Rycon estava sentado à beira da cama, ainda com o saco de gelo apoiado sobre si, quando ouviu o barulho distante da porta de entrada se fechando. Um detalhe quase imperceptível, mas que o deixou alerta.
— Quem foi embora? — perguntou, franzindo o cenho, ao ver a mãe aparecer à porta do quarto.
Mira suspirou, com o olhar sereno, mas o tom de voz firme:
— Cara precisava de um tempo. Luka a levou de volta.
As palavras caíram como um soco em seu estômago. Ele ergueu os olhos, incrédulo, e largou o saco de gelo de lado. De alguma forma Rycon não gostava da ideia de Cara em, um ambiente fechado com Luka, aquilo não parecia certo de nenhuma forma.
— O quê? — a voz saiu rouca, carregada de incredulidade e raiva contida. — Ela foi embora... com ele?
Mira cruzou os braços, avaliando o filho como só uma mãe sabe fazer.
— Sim. E foi o melhor. Ela não estava bem, Rycon.
— Ela me provocou, não pode me culpar por isso. — Diz ele de forma tranquila fazendo bico.
Mira se levanta vai até ele e agarra a sua orelha dando um forte puxão.
— Ai mãe, não sou mais criança. — Responde ele.
— Não é o que parece meu filho. Ela está chateada e acho que foi melhor ela ir embora, assim vai ter tempo para pensar com calma em tudo o que ouve.
Ele levantou-se bruscamente, o corpo ainda dolorido, mas a fúria o movia. Andava de um lado para o outro, os pensamentos embaralhados. A imagem de Cara ao lado de Luka, dentro daquele carro, sorrindo talvez... conversando... fez o seu sangue ferver.
“Ela devia estar comigo. Por mais que eu tenha errado, ela devia estar aqui.”
Mas, ao mesmo tempo, uma pontada de culpa o atingia. Ele sabia que tinha ultrapassado limites, sabia que a assustara — e agora pagava o preço ao vê-la partir ao lado de outra pessoa.
César entrou no quarto nesse instante, cruzando o olhar com o do filho.
— Então já soube? — disse, sem rodeios.
Rycon bufou.
— Soube que ela foi embora com Luka. — Sua voz era baixa, mas carregada de raiva. — Não acredito que vocês deixaram isso acontecer.
César o encarou com calma, mas firmeza.
— Ela não precisava da tua permissão, filho. E Luka apenas fez o que qualquer amigo faria: levou-a embora quando ela quis.
Rycon fechou os punhos, tentando controlar o ímpeto de descarregar a frustração em qualquer coisa à sua frente. A sensação de perder o controle da situação o corroía.
— Luka não é só um amigo — disse, com amargura. — Eu vi o jeito que ele olha para ela.
César suspirou. Ele também tinha visto a admiração que Luka parecia ter por Cara, mas para ele aquilo era apenas uma admiração por seus serviços prestados.
— E você também olha. Mas a diferença é que Luka a respeita.
As palavras do pai foram como uma flecha certeira. Rycon desviou o olhar, os dentes cerrados. Ele odiava admitir, mas sabia que César estava certo.
Sozinho em seus pensamentos, lembrou-se do brilho nos olhos de Cara quando discutiam, da forma como ela o enfrentava sem medo, da leveza que trazia até nos momentos mais tensos. Luka devia estar, naquele exato momento, apreciando tudo isso.
E aquilo o enlouquecia.
— Eu não vou perder essa mulher, pai — murmurou, quase para si mesmo.
César apenas assentiu, sem dizer nada. Porque no fundo sabia: o verdadeiro desafio de Rycon estava apenas começando, e pela forma que Cara estava chateada ele teria um grande trabalho pela frente.
— A culpa foi sua, e ainda corro o risco de não ter netos no futuro. — Diz César apontando para o saco de gele nas pernas de Rycon.
Os olhos dele se escurecem com a piada de m*l gosto de seu pai.
— Ele vai se arrepender se tocar nela, isso eu posso garantir com apenas um telefonema. — Responde ele de forma tranquila, um sorriso sombrio nos lábios.
Mira encara César com a sobrancelha arqueada esperando que o marido impedisse seu filho cabeça dura de cometer mais um erro que poderia se arrepender mais na frente.
— Nada disso filho. Luka não tem nada a ver com a sua possecividade, ele é uma boa pessoa e não sabe do seu interesse em Cara. — Diz César tentando trazer razão a Rycon.
— Quem disse que tenho interesse nela? Só quero que ele conheça o seu lugar. — Responde com o maxilar trincado de raiva.
— O lugar dele não é em um porão escuro amarado a uma cadeira elétrica. — Responde César cruzando so braços e encarando o filho.
Rycon desvia o olhar do pai resmungando, ele odiava quando ele lia os seus pensamentos daquela forma.
— Se comporte, não quero ter que chamar a sua atenção novamente. — Diz Mira dando um beijo na testa de Rycon e saindo do quarto.
— Sua mãe esta certa, você precisa aprender a lidar melhor com essa raiva Rycon, não te faz bem.
— Eu estou lidando com isso. — Responde ele jogando o saco de gelo no chão e se deitando novamente na cama.
— Isso não é lidar com o problema, já te disse, se está muito estressado eu cuido de tudo para você descansar alguns dias.
De novo aquele assunto. Não era a primeira vez que César se oferecia para trabalhar no lugar do filho, e quando Rycon encontra o olhar do pai percebe a preocupação estampada no seus olhos.
— Eu estou bem pai, posso ser mau humorado, mas meu juízo está no lugar... ao menos ainda. — Responde ele com um sorriso de canto.
— É meu único filho Rycon, sempre vou me preocupar com você. — Diz ele se levantando e saindo do quarto.
Rycon não responde, ele sabia o que seu pai queria dizer, o conhecia bem. A sua mente dava voltas em uma forma de conseguir descobrir mais sobre Cara, aquela seria sua forma de se aproximar dela.