Rycon saiu da delegacia com o coração acelerado. A cada passo, o eco da revelação martelava-lhe a mente. Gael não mentiria — ele realmente tinha visto Arthur na escola. E o delegado havia confirmado. Ele não poderia permitir que se aproximasse de Cara e do filho novamente, não com ele por perto.
Assim que entrou em casa, o silêncio pesado o envolveu. O relógio da sala marcava um tempo lento demais, quase c***l. No sofá, César estava sentado, absorto, como se pressentisse o peso que o filho trazia nos ombros. Apenas um olhar foi suficiente para perceber que havia algo errado.
— Rycon... — disse, levantando-se, o olhar carregado de preocupação.
Rycon não respondeu de imediato. Limitou-se a caminhar em direção ao corredor. Apenas virou-se de leve e, num tom seco, ordenou:
— Vem comigo. — Rycon não queria que a mãe ouvisse a conversa que teriam; sabia que Mira apenas se preocuparia ainda mais.
O pai hesitou, mas seguiu. Entraram no escritório, onde a luz fraca do abajur criava sombras que pareciam respirar nas paredes. Rycon fechou a porta atrás deles.
— Gael disse que viu Arthur na escola — começou, a voz firme, quase cortante. — E o delegado confirmou.
César arregalou os olhos, a surpresa estampada no rosto. Levantou-se tão rápido que a cadeira rangeu. Ele não acreditava na audácia do homem.
— Meu Deus... Rycon, precisamos fazer algo! Não podemos permitir que Arthur se aproxime novamente, nem de Gael, nem de Cara!
Rycon permaneceu imóvel, os olhos fixos no pai, mas havia algo sombrio naquela imobilidade. Os seus punhos se cerraram devagar, como se contivessem uma fúria latente.
— Já estou cuidando disso. — A frieza em sua voz era quase desumana. — Breno designou uma viatura para vigiar Cara.
A raiva de Rycon não era direcionada ao pai, mas ele havia se segurado durante o restante da tarde para não fazer uma besteira, e naquele momento precisava deixar sair um pouco daquela fúria.
— Cara já sabe? — César perguntou, aflito.
— Ainda não. Eu conto a ela amanhã.
O silêncio caiu, denso. César andava de um lado para o outro, o rosto marcado pela angústia.
— Tenho medo do que Arthur possa fazer... — confessou, a voz embargada. — Se ele se aproximar... se ele encostar nela outra vez...
Rycon interrompeu-o com um olhar gélido. Não havia piedade em sua expressão, apenas uma determinação sombria. Seria o fim de Arthur se ele tocasse em sua mulher, ele garantiria aquilo.
— Ele não vai encostar. — O tom baixo e grave ecoou como uma promessa macabra. — Se Arthur tentar, eu mesmo vou cuidar para que seja a última vez.
César engoliu em seco. Conhecia aquele olhar do filho. Era o mesmo que Rycon tinha quando se preparava para enfrentar os piores inimigos, aquele brilho de aço que não deixava espaço para hesitação. Ele sabia que nada o faria mudar de ideia.
— Rycon... — tentou intervir, mas a voz falhou.
— Pai — cortou ele, aproximando-se. — Arthur já cruzou todos os limites. Não estou disposto a dar-lhe uma chance. Cara e Gael não vão pagar de novo pelos erros do passado.
Por um instante, o ar pareceu pesar ainda mais. César sentiu um arrepio percorrer a espinha. Ele também odiava Arthur, temia pelo que ele pudesse fazer. Mas o que via diante de si, no semblante do filho, era algo mais profundo: não apenas ódio, mas uma sombra que crescia, pronta para devorar qualquer ameaça.
Rycon se afastou, abrindo a cortina e fitando a noite lá fora.
— Ele não merece piedade — murmurou, quase para si mesmo. — E eu não vou dar.
O silêncio se fechou entre eles como uma sentença.
— Não quero que dê. Ele merece tudo de r**m que lhe acontecer a partir de agora — disse César, aproximando-se. — Mas Cara não precisa saber.
Rycon se virou e encontrou os olhos do pai, que naquele momento brilhavam com a mesma sede de vingança que os seus. César podia ser pacífico e gentil, mas sabia ser implacável quando precisava.
— Eu a amo, pai. — disse ele de repente. — Não sei quando começou, só sei que esse sentimento me toma sempre que a vejo.
Para ele, era frustrante não saber como lidar com aquele sentimento, e a cada dia que passava se tornava mais difícil agir de forma natural perto de Cara.
— Ela é uma mulher bonita e inteligente, seria burrice se não a amasse. — disse César, relaxando a postura enquanto se sentava na poltrona novamente.
— Eu a beijei.
César só não havia caído porque estava sentado diante daquela revelação do filho. Ele olhava para Rycon e não via qualquer sinal de arrependimento no que tinha feito.
— Você a beijou? Quando? — perguntou ele.
— Quando fui chamá-la para a reunião, não pude me conter. — disse ele, abaixando a cabeça como uma criança que confessava algo errado.
— E como ela reagiu? — César não via a hora de seu filho sossegar de vez, e sabia que Cara era mais do que capaz de mantê-lo na linha em seu lugar.
— Ela pareceu surpresa. — disse ele, refletindo na expressão de Cara ao vê-lo diante de si.
— Espera! Me explique isso melhor, acho que não estou entendendo. — disse César, com um olhar confuso.
— Ela estava cochilando no sofá da sala de espera, dei um beijo nela para acordá-la, foi apenas isso.
Quando César pensava que a história não poderia ficar pior, ela ficava. Ele encarou o filho em descrença diante daquelas revelações.
— Você... você roubou um beijo dela!? — perguntou César, incrédulo diante dos fatos.
— Não foi roubar. — disse Rycon, soltando um suspiro ao se sentar.
— É mesmo? Então o que foi? — Ele não podia acreditar nas palavras que deixavam a boca do filho.
— Só peguei o que é meu. — disse, dando de ombros, como se aquilo não fosse nada demais. E, para ele, realmente não era.