Rycon cruzou os braços, mantendo o olhar fixo no ecrã que mostrava a imagem congelada do corredor da escola. O silêncio na sala de monitoramento era pesado, apenas quebrado pelo ranger da cadeira de metal quando o inspetor se inclinou para a frente, resmungando entre os dentes.
Ele tinha feito questão de acompanhar os policiais até a delegacia, Rycon era amigo do delegado e queria garantir que eles fizessem o trabalho o mais depressa possível. Aquela duvida o estava corroendo por dentro e tudo o que ele queria era ter a certeza de que Gael não havia se enganado.
— Maldito... o garoto estava certo. — A voz do policial soou amarga, quase como uma derrota pessoal. Ele tinha o olhar fixo no monitor enquanto uma imagem congelada aparecia em destaque.
Outro agente aproximou-se, trazendo um maço de pastas. Espalhou sobre a mesa várias fotografias antigas, tiradas ao longo dos anos. Arthur em diferentes situações, sempre com aquele mesmo olhar castanho penetrante e a pele morena que se destacava contra qualquer multidão.
— Vejam isto... — disse o primeiro, apontando com a ponta da caneta para a tela. — Os olhos. Não há erro. É ele.
Rycon engoliu em seco, sentindo um nó apertar-lhe a garganta. O coração batia mais rápido, não pela confirmação em si, mas pelo que ela significava: Cara e Gael não estavam apenas em perigo imaginário. Estavam na mira de alguém real, de alguém que não deveria mais estar presente nas suas vidas.
— A diferença está no cabelo. — comentou um terceiro agente, franzindo a testa. — Antigamente mantinha o corte rente, militar quase. Agora... até aos ombros. Tentativa de se disfarçar, de se perder entre os outros. Mas não muda nada. É ele.
O silêncio voltou a assentar sobre a sala, desta vez carregado de uma tensão sufocante. Rycon apertou os punhos, tentando conter a raiva e o medo. A imagem de Cara naquela manhã, a confiança tranquila de Gael ao contar o que tinha visto... tudo parecia frágil, prestes a desmoronar.
Rycon olhava com atenção para a imagem do homem a sua frente, ele fazia questão de marcar bem a imagem de Arthur, o homem estava em sua mira e Rycon faria de tudo para o encontrar.
— Precisamos agir rápido. — disse o inspetor mais velho, a voz firme. — Esse homem não voltou sem motivo. Se se aproximou do garoto, é porque está à procura de um alvo mais fácil.
— Cara e o menino têm de ser postos sob proteção imediata. — acrescentou o segundo. — Não podemos correr riscos. Esse safado do Arthur já fugiu uma vez, não podemos permitir que ele escape novamente.
— E o dispositivo que ela recebeu, ainda esta ativo? — Pergunta um dos policiais.
— Sim, mantemos a manutenção dele em dia.
— Vamos analisar mais uma vez só por garantia, e precisamos manter vigilância na escola do menino, está na cara que ele quer se aproximar novamente, e vai ser nesse momento que o pegaremos.
Rycon não conseguiu permanecer em silêncio. Endireitou-se na cadeira e, num tom grave, cortou a conversa:
— Eles já estão sob a minha proteção. Mas se Arthur sabe onde encontrá-los, não será suficiente. Precisamos de algo mais... precisamos ter a certeza de que não consegue chegar perto deles.
O inspetor olhou-o com seriedade.
— Entenda, senhor. Arthur é escorregadio. Já nos passou pelas mãos mais vezes do que devíamos admitir. Se voltou agora, é porque acredita que tem vantagem.
— O que prova que precisam melhorar o seu monitoramento. Esse desgraçado espancou a minha mulher, e machucou o próprio filho, ele precisa pagar por isso. — Diz Rycon com olhos sombrios.
— Não sabíamos que esta com a senhorita Cara. — Diz outro policial passando a mão pela cabeça.
— Agora sabe, e quero que cuide disso o mais rápido possível. — Diz o delegado entrando na sala. — É bom vê-lo meu amigo.
— Olá Breno. Como tem passado? — PErgunta Rycon o cumprimentando.
— Bem, apenas ocupado com algumas coisas, mas me diga, quando se casou e não me convidou para a festa? — Pergunta Breno com um sorriso de canto.
Rycon encara o amigo e ri, Breno não havia mudado muito nos anos de amizade que tinham, continuava o mesmo festeiro de sempre.
— Ainda não oficializamos, mas te convido quando acontecer. — Diz Rycon com tranquilidade.
— Espero mesmo. — Diz Breno antes de se virar para os policiais a sua frente. — Mantenha uma viatura próxima a escola do menino e criem uma grade de vigilância na casa da Senhora Vásquez. Precisamos ter certeza de que ele esta passando por lá também.
— Faremos isso seno delegado. — Diz um dos policiais.
— E rápido, quero o pescoço desse safado também. — Breno tinha analisado o caso de Cara antes de ir ver Rycon, e havia ficado horrorizado com as imagens de mãe e filho, ele queria justiça, e um pouco de vingança também não seria m*l, Breno tinha planos de mostrar as imagens das vítimas para alguns presos em sua prisão, eles se divertiriam um pouco com Arthur.
— Já tenho algumas pessoas investigando isso. — Diz Rycon enquanto o acompanhava até a sua sala.
— Imaginei que tivesse, você nunca dá um ponto sem nó Rycon, te conheço a tempo o suficiente para saber disso. — Diz ele se sentando e apontando o assento a sua frente para Rycon.
— Sou um homem prevenido, apenas isso. — Diz ele dando de ombros.
— Sim, e está ganhando muitos inimigos. — Diz Breno passando a mão pelos cabelos castanhos em frustração. — Por deus, Rycon! Precisa controlar os seus nervos.
— Se não fazia isso na época da faculdade, o que te faz pensar que farei isso agora? — Pergunta ele encarando o amigo com a sobrancelha arqueada.
— Droga de riquinho de merda! — diz Breno frustrado. — Queria ver se você seria tudo isso sem o seu dinheiro.
Rycon encara Breno e ri, eles já tinham tido aquela conversa muitas vezes, e o amigo sabia bem a sua resposta.
— Seria muito pior meu amigo, muito pior.