A semana passou num piscar de olhos, e o tão aguardado jantar na mansão de César finalmente havia chegado. Naquele dia, Mira entrou no escritório do marido sem pedir licença. Ela tinha planos para aquele jantar, e muita expectativa também.
— Vou buscar Cara para se arrumar — anunciou, com a determinação de sempre. Ela nem ao menos o cumprimentou, parecia um furacão chegando de forma silenciosa.
César ergueu os olhos dos papéis, lançando-lhe um olhar de canto.
— Que tal um "bom dia, meu amor, estava com saudades"? — disse ele, olhando-a com um sorriso de canto.
Mira revirou os olhos, deu a volta na mesa e se sentou no colo de César. Segurou o rosto dele entre as mãos e lhe deu um beijo apaixonado, como gostava de fazer.
— Sabe que merece mais que o meu bom dia, querido, mas hoje estou com pressa. — Disse, levantando-se apressada do colo dele e dirigindo-se para a saída.
César ria ao ver aquilo.
— Cuide-se... e nada de aprontar.
Mira sorriu. Virou-se para ele, segurando a porta aberta.
— Você é um anjo, César. Eu? Aprontar? Jamais.
Com isso, saiu apressada. Mas, ao longe, ainda se podia ouvir a risada de César dentro da sala. Ele sabia que sua esposa poderia ser muitas coisas, mas quieta não era uma delas.
Mira havia conseguido o endereço de Cara no RH da empresa. Sabia que, se tivesse avisado que iria até lá, a jovem inventaria uma desculpa para não a receber. Por isso, optara pela surpresa.
— Vamos, Miguel, tenho pressa. — Disse ela ao motorista, entregando-lhe o endereço de Cara.
— Como desejar, senhora. — Respondeu ele com um sorriso, enquanto abria a porta do carro para ela.
Chegando à casa de Cara, Mira não fez cerimônia e bateu à porta. Para sua surpresa, quem abriu não foi a jovem, mas um garoto de olhar doce e sorriso acolhedor.
— Olá... — disse Mira, arqueando uma sobrancelha. — Quem é você?
— Sou o Gael — respondeu o menino, orgulhoso.
— Vim buscar Cara para se arrumar.
— O que a senhora deseja com a minha mãe? — perguntou ele, um tanto desconfiado.
Mira sorriu diante da pergunta do menino.
— Ela combinou de jantar hoje à noite em minha casa. Quero que esteja bonita para o jantar. E você também. — disse ela com tranquilidade.
Os olhos do pequeno brilharam e, animado, segurou a mão dela.
— Entra, senhora bonita! — exclamou, puxando-a para dentro.
Em seguida, correu até o corredor e gritou:
— Mãe! Tem uma senhora muito bonita te esperando na sala! — disse ele, ao entrar no quarto.
Cara estranhou as palavras do filho, mas, vendo-o animado com a visita, apenas deu de ombros. O seu coração, no entanto, disparou ao reconhecer Mira confortavelmente sentada no sofá, como se fosse dona da casa.
— Mira... — disse, um tanto desconcertada. — O que faz aqui?
Mira levantou-se, firme, com aquele ar que misturava autoridade e charme. Voltou-se para Cara de forma tranquila, com um largo sorriso no rosto.
— Vim te buscar. Hoje temos um jantar importante, e não pretendo deixar que você vá de qualquer jeito. Vai comigo às compras. Precisa estar apresentável. — disse ela, visivelmente animada com a programação do dia. Mas bastou um olhar de Cara sobre as roupas de Mira para perceber que aquilo não daria certo.
Cara franziu o cenho, cruzando os braços.
— Não acho que seja necessário. Eu mesma posso dar um jeito...
— Cara — interrompeu Mira, num tom que não deixava espaço para debate —, não é uma questão de escolha. Você me prometeu que iria ao jantar, e depois do que houve eu me sentiria muito culpada se não me deixasse fazer isso por você.
Cara m*l podia acreditar no que estava acontecendo. Mira havia perdido a postura imponente e, em sua insistência, deixava transparecer um semblante triste que a fez se encolher. Respirou fundo, lutando contra a vontade de responder. Mas, diante da firmeza de Mira, acabou cedendo com um suspiro resignado.
— Está bem... vamos, então.
Mira sorriu, vitoriosa, e estendeu-lhe a mão.
— Assim que gosto. Não se preocupe, vou te transformar numa joia esta noite.
Cara gemeu com as palavras de Mira. Já podia prever o suplício que seria estar exposta naquele dia.
— E eu? — perguntou Gael, chamando a atenção de Mira.
— Me desculpe, pequeno, havia me esquecido de você. — disse ela, voltando-se para ele. — Você também vem. Precisamos de uma opinião masculina hoje.
— Oba! — gritou ele, animado. — Vou calçar meus sapatos!
Assim que Gael saiu, Cara virou-se novamente para Mira.
— Senhora, eu acho que não vou ter dinheiro para comprar o que a senhora deseja que eu use hoje. — disse, um pouco sem graça.
— E quem disse que você terá que pagar algo? — retrucou Mira, tirando um cartão preto da bolsa. — Hoje as nossas compras serão por conta do meu filho. É o mínimo que ele te deve por tudo o que fez.
Os olhos de Cara se arregalaram diante das palavras dela. Curiosa, estendeu a mão e pegou o cartão de Mira. Ali, escrito em letras elegantes, estava o nome de Rycon. Cara engoliu em seco e devolveu o cartão.
— Não, senhora, não posso aceitar isso. — disse, dando um passo para trás.
— Pode e vai. Se isso te serve de consolo, as compras de hoje pouco significarão para meu filho. Então, podemos nos divertir um pouco enquanto gastamos o dinheiro dele. — disse Mira, rindo, enquanto guardava o cartão novamente.
Cara a observou rir e, sem conseguir se conter, começou a rir também. Não imaginava que a esposa de César, que quase havia lhe batido, poderia ser alguém tão agradável fora da empresa. Assim que Gael retornou, as duas entraram no carro e partiram para o shopping do centro. Cara tinha um sorriso no rosto ao pensar em uma forma de se vingar de Rycon pelo que havia acontecido — uma vingança que doeria no bolso dele.