A sala de reuniões parecia sufocante. A cada fala dos empresários, Cara tentava prestar atenção, mas seus olhos a traíam. Sem que percebesse, voltavam sempre para Rycon. Ele não falava muito, mas cada gesto, cada inclinar de cabeça, cada olhar calculado, fazia o coração dela acelerar. O beijo ainda ardia em sua memória como uma cicatriz, impossível de ignorar e, na verdade, ela não queria ignorar.
Tentava se convencer de que estava ali apenas a trabalho. Tentava focar nos gráficos, nas metas, nos planos de expansão. Mas era inútil. Tudo que a sua mente repetia era a sensação dos lábios dele sobre os seus, o calor inesperado que ainda queimava em sua pele.
Quando a reunião terminou, foi a primeira a sair. Queria respirar, fugir daquela prisão invisível que Rycon representava. Voltou para sua mesa às pressas, tentando retomar o fôlego.
— O que aconteceu? — perguntou Ivy, aproximando-se com a perspicácia de sempre.
Cara ergueu o olhar, forçando um sorriso que não alcançou os olhos.
— Nada. Estou só cansada.
Ivy não pareceu convencida, mas não insistiu. Apenas tocou de leve no ombro dela antes de voltar ao próprio lugar.
O fim do dia chegou rápido, mas Cara estava longe de estar em paz. Quando saiu para o estacionamento, congelou. Rycon estava lá, esperando junto ao carro, com a mesma postura imponente de sempre. O coração dela pulou, mas ele não disse nada.
Sem mencionar o que havia acontecido entre eles, limitou-se a abrir a porta para ela, como se o beijo nunca tivesse existido. Cara sentiu a raiva crescer em silêncio, latejando em suas veias. O gesto dele foi cortês, até delicado, mas a indiferença era insuportável.
Entrou no carro, mas quando Rycon se inclinou para ajudá-la com o cinto de segurança, o calor da proximidade a atingiu de novo. Ele se afastou rápido demais, e aquilo apenas aumentou a sua frustração.
Como podia ignorar? Como podia fingir que nada tinha acontecido?
O silêncio entre eles se prolongou durante o trajeto, até chegarem à escola.
Mas a calma se despedaçou no instante em que Cara percebeu que Gael não estava no lugar de sempre. O seu coração gelou e o medo disparou nas suas veias.
— Onde ele está? — a sua voz saiu trêmula, quase um grito.
O desespero tomou conta. Largou a bolsa e correu para dentro da escola, com Rycon logo atrás. O som dos saltos dela ecoava pelos corredores quase vazios.
— Gael! — chamava, a garganta apertada, o coração prestes a explodir. — Gael!
— Calma Cara, vamos encontrá-lo, ele não deve ter saído. — Diz Rycon ao seu lado.
Cada segundo de silêncio parecia um punhal. Cada sala vazia, um pesadelo prestes a ganhar forma.
E então, um som. Passos apressados. O pequeno corpo surgiu correndo em sua direção, os olhos marejados de medo.
— Mãe! — ele se jogou nos braços dela com força, agarrando-se como se tivesse medo de soltá-la.
O alívio foi imediato. Cara chorou sem perceber, apertando-o contra si como se quisesse protegê-lo do mundo inteiro.
— O que aconteceu, meu amor? — perguntou ofegante, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — Por que não estava no lugar de sempre?
Gael hesitou. Os seus olhos tremiam, cheios de algo que ela não queria ver: medo. Baixou a voz, quase como se temesse ser ouvido.
— Eu vi… o pai. — murmurou, engolindo em seco. — Ele estava aqui. Fiquei com medo… e me escondi.
O corpo de Cara enrijeceu. O chão pareceu sumir sob os seus pés. Por um instante, não conseguiu reagir. A sua respiração ficou presa, e apenas o olhar aterrorizado de Gael a mantinha de pé.
Atrás dela, Rycon escutava em silêncio. O seu maxilar se contraiu, os punhos cerrados. O ar carregado no corredor parecia prestes a explodir.
— Vamos para casa, conversamos melhor lá. — Diz Cara pegando o filho no colo e correndo para fora.
Rycon percebia a urgência dela em cada passo que dava em direção à saída, a forma que ela olhava para os lados como se procurasse por algo. Ele pega Gael do colo dela e acelera o passo, o coloca no carro e partem rapidamente para a casa de Cara.
O caminho tinha sido rápido e silencioso. Cara tinha ido no banco de trás com o filho, e ver os olhos assustados de Gael, fazia com que Rycon apertasse o volante com mais força.
No momento em que entram em casa Cara já estava com o telefone em mãos falando com alguém de forma alterada, rapidamente uma viatura da polícia estaciona em frente a casa.
— Acalme-se senhorita, deve ter sido apenas um engano. — dizia o policial a Cara quando ela explicou o que tinha acontecido.
— Um engano? Acha que o meu filho está mentindo? — Diz ela de forma ríspida, o rosto corado de raiva.
— Não estamos dizendo isso, mas ele pode ter se enganado. — Justifica o policial tentando se defender.
— Se enganado? — pergunta ela sem acreditar no que tinha ouvido. — Venha aqui querido.
Gael caminha até a mãe lentamente os olhos ainda assustados pela discussão.
— Posso tirar a sua camisa, meu amor? — Pergunta ela com carinho se abaixando ao lado dele.
Rycon olha aquilo em fúria, e o pedido de Cara o deixa confuso por um instante, isso até que o uniforme da escola fosse removido e mostrasse as costas do menino, a ira de Rycon era tanta que ele temia incendiar a casa com o que via.
— Mas que merda! — Diz um dos policiais arfando ao ver as cicatrizes nas costas do menino.
— Acham mesmo que meu filho se enganaria sobre quem fez isso com ele! — Grita ela com lágrimas descendo por seu rosto.
— Eu vou resolver isso. — diz Rycon dando um passo a frente.
Os policiais dão um passo para trás ao ver a expressão furiosa de Rycon sobre eles.
— Quero as imagens das câmeras de segurança da escola para ontem. — Diz ele dando um passo em direção aos policiais s fazendo recuar.
— Mas senhor... — começa um deles, mas o outro o detém.
— Faremos isso senhor, se for para esclarecer esse m*l entendido, vamos cooperar. — Diz ele antes de se retirar e sair.
Assim que eles saem Rycon se vira para Cara com olhos assassinos.