Abraço que acalma

1071 Words
Cara se sentia letárgica. Em um momento estava na sala de César, sendo atendida pelo médico; em outro, já estava em casa, sentada no sofá, olhando para o nada. Ela ainda lutava para assimilar tudo o que tinha acontecido naquele dia e, quando percebeu o que havia ocorrido, o desespero invadiu seu peito. Era como se tudo o que tinha acontecido se repetisse em sua mente em câmera lenta e, pior, Cara não sabia como explicaria aquilo às pessoas sem revelar o que tinha vivido. — Cara! Cara! — gritou Lúcia em desespero pela casa. Ao ver Cara sentada no sofá em lágrimas, sentiu seu peito arder. Lúcia sempre havia admirado Cara por sua força e gentileza, mas a mulher diante dela não tinha nada daquilo. Havia apenas tristeza em seu olhar, à medida que as lágrimas desciam por seu rosto. — Eu estou aqui, querida, você vai ficar bem — disse Lúcia, correndo até ela e a abraçando com força. — Eu... eu não queria que isso tivesse acontecido — disse Cara, em prantos, agarrada a Lúcia. — Shiiiii! Estou aqui, tudo vai ficar bem. Lúcia permitiu que Cara chorasse em seus braços até se acalmar. Sempre desconfiara da calma de Cara diante de tudo o que havia acontecido e, ao que parecia, toda a dor e sofrimento tinham vindo à tona naquele dia — algo muito compreensível diante de tudo. — Eles devem pensar que sou louca — disse ela, deitada no colo de Lúcia depois de alguns minutos. — Acho que não, mas devem estar preocupados com você — respondeu, acariciando os cabelos de Cara. — Se aquele i****a não tivesse me agarrado daquela forma, nada disso teria acontecido. — A vontade de Cara era dar uns tapas em Rycon pelo que ele havia feito, mas teria que engolir seu orgulho se quisesse manter o emprego. — Sei que o que ele fez não foi certo, Cara, mas, de certa forma, ajudou a trazer à tona um problema que estava escondido dentro de você. Precisa cuidar disso. Cara suspirou e se levantou do colo de Lúcia. Podia ver a preocupação brilhando nos olhos castanhos da amiga e uma ruga se formando em sua testa. — Eu estou bem, isso não vai acontecer de novo — respondeu, ignorando o que Lúcia tinha dito. — Sabe que precisa de ajuda, isso pode acontecer de novo — insistiu Lúcia. — Eu vou ficar bem, não precisa se preocupar — disse, levantando-se e dando as costas à amiga. Cara jamais reconheceria a verdade nas palavras de Lúcia. Apenas pensar em alguém se aproximando dela daquela forma já a fazia tremer. Mas precisava achar uma forma de lidar com aquilo — e uma consulta com um psicólogo não fazia parte de seus planos. — E quanto ao Gael? Vai deixar que ele te veja dessa forma? — Lúcia não deixaria que Cara se prejudicasse como estava decidida a fazer. — Ele não me verá assim, Lúcia. Sei me cuidar — disse, ignorando a presença dela na pequena cozinha. Cara separou algumas coisas e colocou sobre o balcão. Iria preparar um jantar maravilhoso para eles e esperava que, com isso, Lúcia esquecesse o que tinha acontecido. — Você... — começou Lúcia, mas o som de passos entrando na casa a fez se calar. — Mamãe? Tia Lúcia? — perguntou Gael. — Estamos na cozinha! — gritou Lúcia. — Oi — disse ele, indo até Cara e lhe dando um abraço. — Oi, amor, como foi seu dia na escola? — perguntou Cara, dando um beijo na bochecha dele. — Foi bom, consegui uma estrelinha na aula de matemática — disse animado. — Isso é muito bom, mais tarde quero ver essa estrela — disse ela. — Agora vá tomar seu banho, logo o jantar estará pronto. — Mas eu queria brincar um pouco ainda. — Não, Gael, já está tarde e você está fedendo — disse ela, tapando o nariz. — Um gambazinho! — brincou Lúcia, fazendo uma careta para ele. — Eu não sou um gambá, tia! — disse zangado. — Para não ser um gambá, terá que tomar banho e deixar de ter esse cheiro — respondeu ela, arqueando a sobrancelha. — Tudo bem, eu tomo banho — disse ele, indo para o banheiro. — Ele está crescendo tão rápido — disse Cara, com olhar distante. — Talvez esteja na hora de ter um novo pai — disse Lúcia, com um sorriso de canto. Cara pegou o guardanapo da mesa e o jogou em Lúcia, fazendo-a rir. — Você precisa de um pouco de diversão, Cara, e digo diversão de verdade com o sexo masculino. — Lúcia era uma festeira nata e só estava mais contida nos últimos dias porque haviam tido problemas e não podiam chamar atenção. — Acho que deve estar falando de você mesma e não de mim — respondeu Cara, rindo. — Eu estou conhecendo alguém — disse ela, fazendo Cara parar na mesma hora. Cara a encarou e percebeu que havia algo diferente em seu rosto. — Como assim você não me disse nada antes! — disse Cara. — Tem apenas alguns dias. Ele contratou o serviço do escritório onde trabalho e pediu que eu cuidasse de tudo. Parece ser alguém bem interessante. — Lúcia não era daquelas pessoas que se apaixonavam rapidamente. Era muito pé no chão e, enquanto não conhecia bem a pessoa, não se envolvia totalmente. Mas, com o homem do outro dia, as coisas tinham sido diferentes. — Pelo que vejo, alguém está caidinha de amor — respondeu Cara, rindo. — Não ria, você sabe o quanto é difícil para mim me interessar por alguém. — Eu sei, e espero que tudo dê certo para você, e que esse homem saiba valorizar a pessoa incrível que você é — disse, indo até Lúcia e lhe dando um beijo no rosto. — Eu espero que sim, Cara, porque se ele não aceitar você e o Gael em minha vida, isso não vai funcionar — respondeu ela, de forma decidida. — Ei, não faça isso. Não quero que estrague sua felicidade por nós. — Vocês são minha família, Cara. Se ele não pode aceitar minha família, isso não vai funcionar. — Boba, apenas seja feliz — disse Cara. Lúcia apenas suspirou e deixou a amiga cozinhar em paz. Mas uma coisa era certa: quem a desejasse precisaria ter espaço em seu coração para sua família.
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