Ciúmes

1017 Words
Rycon estava sentado à beira da cama, ainda com o saco de gelo apoiado sobre si, quando ouviu o barulho distante da porta de entrada se fechando. Um detalhe quase imperceptível, mas que o deixou alerta. — Quem foi embora? — perguntou, franzindo o cenho, ao ver a mãe aparecer à porta do quarto. Mira suspirou, com o olhar sereno, mas o tom de voz firme: — Cara precisava de um tempo. Luka a levou de volta. As palavras caíram como um soco em seu estômago. Ele ergueu os olhos, incrédulo, e largou o saco de gelo de lado. De alguma forma Rycon não gostava da ideia de Cara em, um ambiente fechado com Luka, aquilo não parecia certo de nenhuma forma. — O quê? — a voz saiu rouca, carregada de incredulidade e raiva contida. — Ela foi embora... com ele? Mira cruzou os braços, avaliando o filho como só uma mãe sabe fazer. — Sim. E foi o melhor. Ela não estava bem, Rycon. — Ela me provocou, não pode me culpar por isso. — Diz ele de forma tranquila fazendo bico. Mira se levanta vai até ele e agarra a sua orelha dando um forte puxão. — Ai mãe, não sou mais criança. — Responde ele. — Não é o que parece meu filho. Ela está chateada e acho que foi melhor ela ir embora, assim vai ter tempo para pensar com calma em tudo o que ouve. Ele levantou-se bruscamente, o corpo ainda dolorido, mas a fúria o movia. Andava de um lado para o outro, os pensamentos embaralhados. A imagem de Cara ao lado de Luka, dentro daquele carro, sorrindo talvez... conversando... fez o seu sangue ferver. “Ela devia estar comigo. Por mais que eu tenha errado, ela devia estar aqui.” Mas, ao mesmo tempo, uma pontada de culpa o atingia. Ele sabia que tinha ultrapassado limites, sabia que a assustara — e agora pagava o preço ao vê-la partir ao lado de outra pessoa. César entrou no quarto nesse instante, cruzando o olhar com o do filho. — Então já soube? — disse, sem rodeios. Rycon bufou. — Soube que ela foi embora com Luka. — Sua voz era baixa, mas carregada de raiva. — Não acredito que vocês deixaram isso acontecer. César o encarou com calma, mas firmeza. — Ela não precisava da tua permissão, filho. E Luka apenas fez o que qualquer amigo faria: levou-a embora quando ela quis. Rycon fechou os punhos, tentando controlar o ímpeto de descarregar a frustração em qualquer coisa à sua frente. A sensação de perder o controle da situação o corroía. — Luka não é só um amigo — disse, com amargura. — Eu vi o jeito que ele olha para ela. César suspirou. Ele também tinha visto a admiração que Luka parecia ter por Cara, mas para ele aquilo era apenas uma admiração por seus serviços prestados. — E você também olha. Mas a diferença é que Luka a respeita. As palavras do pai foram como uma flecha certeira. Rycon desviou o olhar, os dentes cerrados. Ele odiava admitir, mas sabia que César estava certo. Sozinho em seus pensamentos, lembrou-se do brilho nos olhos de Cara quando discutiam, da forma como ela o enfrentava sem medo, da leveza que trazia até nos momentos mais tensos. Luka devia estar, naquele exato momento, apreciando tudo isso. E aquilo o enlouquecia. — Eu não vou perder essa mulher, pai — murmurou, quase para si mesmo. César apenas assentiu, sem dizer nada. Porque no fundo sabia: o verdadeiro desafio de Rycon estava apenas começando, e pela forma que Cara estava chateada ele teria um grande trabalho pela frente. — A culpa foi sua, e ainda corro o risco de não ter netos no futuro. — Diz César apontando para o saco de gele nas pernas de Rycon. Os olhos dele se escurecem com a piada de m*l gosto de seu pai. — Ele vai se arrepender se tocar nela, isso eu posso garantir com apenas um telefonema. — Responde ele de forma tranquila, um sorriso sombrio nos lábios. Mira encara César com a sobrancelha arqueada esperando que o marido impedisse seu filho cabeça dura de cometer mais um erro que poderia se arrepender mais na frente. — Nada disso filho. Luka não tem nada a ver com a sua possecividade, ele é uma boa pessoa e não sabe do seu interesse em Cara. — Diz César tentando trazer razão a Rycon. — Quem disse que tenho interesse nela? Só quero que ele conheça o seu lugar. — Responde com o maxilar trincado de raiva. — O lugar dele não é em um porão escuro amarado a uma cadeira elétrica. — Responde César cruzando so braços e encarando o filho. Rycon desvia o olhar do pai resmungando, ele odiava quando ele lia os seus pensamentos daquela forma. — Se comporte, não quero ter que chamar a sua atenção novamente. — Diz Mira dando um beijo na testa de Rycon e saindo do quarto. — Sua mãe esta certa, você precisa aprender a lidar melhor com essa raiva Rycon, não te faz bem. — Eu estou lidando com isso. — Responde ele jogando o saco de gelo no chão e se deitando novamente na cama. — Isso não é lidar com o problema, já te disse, se está muito estressado eu cuido de tudo para você descansar alguns dias. De novo aquele assunto. Não era a primeira vez que César se oferecia para trabalhar no lugar do filho, e quando Rycon encontra o olhar do pai percebe a preocupação estampada no seus olhos. — Eu estou bem pai, posso ser mau humorado, mas meu juízo está no lugar... ao menos ainda. — Responde ele com um sorriso de canto. — É meu único filho Rycon, sempre vou me preocupar com você. — Diz ele se levantando e saindo do quarto. Rycon não responde, ele sabia o que seu pai queria dizer, o conhecia bem. A sua mente dava voltas em uma forma de conseguir descobrir mais sobre Cara, aquela seria sua forma de se aproximar dela.
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