O volante rangia sob a força com que Rycon o segurava. Ele ainda sentia o gosto amargo da frustração na boca. A manhã fora um inferno: problemas com o gado, funcionários desatentos e uma falha nas cercas de uma das fazendas. Tudo o que ele queria era voltar para casa, tomar um banho quente e beber um whisky em silêncio. Mas não — tinha de enfrentar uma reunião enfadonha com um grupo de acionistas que, na sua opinião, viviam de atrapalhar mais do que de ajudar.
Ele saiu tão depressa que nem sequer pensou em trocar de roupa. Ainda usava as botas empoeiradas, a calça jeans gasta e a camisa de botões amassada. O chapéu ainda repousava firme em sua cabeça, escondendo parte do cabelo n***o rebelde. Quem o visse assim nunca imaginaria que aquele homem, de barba por fazer e olhos castanhos cheios de tempestade, era o CEO de uma das maiores empresas agroindustriais do país.
Quando estacionou a sua caminhonete na frente do prédio corporativo, os olhares começaram imediatamente. Pessoas engravatadas, bem perfumadas e de sapatos engraxados viravam-se discretamente — ou nem tanto — para observar aquele gigante m*l-humorado que caminhava decidido pelo hall.
Cada passo ecoava no piso de mármore, atraindo atenção. Rycon sentia os olhares como facas nas costas, mas manteve a expressão fechada. Que olhassem. Não estava ali para agradar ninguém.
Ele atravessou o saguão, mirando o elevador, quando uma voz hesitante o interrompeu.
— Senhor... espere!
Rycon parou bruscamente e virou-se. Uma das recepcionistas, jovem e elegante no seu uniforme impecável, corria atrás dele com um tablet na mão.
— O senhor não pode subir assim sem identificação! — disse ela, com um sorriso nervoso. — Acesso ao andar executivo é restrito.
Ele piscou lentamente, tentando absorver aquelas palavras.
— Como é que é?
— Eu... preciso do seu crachá ou... uma autorização. — Ela engoliu em seco, sentindo o peso do olhar dele.
O silêncio que seguiu foi sufocante. Rycon ergueu uma sobrancelha e deu um passo à frente, a sombra de seu corpo quase a engolindo.
— Está a tentar me dizer que eu não posso entrar... na minha própria empresa?
A recepcionista piscou, confusa. De forma involuntária ela dá um passo para trás diante do olhar assassino que o homem a sua frente lhe lançava.
— Sua... empresa?
Rycon tirou o chapéu lentamente, revelando o cabelo escuro desgrenhado e os traços fortes do rosto. O olhar castanho dele queimava como brasas.
— Rycon Vasques. CEO. Talvez já tenha ouvido falar. — Diz ele com os dentes trincados de raiava enquanto olhava a mulher a sua frente com desprezo.
A moça ficou lívida, engasgando-se em desculpas.
— Senhor, eu... não o reconheci, é que...
Ele ergueu a mão, cortando as palavras dela.
— Não me interessa. Se eu já estava de mau humor, acaba de piorar. Eu me pergunto quando a equipe do RH passou a contratar pessoas tão incompetentes quanto você.
A mulher olhava para Rycon com olhos arregalados enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas com as palavras dele, ela não tinha reação diante das p************s que ele havia lhe dirigido naquele momento.
Sem esperar resposta, passou por ela e entrou no elevador, apertando o botão do último andar com força desnecessária. Enquanto as portas se fechavam, viu o reflexo da sua expressão: dura, selvagem, como um homem que carregava o peso do campo e a fúria de alguém que odiava formalidades inúteis.
Dentro dele, a irritação fervia. Aquela reunião que já prometia ser insuportável acabava de ganhar mais um motivo para ele perder a paciência.
As portas do elevador se abriram com um ding seco. Rycon saiu como uma tempestade prestes a cair. O andar executivo era impecável, com paredes envidraçadas, móveis minimalistas e aquele cheiro de café caro que ele detestava. Não havia uma única partícula de poeira ali — tudo polido, brilhante, artificial.
Os acionistas já estavam reunidos na grande sala oval de conferências. Homens e mulheres engravatados, perfumados e de sorrisos calculados, todos com os seus tablets e laptops reluzentes à frente. Quando Rycon entrou, usando a suas botas sujas e chapéu na mão, o silêncio tomou conta do ambiente.
Alguns trocaram olhares incrédulos. Outros franziram o nariz com discreta desaprovação.
— Ele veio assim? — murmurou um deles, baixo, mas alto o suficiente para Rycon ouvir.
O CEO parou à cabeceira da mesa, apoiou o chapéu sobre ela e lançou um olhar que parecia capaz de atravessar ossos.
— Algum problema com a minha roupa? — Sua voz grave soou como trovão. — Ou talvez agora vocês vão querer ditar as roupas que uso na minha empresa!
O homem que havia feito o comentário engoliu em seco e desviou o olhar.
Rycon puxou a cadeira e sentou-se com um movimento brusco, as botas ainda empoeiradas apoiadas sem cerimônia no chão impecável de mármore. Ele olhou em volta, olhos castanhos faiscando hostilidade.
— Muito bem. Digam logo o que querem, porque tenho mais o que fazer.
Uma mulher de meia-idade, de postura elegante, pigarreou e tentou recuperar o controle da situação.
— Senhor Vasques, precisamos discutir os relatórios trimestrais. Há também a questão das expansões previstas e...
— Relatórios? — Rycon a interrompeu, batendo a palma da mão sobre a mesa com um estrondo seco que fez alguns sobressaltarem-se. — Enquanto vocês estão aqui, escondidos atrás dessas paredes de vidro, eu estava lá fora, com as mãos na terra, resolvendo problemas reais! Estou até o pescoço de trabalho e vocês me tiram de um lugar aonde eu era útil par discutir relatórios?!
O silêncio se instalou. Todos estavam tensos. Ninguém ousava respirar alto.
Ele inclinou-se para frente, os olhos castanhos ardendo como brasas.
— Vocês querem falar de números? Então vamos começar pelos últimos investimentos que eu fui contra e que vocês aprovaram sem a minha autorização, que tal os números do prejuízo que tivemos e que agora estou ralando para recuperar.
A mesma mulher tentou manter a compostura.
— Com todo o respeito, senhor, há maneiras mais... adequadas de tratar...
— Adequadas? — Rycon riu, um riso baixo, quase perigoso. — Não sei se reparou, Madalena, mas escolheu o dia errado para essa reunião. — Se não gostam de como conduzo as coisas, a porta é larga. Mas enquanto eu for CEO, vão se acostumar a lidar com a realidade.
Um silêncio denso pairou. Nenhum acionista ousou retrucar. Alguns baixaram os olhos, outros mexeram nos papéis só para evitar encarar aquele olhar predador.
Rycon recostou-se lentamente na cadeira, como uma fera que finalmente baixava as garras, e cruzou os braços.
— Agora... continuem. Já me fizeram perder o meu tempo. Estou a ouvir.
Ninguém mais ousou falar em tom desafiador. Todos observavam Rycon como se ele fosse uma fera que os despedaçaria a qualquer momento, o que era uma possibilidade dada a raiva do CEO.