Ecos do Passado

1065 Words
A sala de reuniões parecia sufocante. A cada fala dos empresários, Cara tentava prestar atenção, mas seus olhos a traíam. Sem que percebesse, voltavam sempre para Rycon. Ele não falava muito, mas cada gesto, cada inclinar de cabeça, cada olhar calculado, fazia o coração dela acelerar. O beijo ainda ardia em sua memória como uma cicatriz, impossível de ignorar e, na verdade, ela não queria ignorar. Tentava se convencer de que estava ali apenas a trabalho. Tentava focar nos gráficos, nas metas, nos planos de expansão. Mas era inútil. Tudo que a sua mente repetia era a sensação dos lábios dele sobre os seus, o calor inesperado que ainda queimava em sua pele. Quando a reunião terminou, foi a primeira a sair. Queria respirar, fugir daquela prisão invisível que Rycon representava. Voltou para sua mesa às pressas, tentando retomar o fôlego. — O que aconteceu? — perguntou Ivy, aproximando-se com a perspicácia de sempre. Cara ergueu o olhar, forçando um sorriso que não alcançou os olhos. — Nada. Estou só cansada. Ivy não pareceu convencida, mas não insistiu. Apenas tocou de leve no ombro dela antes de voltar ao próprio lugar. O fim do dia chegou rápido, mas Cara estava longe de estar em paz. Quando saiu para o estacionamento, congelou. Rycon estava lá, esperando junto ao carro, com a mesma postura imponente de sempre. O coração dela pulou, mas ele não disse nada. Sem mencionar o que havia acontecido entre eles, limitou-se a abrir a porta para ela, como se o beijo nunca tivesse existido. Cara sentiu a raiva crescer em silêncio, latejando em suas veias. O gesto dele foi cortês, até delicado, mas a indiferença era insuportável. Entrou no carro, mas quando Rycon se inclinou para ajudá-la com o cinto de segurança, o calor da proximidade a atingiu de novo. Ele se afastou rápido demais, e aquilo apenas aumentou a sua frustração. Como podia ignorar? Como podia fingir que nada tinha acontecido? O silêncio entre eles se prolongou durante o trajeto, até chegarem à escola. Mas a calma se despedaçou no instante em que Cara percebeu que Gael não estava no lugar de sempre. O seu coração gelou e o medo disparou nas suas veias. — Onde ele está? — a sua voz saiu trêmula, quase um grito. O desespero tomou conta. Largou a bolsa e correu para dentro da escola, com Rycon logo atrás. O som dos saltos dela ecoava pelos corredores quase vazios. — Gael! — chamava, a garganta apertada, o coração prestes a explodir. — Gael! — Calma Cara, vamos encontrá-lo, ele não deve ter saído. — Diz Rycon ao seu lado. Cada segundo de silêncio parecia um punhal. Cada sala vazia, um pesadelo prestes a ganhar forma. E então, um som. Passos apressados. O pequeno corpo surgiu correndo em sua direção, os olhos marejados de medo. — Mãe! — ele se jogou nos braços dela com força, agarrando-se como se tivesse medo de soltá-la. O alívio foi imediato. Cara chorou sem perceber, apertando-o contra si como se quisesse protegê-lo do mundo inteiro. — O que aconteceu, meu amor? — perguntou ofegante, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Por que não estava no lugar de sempre? Gael hesitou. Os seus olhos tremiam, cheios de algo que ela não queria ver: medo. Baixou a voz, quase como se temesse ser ouvido. — Eu vi… o pai. — murmurou, engolindo em seco. — Ele estava aqui. Fiquei com medo… e me escondi. O corpo de Cara enrijeceu. O chão pareceu sumir sob os seus pés. Por um instante, não conseguiu reagir. A sua respiração ficou presa, e apenas o olhar aterrorizado de Gael a mantinha de pé. Atrás dela, Rycon escutava em silêncio. O seu maxilar se contraiu, os punhos cerrados. O ar carregado no corredor parecia prestes a explodir. — Vamos para casa, conversamos melhor lá. — Diz Cara pegando o filho no colo e correndo para fora. Rycon percebia a urgência dela em cada passo que dava em direção à saída, a forma que ela olhava para os lados como se procurasse por algo. Ele pega Gael do colo dela e acelera o passo, o coloca no carro e partem rapidamente para a casa de Cara. O caminho tinha sido rápido e silencioso. Cara tinha ido no banco de trás com o filho, e ver os olhos assustados de Gael, fazia com que Rycon apertasse o volante com mais força. No momento em que entram em casa Cara já estava com o telefone em mãos falando com alguém de forma alterada, rapidamente uma viatura da polícia estaciona em frente a casa. — Acalme-se senhorita, deve ter sido apenas um engano. — dizia o policial a Cara quando ela explicou o que tinha acontecido. — Um engano? Acha que o meu filho está mentindo? — Diz ela de forma ríspida, o rosto corado de raiva. — Não estamos dizendo isso, mas ele pode ter se enganado. — Justifica o policial tentando se defender. — Se enganado? — pergunta ela sem acreditar no que tinha ouvido. — Venha aqui querido. Gael caminha até a mãe lentamente os olhos ainda assustados pela discussão. — Posso tirar a sua camisa, meu amor? — Pergunta ela com carinho se abaixando ao lado dele. Rycon olha aquilo em fúria, e o pedido de Cara o deixa confuso por um instante, isso até que o uniforme da escola fosse removido e mostrasse as costas do menino, a ira de Rycon era tanta que ele temia incendiar a casa com o que via. — Mas que merda! — Diz um dos policiais arfando ao ver as cicatrizes nas costas do menino. — Acham mesmo que meu filho se enganaria sobre quem fez isso com ele! — Grita ela com lágrimas descendo por seu rosto. — Eu vou resolver isso. — diz Rycon dando um passo a frente. Os policiais dão um passo para trás ao ver a expressão furiosa de Rycon sobre eles. — Quero as imagens das câmeras de segurança da escola para ontem. — Diz ele dando um passo em direção aos policiais s fazendo recuar. — Mas senhor... — começa um deles, mas o outro o detém. — Faremos isso senhor, se for para esclarecer esse m*l entendido, vamos cooperar. — Diz ele antes de se retirar e sair. Assim que eles saem Rycon se vira para Cara com olhos assassinos.
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