Sombras na Fazenda

1040 Words
O som ritmado dos passos de Rycon ecoava no hangar enquanto ele se aproximava da pista de pouso da empresa. O vento quente trazia consigo o cheiro de querosene e metal, mas nada parecia tirá-lo do torpor. Desde o momento em que tinha deixado a empresa, a imagem de Cara estava marcada na sua mente como um espinho. Não importava quantas decisões urgentes lhe atravessassem o caminho, aquela lembrança permanecia ali, como uma sombra teimosa. Aquela tinha sido a primeira vez que ele via a mulher, e mesmo assim não conseguia explicar o porquê não conseguia esquecer a forma que ela o tinha encarado na empresa. Subiu no pequeno monomotor sem trocar uma palavra. O piloto, ao vê-lo, apenas acenou em silêncio e iniciou os procedimentos de decolagem. Já estava acostumado àquela expressão — fria, cerrada, quase ameaçadora. Rycon não precisava falar para que todos ao seu redor soubessem: algo estava errado. O voo foi curto, mas cada minuto parecia arrastar-se. A paisagem verdejante, vista de cima, não lhe causava o costumeiro orgulho. Pelo contrário, havia um nó em seu estômago, apertando com cada lembrança das últimas semanas. Ao pousar na pista da fazenda, Luciano, o capataz, já o aguardava com o velho jipe. Um homem de ombros largos, pele marcada pelo sol e olhar cansado. Ao ver a expressão do patrão, soltou um suspiro, como quem sabe que aquele dia não terminaria bem. — Depois da última aplicação contra carrapatos, os touros começaram a morrer — disse, tentando manter o tom firme. — Eu já estou resolvendo tudo, não precisava ter vindo, doutor. Luciano já tinha explicado aquilo ao patrão por telefone, mas o conhecia bem o bastante para saber que ele gostaria de ouvir os detalhes diretamente dele. Rycon apenas lançou-lhe um olhar sombrio, daqueles que não precisavam de palavras. Luciano engoliu seco e não disse mais nada. O trajeto até a enfermaria foi rápido, mas o silêncio no jipe era sufocante. O cheiro de terra molhada misturava-se ao farfalhar das folhas, mas, para Rycon, tudo parecia abafado. A cada curva, a raiva crescia — não só pela perda dos animais, mas pelo sentimento de que dominava o seu peito sem nem ele mesmo saber o porquê. Quando chegaram, a cena não melhorou o seu humor. Alguns touros, abatidos, estavam deitados em baias improvisadas, e o ar pesado de remédios misturava-se ao cheiro acre de doença. A veterinária trabalhava apressada, mas quando ergueu os olhos e se deparou com o dele, estacou. O olhar de Rycon não era apenas severo — havia algo predatório nele. Como se, num único instante, pudesse atravessar a pele dela e arrancar cada explicação, cada detalhe, cada verdade que talvez ela escondesse. A mulher desviou o olhar, mas sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Ela trabalhava para ele apenas há alguns meses e sabia o quão exigente ele era com tudo o que dizia respeito aos seus animais, ainda mais se tratando de touros avaliados em mais de cento e cinquenta mil cada, do qual já haviam perdido seis animais. Ele permaneceu em silêncio, observando cada gesto, cada seringa, cada frasco de medicamento. Por dentro, sua mente era um redemoinho: a morte dos touros representava prejuízo, desordem e, acima de tudo uma dor de cabeça ao pensar que teria que comprar mais animais para substituir os que tinham morrido. E Rycon não tolerava erros — nem nos negócios, nem em si mesmo. No silêncio tenso da enfermaria, Rycon sabia que, antes de o dia acabar, alguém teria de lhe dar respostas. E elas teriam de ser boas. A veterinária limpou as mãos numa toalha de pano, tentando disfarçar o leve tremor nos dedos. — Senhor Rycon… — começou ela, mas a voz soou fraca demais, quase um pedido de desculpas antes de qualquer explicação. — Quantos? — interrompeu ele, sem tirar os olhos dela. — Até agora… seis. Mas temos mais três em estado crítico. Rycon deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — E a causa? Ela engoliu em seco. — Reação adversa ao produto aplicado contra carrapatos. É possível que o lote estivesse contaminado… — Possível? — a palavra saiu baixa, mas carregada de veneno. — Eu ainda não tive tempo de confirmar os exames. — tentou se justificar. — Você deveria ter confirmado antes de aplicar em um rebanho inteiro. — a voz dele não se alterou, mas o tom era cortante, frio como lâmina. — Aqui, “possível” significa prejuízo. “Possível” significa que alguém está perdendo dinheiro… e não sou eu quem costuma aceitar isso. Ela desviou o olhar, mas ele se aproximou mais um passo, obrigando-a a encará-lo. — Olhe para mim quando eu estiver falando. — ordenou, a voz grave. — Quero todos os resultados, cada detalhe, cada frasco testado. E quero agora. — Senhor Rycon… — ela hesitou — eu entendo a gravidade, mas não é assim que funciona… — Vai funcionar assim hoje. — cortou ele, sem levantar o tom. — Porque se mais um dos meus animais morrer por “possibilidade”, não será só o gado que vai sofrer as consequências. O silêncio que se seguiu era tão denso que até o som dos touros doentes pareceu cessar. Luciano, parado perto da porta, observava a cena com o maxilar travado. Conhecia bem aquele olhar do patrão — o tipo de olhar que precedia decisões das quais ninguém queria participar. A veterinária respirou fundo e assentiu. — Vou providenciar tudo imediatamente. — Faça isso. — disse ele, virando-se para sair. — E reze para que esses três ainda estejam vivos quando eu voltar. — Farei o meu melhor senhor. — Diz a mulher segurando o choro que ameaçava tomar o seu corpo. — O seu melhor aqui não é o suficiente doutora. Não está me fazendo apenas perder o meu precioso tempo, mas uma grande soma em dinheiro por causa do seu erro e******o. Ele deixou a enfermaria sem olhar para trás, mas a sensação do seu olhar sombrio permaneceu grudada na pele dela, como uma marca invisível. Com um último olhar para as costas do chefe ela se obriga a trabalhar, se não fizesse o que ele tinha pedido podia começar a procurar um novo emprego.
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