Mira empurrou a porta devagar, o som da fechadura ecoando pela casa silenciosa. O dia tinha sido longo, e tudo o que queria era um banho quente e algum descanso, mas ela não podia reclamar, tinha adorado cada segundo de compras ao lado de Cara, Mira havia percebido que a assistente de seu marido era uma mulher bem mais interessante do que ela poderia imaginar, mas ela havia se surpreendido ao descobrir que gostava do pequeno filho de Cara. Ao erguer o olhar para a sala, o coração quase saltou do peito: ali estava Rycon, sentado no sofá como uma estátua, os olhos fixos nela.
— Santo Deus, Rycon! — exclamou, levando a mão ao peito, tentando controlar a respiração acelerada. — Quer me matar de susto?
O filho deixou escapar um leve sorriso de canto, como se se divertisse com a reação dela. Sua mãe parecia alguém que tinha sido pega fazendo algo que não devia.
— Não era minha intenção, mãe. Mas admito que foi engraçado ver a sua cara.
Mira riu, ainda nervosa, e aproximou-se. Colocou as mãos no rosto dele e deu um beijo demorado na testa, como fazia desde que ele era pequeno. Depois deixou-se cair ao lado dele no sofá, respirando fundo.
— É o melhor filho do mundo — declarou, os olhos brilhando de ternura.
Rycon inclinou a cabeça, divertido com a afirmação.
— E posso saber o motivo desse título honroso?
Ela não respondeu de imediato. Antes, puxou de uma sacola que trazia consigo e, com um ar quase juvenil, retirou um conjunto de joias. As pedras refletiram a luz suave da sala, e Mira não conteve um gritinho de empolgação.
— Por isto! Rycon, eu amei… É lindo demais.
Ele bufou, recostando-se no sofá, claramente insatisfeito. Se a sua mãe queria joias ele poderia lhe dar, e algumas com mais qualidade do que o conjunto que ela segurava como um tesouro inestimável.
— Essas joias não são nada, mãe. Não chegam perto do que você merece. Para mim, nunca serão boas o suficiente.
Mira sorriu, pousando a mão sobre a dele com delicadeza.
— O importante é que eu gostei, meu filho. Isso é o que conta.
Agarrou então na bolsa e de lá retirou um cartão preto, elegante, pousando-o com cuidado sobre o colo dele.
— Mas isto… isto não me pertence. E não, você não vai ouvir um pedido de desculpas. — Diz ela com o olhar altivo em direção a ele.
Rycon suspirou fundo, pegou o cartão e olhou-a nos olhos. Depois inclinou-se e deu-lhe um beijo terno no rosto.
— Não precisa me devolver nada. Nem pensar em me roubar. Mãe… tudo o que tenho é fruto do seu esforço e do pai. Vocês trabalharam, sacrificaram-se, e agora eu apenas colho o resultado. Use este cartão como quiser. A qualquer hora. Para mim, é um prazer.
As palavras dele faziam o coração de Mira transbordar, ela e César havia criado bem o filho que tinham. Mira sorriu, enternecida, mas sua expressão foi ficando mais séria. O objetivo dela ao pegar o cartão do filho era apenas lhe dar um susto, como um castigo por seu comportamento no início da semana.
— Rycon… — começou, hesitando — fiquei mesmo assustada. A forma como tratou a Cara… nunca tinha visto você agir daquela forma antes, com ninguém.
O sorriso do filho desapareceu, substituído por uma rigidez que lhe endureceu as feições. Durante alguns segundos, Mira temeu ter tocado num ponto delicado.
Como Rycon explicaria para sua mãe que nem ele mesmo se reconhecia pelo que havia feito. Ele jamais tinha tocado em uma mulher da forma que havia feito com Cara, mas ela tinha algo que o deixava inquieto, e aquela língua ferina dela o incomodava terrivelmente, era como se Cara testasse os seus limites o fazendo agir de uma forma que o deixava ainda mais louco.
— Mãe, olha para mim. — Esperou até que ela erguesse os olhos. — Eu jamais faria m*l a uma mulher. Nunca.
— Eu sei filho, seu pai e eu te criamos bem de mais para você agir desta forma. Mas precisa ser mais tolerante com ela. — Mira encara Rycon com atenção e não vê nada de mais nos olhos do filho. — Sabia que ela tem um filho de seis anos?
Rycon suspira, ele tinha descoberto aquilo alguns dias quando tinha examinado a ficha de admição de Cara na empresa, e pensar no filho pequeno dela apenas o fazia se sentir ainda mais culpado pela forma que tinha agido.
— Eu sei, e vou tentar me controlar no futuro. — Ele não diria que não faria de novo, no momento a única coisa que ele poderia prometer era tentar se conter e nada mais.
Mira acreditava em cada palavra do filho, se tinha algo que Rycon nunca tinha feito com ela era mentir. Conhecia a intensidade do filho, o jeito firme e por vezes impiedoso com que ele lidava com os outros. E embora amasse profundamente aquele rapaz que tinha diante de si, não conseguia afastar totalmente a sensação de que ele carregava dentro de si algo perigoso, um lado que ela sabia que como mãe jamais veria.
Mira encostou então no peito dele, buscando no calor do abraço o conforto que as palavras não lhe traziam por completo. Sentiu o cheiro familiar do perfume de Rycon, a força tranquila dos braços dele a envolvendo, e por um instante decidiu não pensar em nada além daquele momento.
Para ela, não havia presente mais precioso do que isso: ter o filho ali, junto dela, como se o tempo tivesse parado. Ela havia sentido falta daquele contato com o filho, e os dias que tinha passado viajando tinha sentido terrivelmente a falta dele e do marido, na sua mente Mira prometia não fazer aquilo novamente, não importava a raiva que passasse no futuro, ninguém a afastaria da sua família.
A mente de Rycon dava voltas enquanto estava com a sua mãe ao seu lado, Mira poderia ser forte por fora, mas Rycon sabia o quão delicada e fragil ela podia ser, e cuidaria para que a sua mãe permanecesse bem, e segura ao seu lado.