Desespero de uma mãe

1017 Words
O corpo pequeno de Gael tombou, pesado, contra os braços de Cara. O silêncio que seguiu foi tão brutal que parecia que o mundo inteiro havia prendido a respiração. — Gael! — o grito de Cara ecoou, desesperado, enquanto ela tentava erguer o filho, sacudindo-o de leve. — Acorda, meu amor, acorda, por favor... O menino permanecia inerte, a cabeça tombada para o lado, os cílios longos descansando contra a pele pálida demais. O coração de Cara disparava em pânico, o choro já não lhe permitia respirar direito. Rycon, como que despertando de um transe, avançou num impulso. — Sai da frente! — ordenou, ajoelhando-se ao lado dela. — Não lhe toque! — Cara gritou, instintivamente, apertando o filho contra o peito como se quisesse protegê-lo até dele próprio. Os olhos de Rycon se arregalaram. Ele nunca a tinha visto assim: feroz, desesperada, como uma leoa defendendo a cria. — Cara, me ouve! — a voz dele, por mais firme que tentasse soar, estava embargada. — Ele precisa de ajuda agora! As lágrimas de Cara escorriam, mas o terror em seus olhos cedeu à razão. Com mãos trêmulas, deixou que Rycon se aproximasse. Ele apoiou o menino com cuidado no chão, inclinando-lhe o corpo. — Respira, Gael... vamos, pequeno, respira... — murmurava, mais para si do que para o menino. Rycon encostou o ouvido ao peito dele, procurando o som do coração. Estava fraco, mas presente. Uma onda de alívio e medo ao mesmo tempo percorreu seu corpo. — O coração ainda bate... mas é fraco — disse, sem perceber que falava em voz alta. — Ele precisa de um médico. Agora! Cara soluçava, as mãos acariciando o rosto do filho, como se o toque pudesse trazê-lo de volta. — Por que está acontecendo isso? — perguntou, num sussurro carregado de desespero. — Ele só... ele só queria me proteger... Rycon sentiu um peso esmagador no peito. As palavras de Gael ainda ecoavam em sua mente como um veneno: “Eu não vou deixar que faça m*l à minha mãe!” Aquelas frases não eram fruto de um m*l-entendido qualquer. Vinham de medo real, enraizado. Ele olhou para Cara e, por um instante, percebeu que havia algo que ela não dizia. Algo que se escondia por trás do olhar dela, mais profundo que qualquer erro de documento ou discussão. — Cara... — a voz de Rycon saiu baixa, quase um sussurro grave. — O que é que ele passou... para reagir assim? Os olhos dela se encheram de um choro silencioso, mas não respondeu. Apenas abraçou o filho desmaiado, protegendo-o como se o mundo inteiro fosse um inimigo. Rycon apertou os punhos. O instinto dele gritava que aquilo não podia continuar — que havia segredos demais, feridas invisíveis demais. E agora, com o menino inconsciente diante deles, não restava mais tempo. Levantou-se num ímpeto. — Vamos. Se não o levarmos a um médico imediatamente, pode ser tarde demais. Sem esperar resposta, pegou Gael em seus braços e saiu a passos rápidos, o eco dos sapatos marcando a urgência que dominava o corredor. Cara despertou do seu estado de transe e correu atrás de Rycon. — Vai ficar bem, meu amor... eu prometo... — repetia, como uma reza desesperada. Mas, no fundo, sabia que não era uma promessa que podia cumprir sozinha. Ela abriu a porta do carro e entrou, pegando Gael em seus braços. Rycon assumiu o volante e partiu cantando pneu. Eles haviam chegado ao hospital em tempo recorde. Assim que o carro parou, uma equipe médica correu em direção a eles. — O que houve? — perguntou o médico enquanto prestava os primeiros socorros. — Aparentemente, é um ataque de pânico. Ele não consegue respirar. — disse Rycon, deixando Cara surpresa por ele ter percebido aquilo. — Há quanto tempo isso vem acontecendo? — perguntou o médico. Rycon se virou para Cara com a sobrancelha arqueada, esperando que ela respondesse. — Senhora? — insistiu o médico. — É a segunda vez. — respondeu ela, num fio de voz. — Ele está tomando algum medicamento ou fazendo algum tratamento para conter os ataques de pânico? As palavras do médico foram um golpe em Cara. Ao ver a forma como o filho estava, ela se culpava por ter tentado ignorar o que estava diante dos seus olhos. — Não. — respondeu após alguns segundos. — Tudo bem, vamos levá-lo para fazer alguns exames e em breve traremos notícias. — disse o médico, sinalizando para que os enfermeiros levassem a maca com o pequeno. — Mas... — Deixe-o cuidar do Gael, você não pode fazer nada agora. — disse Rycon, segurando o braço dela. Rycon caminhou até os assentos e se sentou, puxando Cara com ele. O rosto dela estava pálido e ela chorava em silêncio, sentada em seu lugar. — Como pode ser tão irresponsável? — perguntou ele em voz baixa. Rycon tentava conter a fúria que o dominava ao se lembrar da forma como o menino tinha passado m*l. — É fácil julgar quando não se está na pele do outro. — respondeu ela com um sorriso amargo nos lábios. — Não estou julgando, estou apenas dizendo a verdade. — retrucou ele. Cara não insistiu naquela conversa. Sabia que, em parte, Rycon tinha razão e que havia falhado com o filho. Mas pretendia corrigir aquilo. Nunca mais permitiria que o menino passasse por uma situação daquelas. Alguns minutos depois, uma mulher entrou correndo no hospital. Rycon observou-a vir até eles com o rosto pálido. Assim que avistou Cara, respirou aliviada. — Onde ele está? — perguntou, aflita. — O médico o está examinando. — respondeu Cara. Ela havia contado a Lúcia o que tinha acontecido e ela foi rápida em ir vê-los. — Graças a Deus. — disse ela, sentando-se ao lado deles. — Precisamos cuidar disso, Cara. Está ficando fora de controle. As palavras de Lúcia eram tranquilas e baixas, enquanto segurava a mão de Cara. — Vou cuidar disso. — respondeu ela, apertando a mão de Lúcia. — Você vai me contar o que está acontecendo, Cara? Ou vai continuar mentindo? — perguntou Rycon.
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