O Olhar

1036 Words
César deixa Cara com Ivy e entra na sala de Rycon, preparado para o mau humor do filho logo cedo. Assim que encontra os olhos de Rycon, ele para no lugar — algo estava errado. — O que houve? — pergunta, mudando a sua postura. — Um problema na fazenda, preciso resolver isso — diz ele, arrumando as suas coisas. — Volta ainda hoje? — pergunta, preocupado. — Sim, de tarde devo estar de volta. — Tome cuidado, filho — diz ele. Rycon assente enquanto termina de recolher as suas coisas e sai. Estava com pressa de resolver os seus problemas e retornar para a empresa. O som seco da porta do escritório se fechando atrás de si alerta Ivy de que seu chefe estava saindo. Rycon estava pronto para seguir o seu caminho; a sua pressa era marcada pela forma como havia deixado a porta bater, sem se importar com o pai que estava logo atrás de si. Perdido nos próprios pensamentos, parou quando a visão à frente o fez congelar — não abruptamente, mas como se um fio invisível tivesse se enrolado em torno dele, puxando-o de volta. Cara estava ali, sentada à sua mesa, inclinada sobre alguns papéis. A luz suave que vinha da janela batia-lhe no rosto, revelando traços delicados, mas firmes. Não era uma beleza que gritava para ser notada — era sutil, quase tímida, e por isso mesmo impossível de ignorar. Por um segundo, Rycon se pegou observando-a mais do que deveria. Havia algo na expressão concentrada dela que o desarmava, e isso o irritou. Praguejou mentalmente, cerrando o maxilar, tentando afastar os pensamentos que, sem convite, se infiltravam na sua mente. Não era hora, nem lugar. Cara, sentindo aquele peso sobre si, ergueu o rosto. Os olhos castanhos de Rycon a atingiram de imediato — fixos, intensos, analisadores. Ela se remexeu ligeiramente na cadeira, como se aquele olhar atravessasse a pele e a despisse de qualquer defesa. Não entendeu de onde vinha aquele desconforto, mas o interpretou como hostilidade. A figura à sua frente a olhava de forma selvagem; não havia outra palavra para descrever aquele olhar que ele lançava sobre ela. Isso deixava Cara desconcertada e desconfortável, sem saber o que tinha feito de errado para ganhar a hostilidade do homem à sua frente. A imagem dele não ajudava. Alto, ombros largos, traços fortes, um ar constantemente sério — talvez até rabugento — que a fazia sentir como se estivesse diante de uma presença perigosa. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, sem que conseguisse definir se vinha de medo ou de algo mais difícil de admitir. Rycon também sentiu o embate. Havia um fogo ali — não declarado, não entendido — mas presente, queimando em silêncio. Em segundos, percebeu que estava prolongando demais aquele momento. Ele jamais olhava mais de um segundo para qualquer mulher à sua volta, mas ali estava, quebrando as suas próprias regras por uma desconhecida. — Aquela é Cara, minha assistente pessoal — diz César, ao ver o olhar que o filho mantinha sobre ela. — Espero que ela dure mais que as outras — diz ele. Sem mais nenhuma palavra, desviou o olhar e retomou o passo, passando por ela com a naturalidade calculada de quem não queria deixar pistas do que pensava. Cara observa Rycon partir sem entender. O homem não havia falado nada, mas, de certa forma, aquele encontro tinha sido pior do que se ele tivesse lhe dirigido a palavra. — Eu fiz algo errado, César? — pergunta Cara, quando ele se aproxima dela. — Não, querida, aquele é o mau humor característico do meu filho. Não leve para o lado pessoal — diz ele, lhe dando um sorriso de desculpas e entrando em sua sala. — Não se sinta m*l, Cara. Eu trabalho para o senhor Vasquez há alguns meses e ainda não me acostumei com aquele jeito dele — diz Ivy, aproximando-se dela com uma pasta nas mãos. — Ele parecia zangado — diz ela. — E muito provavelmente estava. É difícil um dia em que o senhor Rycon não esteja bravo com algo — diz Ivy, dando de ombros. Ela já tinha se acostumado com a presença fria de seu chefe e já não se importava mais com aquilo, mas podia ver que, para Cara, seria bem mais difícil. — Isso deve ser horrível — responde ela, observando o lugar por onde ele tinha passado. — Não se preocupe com isso. Tudo o que você precisa saber é que deve ficar fora do caminho dele quando ele estiver daquela forma. Ivy tinha perdido a conta de quantas pessoas seu chefe m*l-humorado havia demitido nos últimos meses por causa de seu temperamento; ela apenas permanecia porque sempre ficava fora de seu caminho. — Deve ser difícil conviver com ele — diz Cara, pensativa. — Não é fácil, mas o fato de eles pagarem um salário maior que o normal para aguentar o mau humor dele compensa — responde ela, piscando para Cara. Cara sorri com as palavras de Ivy. — Isso faz sentido. — Espero que você fique, Cara. Sei que vamos nos dar bem trabalhando juntas. — Espero que esteja certa. Não posso perder esse trabalho — diz ela, antes de voltar a trabalhar nos documentos à sua frente. Cara estava impressionada com a eficiência de Ivy. Ela era jovem e possuía uma paciência enorme enquanto ensinava o que precisava ser feito e, em poucas horas, Cara se via mergulhada nos documentos, adorando cada segundo. — Como estão indo as coisas, Cara? — pergunta César, saindo de sua sala. — Está indo bem, César. A Ivy é uma boa professora — diz ela, apontando para a secretária do outro lado do corredor. — Sim, ela é muito competente mesmo. E o mais importante — diz ele, abaixando-se mais para falar com ela — está aguentando o mau humor do meu filho. Cara olha para César, surpresa, mas quando ele pisca para ela, um sorriso se abre em seu rosto ao perceber que ele estava brincando. Havia algo em Rycon que despertava a curiosidade de Cara, mas, depois de tudo o que tinha descoberto, o seu único interesse naquele momento era manter distância do CEO m*l-humorado de horas atrás.
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