Rycon estava em casa, espalhado entre a mesa do escritório e o sofá da sala, revisando uma pilha de documentos que insistia em crescer dia após dia. Estava tão concentrado que quase não ouviu o som característico de notificação no seu telefone.
Pegou o aparelho sem pensar muito, mas quando viu a tela, os seus olhos se estreitaram. Aquilo não poderia estar certo, devia ter algum erro.
“Compra aprovada – Boutique Magnifique – R$ 4.800,00”
Ele piscou algumas vezes, como se tivesse lido errado. Boutique Magnifique era uma das lojas femininas mais exclusivas da cidade o que não fazia sentido nenhum já que ele estava em casa e não no shopping.
— Deve ser engano... — murmurou, apoiando o telefone na mesa.
Não teve tempo de se acalmar. Uma nova notificação brilhou no ecrã.
“Compra aprovada – Joalheria Diamond & Co – R$ 22.350,00”
— O quê?! — exclamou, já sentindo o sangue ferver. Rycon segurava o telefone com tanta força que temia que o aparelho fosse se partir.
Levantou-se apressado, procurando a carteira no bolso do casaco. Retirou todos os cartões, um a um, e o seu coração quase parou ao notar a ausência do cartão preto — aquele sem limite, que usava apenas em situações de emergência.
— Não... não pode ser... — sussurrou, a respiração acelerada. — Fui roubado!
O ódio de Rycon se acende oa pensar naquilo, a pessoa tinha que ser no mínimo louca para o roubar.
O telefone vibrou novamente.
“Compra aprovada – Maison Élégance – R$ 15.000,00”
Desta vez, Rycon deixou escapar um palavrão. Correu as mãos pelos cabelos, caminhando de um lado para o outro como um leão enjaulado. Estava a ponto de ligar para o banco quando outra ideia lhe ocorreu.
— Papai! — murmurou, pegando o celular.
Discou o número de César com dedos trêmulos. Quando o pai atendeu, a voz firme e tranquila do outro lado só fez Rycon se sentir ainda mais desesperado. Mas ele faria o ladrão pagar pelo que estava fazendo e lhe reembolsar cada centavo que estava sendo gasto da sua conta.
— Pai! Roubaram o meu cartão! — disparou sem fôlego. — Estão gastando fortunas em lojas femininas, eu quero a cabeça desse ladrão safado.
Do outro lado da linha, César manteve o silêncio por um instante, como se saboreasse a aflição do filho. Agora ele entendia bem por que a sua mulher havia saído do seu escritório de tão bom humor.
— Calma, Rycon. Quais foram as lojas?
— A Boutique Magnifique... a Diamond & Co... e agora a Maison Élégance! — disse, a voz quase subindo uma oitava.
Foi então que ouviu uma risada abafada do pai. Primeiro leve, depois mais forte.
— Pai! — protestou Rycon, indignado. — Isso não tem graça! Estou dizendo que fui roubado!
César limpou a garganta, ainda rindo.
— Você tem razão, meu filho. Você foi roubado.
Rycon franziu o cenho, confuso.
— O quê? Como pode estar tão calmo?
— Porque eu sei exatamente quem roubou você. — respondeu César, divertido. — E acredite, o ladrão mora debaixo do mesmo teto que você.
— Não estou entendendo nada... — disse Rycon, levando a mão à testa.
A risada de César voltou, mais forte.
— Sua mãe, Rycon. Hoje à tarde ela foi às compras... com Cara. Estão se preparando para o jantar.
Rycon ficou em silêncio por alguns segundos, como se tentasse processar aquela informação. O peito subia e descia rápido, entre a raiva e o alívio de não ter caído nas mãos de um criminoso de verdade.
— A mamãe... pegou o meu cartão? — perguntou, quase em choque.
— Não só pegou — respondeu César com ironia — como já deve ter gasto uma pequena fortuna.
Rycon fechou os olhos e respirou fundo, tentando não gritar.
— Isso não pode estar acontecendo...
Do outro lado da linha, César gargalhava, satisfeito.
— Está, e é melhor se conformar com isso. E convenhamos meu filho, você não vai ficar mais pobre com isso. — Diz César de forma irónica.
Rycon fecha a cara com o comentaria do seu pai. Ele não se importava que ela usasse o seu cartão, mas Mira nunca havia pegado nada seu sem o comunicar antes.
— O que ouve com o dinheiro dela? Ou você ainda não desbloqueou os cartões da mamãe? — Pergunta ele segurando o riso.
— Já entreguei os novos cartões para ela, sem limites desta vez, o amor da minha vida merece. — Responde ele com um sorriso satisfeito.
Rycon ri das palavras do pai, o amor que ele tinha por sua mãe apenas aumentava a cada dia que se passava, e Rycon também desejava aquilo em sua vida, um amor verdadeiro e sem interesses.
— Você a está mimando de mais papai. — Diz Rycon ao telefone.
— Ela merece filho, tudo o que temos é graças ao trabalho duro de sua mãe também, e sempre vou ser grato por ter ela em nossas vidas.
— Você está certo, mas por que ela não me pediu, podia ter me livrado desse susto. — Aquilo Rycon não havia entendido, ele jamais negaria dinheiro a sua mãe independente de por que ela precisava dele.
— Acho que ela queria apenas se vingar de você pelo que ouve com a Cara naquele dia.
Aquilo fazia sentido, e muito, e Rycon conhecia a sua mãe o suficiente para saber que a forma dela lhe ensinar as coisas eram bem diferentes das mães comuns, Mira nunca tinha sido comum.
— Tudo bem, acho que mereci isso. — Diz ele com um suspiro, bem no momento me que chega uma nova notificação no seu telefone.
"Compra aprovada — Spa Naturals — R$ 30,000.00"
— Ela perdeu o juízo! — Diz ele com os olhos arregalados ao ver a notificação.
— O que foi? — Pergunta César. Rycon coloca o telefone no ouvido novamente.
— Mamãe vai me levar a falência papai, ela acabou de gastar trinta mil reais em um spa!
A risada de César enche a linha, ele sabia que Mira gastaria uma boa quantia até se sentir satisfeita, e Rycon não poderia fazer nada além de assistir à conta chegar.