O Peso de um M*l-entendido

1027 Words
Cara correu pelo corredor com o coração acelerado, o som dos seus passos ecoando contra as paredes. O ar parecia rarefeito, cada inspiração custava a entrar nos seus pulmões. Ao dobrar a esquina, deparou-se com César, que vinha em sua direção com a serenidade habitual. — Cara? — a voz grave dele soou surpresa. — Mas o que houve? Você está pálida! Ela parou diante dele, ofegante, e precisou de alguns segundos para organizar as palavras. Os olhos arregalados denunciavam o turbilhão dentro de si. Apenas por lembrar da situação constrangedora que tinha passado com Rycon ela sentia o seu corpo se arrepiar. — César... eu... — sua voz falhou antes de conseguir continuar. — O seu filho... Rycon... ele tentou... César ergueu uma das mãos em gesto calmo, embora a tensão fosse perceptível no endurecer do seu semblante. César já tinha notado algum tempo a forma que Rycon estava agindo com Cara, e apela forma que seu filho agia ele sabia que Rycon estava demonstrando interesse por Cara da forma errada. — Eu já entendi — disse, sem precisar que ela se explicasse até o fim. — Não se preocupe, eu vou resolver isso. O tom firme e paternal trouxe a Cara uma sensação de alívio, ainda que pequena. Ela assentiu em silêncio, tentando recuperar o fôlego enquanto César marchava para o andar de cima. Nesse instante, Mira surgiu, acompanhada de Marta, que ajeitava o avental como se tivesse acabado de sair de alguma tarefa doméstica. Ambas se aproximaram, visivelmente preocupadas com o estado de Cara. — Cara, venha comigo — disse Mira, colocando uma das mãos nas suas costas e conduzindo-a até a cozinha. O ambiente cheirava a ervas frescas e pão recém-assado, um contraste reconfortante com a atmosfera sufocante do quarto de Rycon. Marta serviu uma xícara de chá fumegante, empurrando-a com delicadeza para frente de Cara. — Beba, vai te acalmar. Cara, ainda trêmula, segurou a xícara com as duas mãos, como se buscasse naquele calor a força que lhe faltava. Para ela era constrangedor estar passando por aquilo na casa de Rycon, ainda mais com a família dele toda por lá. — Eu... eu não sei se consigo ficar aqui — confessou, a voz embargada. Mira se sentou ao seu lado e entrelaçou os seus dedos nos dela, apertando levemente. — Escuta, querida. Rycon não é um monstro, por mais que agora possa parecer. Ele tem os seus defeitos, sim, mas também tem um coração bom. O que aconteceu lá em cima foi um m*l-entendido. Mira e Marta haviam ouvido parte da conversa de Cara com César e já adivinhavam o que teria acontecido, ainda mais pela forma que Rycon estava agindo naquele dia. Cara levantou os olhos corando ao perceber que as duas mulheres na sua frente sabiam do que se tratava o seu assunto com César. — m*l-entendido? Ele me segurou contra a vontade, Mira! Você chama isso de m*l-entendido? O silêncio pairou por alguns segundos, até que Marta suspirou fundo e se aproximou, apoiando-se na mesa. — Eu conheço esse rapaz desde criança, Cara. Ele sempre foi intenso demais, às vezes sem saber medir os limites. Não estou defendendo o que ele fez — que fique claro — mas sei que ele não quis te ferir de verdade. Para Marta Rycon era apenas uma criança com poder de mais, as vezes ele se esquecia que tudo o que fazia tinha consequências, e vendo a forma que Cara estava assustada ela imaginava que o seu menino poderia estar afastando ainda mais a pessoa que ele tinha sentimentos. As palavras, ditas com a serenidade de quem via as coisas por uma lente diferente, deixaram Cara dividida entre a raiva e a confusão. Cara sabia que ela e Rycon tinham as suas diferenças e antes daquele dia ele nunca tinha agido daquela forma antes, então ela tinha um grande ponto de interrogação na testa ao tentar entender o comportamento dele. — César vai falar com ele. E eu também, se for preciso. — diz Mira de forma decidida. — Ele vai se comportar no futuro, mesmo que eu tenha que arrancar as orelhas dele. Um sorriso curva os lábios de Cara ao ouvir as palavras de Mira. Os olhos de Cara marejarem de novo. O apoio inesperado das duas mulheres a envolvia como um cobertor quente em noite fria. — E Rycon... — completou Marta, colocando uma fatia de bolo à frente dela — é um bom homem, mesmo que hoje tenha se comportado como um t**o. Com o tempo, você vai ver isso. Cara encarou a fatia de bolo sem tocá-la. Um nó se formava em sua garganta. Ainda não sabia se poderia perdoar, mas ao menos sentia que não precisaria enfrentar tudo sozinha. — Vou cuidou dele Marta? — Pergunta Cara mais calma enquanto levava um pedaço do bolo a boca. — Marta trocou as fraldas daquele menino Cara, ela o conhece melhor do que eu. — Responde Mira rindo. — Conheço mesmo. — Diz ela com a mão na cintura. — Vocês devem ter uma boa relação de amizade. — Observa Cara ao ver a forma tranquila que elas conversavam. — Temos querida, Marta é a única pessoa que Rycon escuta quando está com raiva, então os peões da fazenda vivem na barra da saia dela implorando ajuda. — Diz Mira rindo. Observando a forma que elas conversavam Cara se sentia parte de algo naquele lugar, por mais que tivesse conhecido aquelas pessoas a polco tempo elas já significavam algo no seu coração. — Encontramos você. — Diz Luka entrando na cozinha. — Você me viu nadar mamãe! — Diz Gael correndo até ela vestindo um robe de banho. — Sim, e você foi incrível. — Diz ela dando um beijo na testa dele. — O Rycon é incrível mamãe, e um bom professor. — Diz ele sorrindo. Cara olha para o filho e via os seus pequenos olhos brilhando ao falar do motivo dos seus desafetos, mas ele não podia dizer nada, Gael era apenas uma criança inocente e não via os problemas dos adultos, e ao que parecia Rycon havia ganhado o seu respiro logo de primeira.
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