Volta

1094 Words
O relógio ainda não marcava a hora do jantar quando Cara, inquieta, decidiu que não poderia permanecer ali por mais tempo. O peso do que havia acontecido a sufocava, e mesmo o apoio de César, Mira e Marta não era suficiente para acalmá-la. Mas no fundo da mente de Cara ela sabia que o real motivo de não querer estar mais na fazenda era o CEO rabugento no andar de cima. Cara não sabia como encarar os olhos de Rycon depois do que tinha acontecido e o que a deixava ainda mais chateada era se lembrar das reações que o seu corpo tinha tido ao estar tão próxima dele. — Eu preciso ir embora — disse ela, sua voz firme, embora os olhos denunciassem a angústia. Um silêncio desconfortável se espalhou, mas antes que alguém insistisse para que ficasse, Luka se levantou com um meio sorriso. — Eu também já estava prestes a partir — disse, com a naturalidade de quem enxergava a situação. — Se quiser, podemos ir juntos. Cara suspirou, aliviada pela saída elegante que ele oferecia. — Eu agradeceria muito. — Eu não quero ir embora mamãe. — Diz Gael com olhos tristes. — Não se preocupe querido, quando quiser vir basta pedir à sua mãe e poderá vir sempre que quiser. — Diz Mira acalmando o garoto. — Obrigada tia bonita. — Diz ele correndo até ela e lhe abraçando. — De nada querido. Com isso, ela se despediu de todos com gestos polidos e palavras de gratidão pela hospitalidade. Marta a abraçou como se fosse uma filha; Mira lhe deu um beijo carinhoso na testa, e César apenas assentiu, compreendendo o seu desejo de se afastar. No instante seguinte, Cara já caminhava ao lado de Luka até o carro que os levaria até a pista de pouso da fazenda. O ar fresco da noite lhe trouxe algum alívio, como se cada passo a afastasse um pouco mais das lembranças sufocantes de Rycon. Dentro do pequeno avião, o silêncio inicial foi preenchido pelo ronco suave do motor. Luka, percebendo o olhar distante de Cara, optou por uma conversa leve: — Estava pensando no projeto com o seu chefe... ou melhor, com o Rycon. Ainda tenho algumas dúvidas sobre certas cláusulas. Cara respirou fundo e ajeitou-se no banco. Esse era um terreno no qual se sentia segura. — Claro, posso esclarecer. A proposta inicial previa uma margem de participação maior para a empresa dele, mas como o contrato acabou... bem... destruído na piscina — ela corou levemente ao recordar-se da cena —, achei melhor já explicar o que estava previsto. Enquanto falava, Cara gesticulava com naturalidade, a voz firme e clara. Luka ouvia atentamente, mas mais do que às palavras, ele se perdia na forma como ela falava: a convicção em cada detalhe, o brilho nos olhos quando defendia o seu ponto de vista, o jeito apaixonado de tratar do trabalho. “Que mulher extraordinária”, pensou ele, mantendo o sorriso discreto. — Você realmente domina o assunto — elogiou. — Poucas pessoas conseguem explicar um contrato complicado como se fosse uma simples receita de bolo. Cara riu, surpresa. — Acho que é meu jeito. Sempre digo que, se algo não puder ser explicado de forma simples, então nem eu mesma entendi direito. E estou aprendendo ainda. Luka a observava de soslaio, admirado. A cada palavra, a cada riso espontâneo, confirmava a impressão de que Cara não era apenas eficiente, mas também encantadora. Havia uma beleza delicada nela, que não se resumia à aparência — era no jeito, na paixão, na força que transparecia mesmo nos momentos de vulnerabilidade. — Você é incrível, Cara — disse sem pensar muito, deixando escapar a sinceridade em sua voz. Ela desviou o olhar, surpresa com a frase inesperada. O coração acelerou um pouco, mas manteve a compostura. Não imaginava que Luka pudesse ser tão gentil. — Obrigada, Luka. Você é muito gentil. Ele sorriu, mantendo os olhos na paisagem a sua frente, mas por dentro sabia que aquela viagem de volta marcaria algo diferente na sua percepção sobre ela. E Cara, ainda que tentasse se convencer de que tudo aquilo não passava de uma simples conversa de trabalho, não conseguiu evitar sentir o calor suave daquela admiração, como se fosse um bálsamo depois do dia turbulento que tivera. Quando eles finalmente pousaram Cara respirou aliviada por poder sair do avião, ela estava com saudades de casa e só queria o conforto da sua cama e uma boa xícara de chá. — Me diga o seu endereço que deixo vocês lá. — Diz Luka pegando a bolsa de Cara. — Não precisa, você já fez muito, posso pedir a uma amiga para me buscar. — Responde ela não querendo o perturbar ainda mais. — Jamais permitiria isso Cara. Já estou aqui e esta tarde para você perturbar sua amiga. — Diz ele de forma sugestiva. Cara pega o seu relógio e olha a hora, realmente não estava mais tão sedo, mas ainda não era tão tarde que Lúcia não pudesse vir buscá-la. — Eu não... — O Gael está caindo de sono, vai ser mais rápido. — Diz ele sabendo que aquilo a convenceria. Cara olha para o filho e vê ele se segurando para não dormir ao seu lado, então suspira cedendo. — Tudo bem, mas me permita retribuir o favor algum dia. — Responde ela. Luka sorri com a resposta de Cara, ele gostava daquele jeito singelo dela. — Claro, podemos dar uma volta quando retornar a cidade novamente. — Diz ele enquanto a guiava para o seu carro. O caminho até a casa de Cara foi silencioso, Gael dormia no seu colo de forma tranquila, e ela observava com um sorriso no rosto o filho, o seu pequeno tinha se divertido aquele dia, e isso era o que mais importava para ela. — Pronto, está entregue. — Diz Luka parando em frente a casa de Cara. — Obrigada. — Responde ela. Luka abre a porta e com cuidado pega Gael dos braços de Cara. — Eu levo ele, basta me dizer onde é o quarto. Cara assente e abre a porta da casa guiando Luka até o quarto de Gael. — Você chegou Cara, eu... — Lúcia trava na porta ao ver Luka, ela rapidamente corre de volta para seu quarto antes que ele a vise de pijama. Luka se despede de Cara e parte, quando ela fecha a porta Lúcia a encara com curiosidade. — Amiga você virou um ima para homens gostosos. — Diz ela fazendo cara rir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD