro, já estava em casa, sentada no sofá, olhando para o nada. Ela ainda lutava para assimilar tudo o que tinha acontecido naquele dia e, quando percebeu o que havia ocorrido, o desespero invadiu seu peito.
Era como se tudo o que tinha acontecido se repetisse em sua mente em câmera lenta e, pior, Cara não sabia como explicaria aquilo às pessoas sem revelar o que tinha vivido.
— Cara! Cara! — gritou Lúcia em desespero pela casa. Ao ver Cara sentada no sofá em lágrimas, sentiu seu peito arder.
Lúcia sempre havia admirado Cara por sua força e gentileza, mas a mulher diante dela não tinha nada daquilo. Havia apenas tristeza em seu olhar, à medida que as lágrimas desciam por seu rosto.
— Eu estou aqui, querida, você vai ficar bem — disse Lúcia, correndo até ela e a abraçando com força.
— Eu... eu não queria que isso tivesse acontecido — disse Cara, em prantos, agarrada a Lúcia.
— Shiiiii! Estou aqui, tudo vai ficar bem.
Lúcia permitiu que Cara chorasse em seus braços até se acalmar. Sempre desconfiara da calma de Cara diante de tudo o que havia acontecido e, ao que parecia, toda a dor e sofrimento tinham vindo à tona naquele dia — algo muito compreensível diante de tudo.
— Eles devem pensar que sou louca — disse ela, deitada no colo de Lúcia depois de alguns minutos.
— Acho que não, mas devem estar preocupados com você — respondeu, acariciando os cabelos de Cara.
— Se aquele i****a não tivesse me agarrado daquela forma, nada disso teria acontecido. — A vontade de Cara era dar uns tapas em Rycon pelo que ele havia feito, mas teria que engolir seu orgulho se quisesse manter o emprego.
— Sei que o que ele fez não foi certo, Cara, mas, de certa forma, ajudou a trazer à tona um problema que estava escondido dentro de você. Precisa cuidar disso.
Cara suspirou e se levantou do colo de Lúcia. Podia ver a preocupação brilhando nos olhos castanhos da amiga e uma ruga se formando em sua testa.
— Eu estou bem, isso não vai acontecer de novo — respondeu, ignorando o que Lúcia tinha dito.
— Sabe que precisa de ajuda, isso pode acontecer de novo — insistiu Lúcia.
— Eu vou ficar bem, não precisa se preocupar — disse, levantando-se e dando as costas à amiga.
Cara jamais reconheceria a verdade nas palavras de Lúcia. Apenas pensar em alguém se aproximando dela daquela forma já a fazia tremer. Mas precisava achar uma forma de lidar com aquilo — e uma consulta com um psicólogo não fazia parte de seus planos.
— E quanto ao Gael? Vai deixar que ele te veja dessa forma? — Lúcia não deixaria que Cara se prejudicasse como estava decidida a fazer.
— Ele não me verá assim, Lúcia. Sei me cuidar — disse, ignorando a presença dela na pequena cozinha.
Cara separou algumas coisas e colocou sobre o balcão. Iria preparar um jantar maravilhoso para eles e esperava que, com isso, Lúcia esquecesse o que tinha acontecido.
— Você... — começou Lúcia, mas o som de passos entrando na casa a fez se calar.
— Mamãe? Tia Lúcia? — perguntou Gael.
— Estamos na cozinha! — gritou Lúcia.
— Oi — disse ele, indo até Cara e lhe dando um abraço.
— Oi, amor, como foi seu dia na escola? — perguntou Cara, dando um beijo na bochecha dele.
— Foi bom, consegui uma estrelinha na aula de matemática — disse animado.
— Isso é muito bom, mais tarde quero ver essa estrela — disse ela. — Agora vá tomar seu banho, logo o jantar estará pronto.
— Mas eu queria brincar um pouco ainda.
— Não, Gael, já está tarde e você está fedendo — disse ela, tapando o nariz.
— Um gambazinho! — brincou Lúcia, fazendo uma careta para ele.
— Eu não sou um gambá, tia! — disse zangado.
— Para não ser um gambá, terá que tomar banho e deixar de ter esse cheiro — respondeu ela, arqueando a sobrancelha.
— Tudo bem, eu tomo banho — disse ele, indo para o banheiro.
— Ele está crescendo tão rápido — disse Cara, com olhar distante.
— Talvez esteja na hora de ter um novo pai — disse Lúcia, com um sorriso de canto.
Cara pegou o guardanapo da mesa e o jogou em Lúcia, fazendo-a rir.
— Você precisa de um pouco de diversão, Cara, e digo diversão de verdade com o sexo masculino. — Lúcia era uma festeira nata e só estava mais contida nos últimos dias porque haviam tido problemas e não podiam chamar atenção.
— Acho que deve estar falando de você mesma e não de mim — respondeu Cara, rindo.
— Eu estou conhecendo alguém — disse ela, fazendo Cara parar na mesma hora.
Cara a encarou e percebeu que havia algo diferente em seu rosto.
— Como assim você não me disse nada antes! — disse Cara.
— Tem apenas alguns dias. Ele contratou o serviço do escritório onde trabalho e pediu que eu cuidasse de tudo. Parece ser alguém bem interessante. — Lúcia não era daquelas pessoas que se apaixonavam rapidamente. Era muito pé no chão e, enquanto não conhecia bem a pessoa, não se envolvia totalmente. Mas, com o homem do outro dia, as coisas tinham sido diferentes.
— Pelo que vejo, alguém está caidinha de amor — respondeu Cara, rindo.
— Não ria, você sabe o quanto é difícil para mim me interessar por alguém.
— Eu sei, e espero que tudo dê certo para você, e que esse homem saiba valorizar a pessoa incrível que você é — disse, indo até Lúcia e lhe dando um beijo no rosto.
— Eu espero que sim, Cara, porque se ele não aceitar você e o Gael em minha vida, isso não vai funcionar — respondeu ela, de forma decidida.
— Ei, não faça isso. Não quero que estrague sua felicidade por nós.
— Vocês são minha família, Cara. Se ele não pode aceitar minha família, isso não vai funcionar.
— Boba, apenas seja feliz — disse Cara.
Lúcia apenas suspirou e deixou a amiga cozinhar em paz. Mas uma coisa era certa: quem a desejasse precisaria ter espaço em seu coração para sua família.