O Início da Noite

1001 Words
O carro preto parou diante da porta da casa. Lúcia ajeitou o colar no pescoço de Cara e, com um sorriso cúmplice, disse: — Divirtam-se. Vocês merecem. Cara apertou a mão da amiga, emocionada, e ajudou Gael a entrar no veículo. Durante o trajeto, o menino observava pela janela, encantado com as luzes da cidade. Ele nunca tinha a oportunidade de sair de casa, e agora que podia, estava encantado com tudo o que via. — Gael — disse ela, com voz suave, mas firme. — Preciso que você se comporte hoje à noite. A mansão aonde vamos é a casa dos meus patrões. O menino a olhou, com aquele ar inocente e decidido que só uma criança poderia ter. — Eu prometo, mamãe. Vou me comportar direitinho. — Gael podia ser uma criança, mas sabia o quanto sua mãe tinha lutado por aquele emprego e queria que ela ficasse feliz naquele jantar. Cara sorriu e afagou-lhe os cabelos. A sua vida podia ter sido difícil, mas sua maior alegria estava bem ao seu lado. A mansão surgiu à frente, iluminada e imponente, como um palácio moderno. Ao chegarem, ela respirou fundo, tentando acalmar a ansiedade que teimava em apertar-lhe o peito, ela havia pensado várias vezes em retornar para casa em meio ao trajeto, mas depois da quantia que tinha gastado e da forma que seu filho estava animado ela não achou justo. Com um leve toque, bateu à porta. Foi o próprio César quem abriu. O sorriso dele se alargou ao vê-la. — Ora, ora… — disse, admirado. — A minha esposa realmente tem um dom. Veja só como conseguiu transformar você em uma joia rara. Está linda, Cara. Ela corou levemente, inclinando a cabeça em sinal de agradecimento. — E esse rapazinho, quem é? — Pergunta César vendo o olhar curioso do menino sobre ele. — Este é meu filho gale, César. — Diz ela com orgulho. — É um prazer rapaz. — Diz César estendendo a mão para o menino. — Oi senhor, a sua casa é linda. — Diz ele apertando a mão de César. — Um menino educado, venham entrem. — Diz ele abrindo espaço para eles passarem. Ao entrarem, a conversa animada que preenchia a sala pareceu cessar por um instante. Os olhos voltaram-se para Cara, e um pequeno silêncio se formou, carregado de surpresa e admiração. César, orgulhoso, apresentou-a aos presentes. No topo da escadaria, Rycon descia com passos lentos, quando a voz do pai ecoou pela sala. Reconheceu o tom vibrante e seguiu o som até a porta. Mas, ao vê-la, parou. O mundo pareceu se estreitar à sua frente. Era como se os seus olhos conseguissem olhar apenas para uma única direção. Ali estava Cara. Linda. Majestosa. Com uma postura que fazia lembrar rainhas de outras eras. Mas não era apenas o vestido que a tornava assim. Era algo mais profundo: a forma como seus olhos castanhos guardavam segredos, dores e forças que ele não conseguia decifrar. Eram aqueles olhos que o perseguiam nas noites insones. Olhos que, mesmo fechando os próprios, ele ainda via refletidos em sua mente. O coração de Rycon acelerou, e um desconforto conhecido o tomou. Não sabia o que era aquilo que sentia por ela. Não era simples desejo, tampouco mera curiosidade. Era inquietação. Era como se a presença de Cara desorganizasse todas as certezas que ele acreditava ter sobre si mesmo. Ele a conhecia… ou achava que conhecia. Mas agora, diante dela, tão radiante, parecia uma estranha e, ao mesmo tempo, alguém que ele jamais conseguira ignorar. “Por que ela?” — perguntou-se em silêncio. Enquanto o pai falava, apresentando-a aos convidados, Rycon continuava imóvel, preso naquela visão. E, dentro dele, algo que não ousava nomear começava a crescer, insistente, perigoso. Rycon desceu finalmente os últimos degraus, os olhos fixos em Cara. Ela sentiu o olhar dele e, por instinto, endireitou ainda mais a postura, como quem aceita o desafio silencioso. — Vejo que está… à vontade — disse ele, a voz carregada de ironia. — Deve estar feliz em gastar dinheiro que não era seu. Cara arqueou uma sobrancelha, sem se abalar. Aquelas p*****************s vindas dele não a surpreendiam mais, mas agora ela estava preparada para responder à altura, e blindada por Mira que tinha lhe garantido que aquelas brigas entre eles não seria problema para ela continuar trabalhando na empresa. — Feliz? — sorriu de lado, venenosa. — Eu diria mais do que isso… gastar o dinheiro de idiotas é sempre um prazer. Um murmúrio atravessou discretamente a sala, mas Cara não desviou os olhos dele. Rycon cerrou o maxilar, sentindo o sangue ferver. — Idiotas, é? — rebateu, mordaz. — E eu imagino que me inclua nessa lista. — Você mesmo disse, não fui eu. — retrucou ela, cruzando os braços com elegância. A troca de farpas já começava a chamar atenção. O rosto de Rycon estava rubro, não se sabia se de raiva ou do estranho calor que sentia sempre que ela abria a boca para provocá-lo. — Você… — começou ele, num tom que já se preparava para explodir. Mas, antes que continuasse, Mira surgiu ao lado deles, sorridente, segurando uma taça de vinho. — Ah, mas que maravilha! — disse, entrando entre os dois com a naturalidade de quem aparta brigas desde sempre. — Vocês já começaram a se estranhar logo sedo. — Infelizmente. — disseram Cara e Rycon ao mesmo tempo. Houve uma pausa curta, e então todos ao redor caíram na risada, inclusive Mira, que quase deixou o vinho escapar. — Vocês dois são impossíveis. — disse ela, abanando a cabeça. — Vamos, comportem-se, ou vou ter que separar vocês como crianças birrentas. Rycon resmungou qualquer coisa inaudível e desviou o olhar, enquanto Cara sorria com um ar de vitória, como quem acabara de ganhar uma batalha secreta. Mira, ainda divertida, puxou Cara pelo braço, afastando-a da linha de fogo. Rycon ficou parado, tentando entender por que, em vez de alívio, sentia-se ainda mais perturbado.
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