Lúcia ficou imóvel diante do espelho. A imagem de Cara refletia-se como se fosse uma visão retirada de um sonho — um sonho luxuoso, distante e inalcançável. Fazia muitos anos que ela não via Cara tão bonita daquele jeito. Ela tinha um sorriso brilhante no rosto e a sua pele reluzia com um brilho delicado.
O vestido preto de seda caía sobre o corpo da amiga com uma naturalidade desconcertante. Era simples, mas sua simplicidade gritava sofisticação. As sandálias de tiras, delicadas e discretas, deixavam os pés de Cara ainda mais elegantes. E, para coroar aquele espetáculo silencioso, o colar de diamantes cintilava sob a luz suave do quarto, em perfeita harmonia com os brincos e a pulseira.
Lúcia deixou escapar um sussurro, incapaz de esconder o deslumbramento:
— Meu Deus, Cara… você está simplesmente deslumbrante.
Cara sorriu, sem perder a compostura. Ela ainda se lembrava da luta que tinha sido para Mira convencê-la a levar aquelas peças. E depois que havia prometido descontar a sua raiva no bolso de Rycon, apenas relaxou e aproveitou o dia de compras com a mãe dele. Tinha valido a pena cada segundo. Havia muito tempo Cara não se sentia cuidada; era apenas mãe e esposa. Mas, naquele dia, pôde ser mulher, pôde se arrumar e cuidar de si mesma — e a sensação tinha sido libertadora.
— Está exagerando, Lúcia. É só um vestido. — Um vestido que tinha custado uma pequena fortuna a Rycon, algo que ela tinha adorado.
— Só um vestido? — Lúcia aproximou-se, os olhos fixos no reflexo da amiga. — Se isso é só um vestido, então eu não sei mais o que é luxo. Olha para você… parece saída de uma revista.
Cara ajeitou uma das alças finas do vestido, como quem queria disfarçar a vaidade, mas o sorriso nos lábios denunciava que gostava do elogio.
— Você sempre teve esse jeito de me ver maior do que sou — disse ela, em tom quase cúmplice. Lúcia sempre estava lá para lembrá-la de quem realmente era, e foi o apoio da amiga que a manteve de pé durante os seus momentos mais difíceis.
Lúcia inclinou a cabeça, ainda incrédula.
— Não, Cara… desta vez não é o meu jeito. É a verdade. Eu… eu nunca te vi tão bonita. E não falo só da roupa. Há algo em você, hoje… algo diferente.
O olhar das duas se cruzou no espelho e, por um instante, o silêncio foi mais eloquente do que qualquer palavra.
Cara, com uma serenidade quase misteriosa, respondeu baixinho:
— Talvez seja porque, desta vez, eu quero ser vista.
Aquelas palavras surpreenderam Lúcia de uma forma que ela não podia explicar, mas seus olhos arregalados deixavam bem claro o que pensava.
— Não me olhe assim, Lúcia. E, se quer saber, você tinha razão — disse ela, sentando-se na beirada da cama com um suspiro cansado. — O dia de hoje me fez perceber que eu estava perdida demais nos outros, na dor que senti, e estava me esquecendo de mim mesma. Mas me ver dessa forma...
Cara se levantou novamente e parou em frente ao espelho, olhando com atenção o próprio reflexo. Para ela, era alguém bem diferente: uma pessoa que tinha um brilho que imaginava ter se apagado, mas que agora estava ali, brilhando novamente com apenas um pouco de cuidado.
— Eu percebi que tenho muito o que viver ainda… e posso começar me cuidando melhor — disse, por fim, virando-se para Lúcia.
Quando o olhar de Cara encontrou o de Lúcia, ela parou. A amiga tinha lágrimas nas bochechas e a fitava intensamente. Lúcia se aproximou e tomou Cara em um abraço apertado.
— Deus ouviu as minhas orações. Pedi tanto que você se recuperasse de tudo, que voltasse a viver como antes — disse ela.
— Eu sei que você sempre me incentivou, mas acho que eu não percebia o que estava me tornando… até hoje.
Cara tinha sido arrastada por Mira de loja em loja, e a mulher fez questão de que ela experimentasse uma variedade enorme de roupas até encontrarem aquele vestido. E não apenas isso: foram ao salão e ao spa, algo que Cara tinha amado. No final do dia, a pessoa que a olhava de volta no espelho era uma mulher renovada e satisfeita, alguém que poderia enfrentar o mundo porque agora sabia quem realmente era e o valor que tinha. E havia sido uma completa estranha que a fizera enxergar o óbvio.
— O importante é que agora você sabe que é uma mulher linda e cheia de vida, e espero que você se divirta muito essa noite — disse Lúcia, animada.
— Eu estava apreensiva antes, mas Mira me disse que eram apenas alguns amigos que estariam lá, então fiquei mais tranquila.
— Nossa, mamãe! — disse Gael, entrando no quarto. — Você parece uma princesa!
Lúcia olhou para o sobrinho, abismada. Ele usava um smoking preto, tinha os cabelos bem aparados e uma postura diferente de antes.
— Quem é você e onde está o meu sobrinho? — brincou ela, encarando-o.
— Ainda sou eu, tia. Mas a dona bonita disse que eu ficaria bem com essa roupa, e eu gostei bastante — disse ele, dando uma voltinha e sorrindo.
— Você está muito convencido, mas realmente está lindo, querido — disse ela, apertando as bochechas dele.
— Tia! Sabe que eu não gosto disso! — respondeu, tampando as bochechas com a mão.
— Eu sei, mas não resisto. Você está tão fofo — disse ela, pegando o telefone e se abaixando para tirar uma foto com ele. — Pronto, agora sempre vou me lembrar de quão lindo o meu sobrinho estava hoje.
— Eu sempre sou bonito — disse ele, de forma convencida.
— Esse menino está ficando abusado.
— Ele está crescendo, vamos ter que nos acostumar com isso — disse Cara, olhando com orgulho para o filho. O seu pequeno estava crescendo mais rápido do que a sua mente conseguia acompanhar.