Enquanto os convidados retomavam as suas conversas, um olhar fixo pairava sobre Rycon. Gael, firme e inabalável, encarava o CEO como quem enfrenta um inimigo em campo de batalha. O contraste entre o menino, pequeno e elegante em seu smoking, e o homem corpulento e imponente, arrancaria sorrisos de qualquer observador atento.
Gael, no entanto, não sorriu. Ele tinha ouvido a discussão entre o homem, a sua frente e a sua mãe, e não havia gostado nada daquilo.
— Por que o senhor foi grosseiro com a minha mãe? — perguntou, a voz clara e direta, sem qualquer hesitação.
Rycon piscou, surpreso, como se a criança tivesse acabado de lhe atirar uma pedra invisível. Ele nem ao menos tinha reparado que o menino estava li, os seus olhos estavam apenas em Cara.
— Isso é… coisa de adulto. — respondeu, tentando parecer paciente. — Você não pode se meter no meio.
Mas Gael não recuou. Pelo contrário, ergueu o queixo com determinação. Ele não se importava com quem a pessoa a sua frente era, tudo o que a sua cabecinha de criança entendia era que ele tinha sido grosseiro com a sua mãe e ele não a queria ver triste.
— Eu posso sim. O senhor foi m*l-educado. E homens não podem ser grosseiros com mulheres.
O silêncio se instalou por alguns instantes, até ser quebrado por uma gargalhada profunda e sincera de César. Ele não acreditava que seu filho estava recebendo uma bronca de um menino de seis anos de idade.
— Escutou isso, Rycon? — disse, limpando discretamente uma lágrima do canto do olho. — Até um menino sabe mais sobre como tratar uma mulher do que você, que já é adulto!
Rycon lançou um olhar fulminante ao pai, mas não respondeu. Estava mais impressionado com a coragem daquele garoto do que queria admitir. Ele podia ver a forma que o menino o encarava, como se ele fosse uma ameaça a sua querida mãe.
Alheio às trocas de olhares, Gael continuou com naturalidade, como quem apenas repetia lições de casa:
— A mamãe sempre me ensinou a ser bom com as mulheres. — Gael se orgulhava da mãe que tinha e gostava de ouvir os seus conselhos.
E, sem perceber o peso do que dizia, acrescentou:
— Eu nunca vou ser r**m como o meu pai foi. — Diz ele com um olhar sério, como quem os desafiava a questionar o que tinha dito.
As palavras pairaram no ar como uma pedra lançada em um lago silencioso. O rosto de Cara empalideceu, mas antes que pudesse intervir, Rycon e César trocaram um olhar cúmplice, carregado de perguntas não ditas.
O menino tinha falado com uma inocência tão grande que ninguém ousou repreendê-lo.
Antes que qualquer um pudesse abrir a boca, Mira surgiu como um raio, sorridente e ágil, segurando Gael pela mão.
— Vamos, querido, você precisa experimentar os doces antes que se acabem! — disse, puxando-o com delicadeza. — Deixe os adultos com as conversas chatas.
Gael, distraído pela promessa de açúcar, soltou-se sem protestar.
E, enquanto ele se afastava, Rycon e César permaneceram imóveis, acompanhando-o com o olhar. Aquele pequeno deslize tinha aberto uma fresta de mistério que nenhum dos dois poderia ignorar.
Para César e Rycon as palavras de Gael continuavam ecoando como sinos dentro da cabeça. O menino já havia desaparecido para o lado dos doces com Mira, mas o peso do que dissera permanecia.
César ergueu a taça de vinho, levando-a aos lábios devagar, os olhos fixos no filho.
— Você ouviu bem, não ouviu? — disse em voz baixa, quase um sussurro entre eles. César podia ver nos olhos de Gael que nem tudo estava sendo dito, e a forma que cara tinha reagido ao ouvir as palavras do filho apenas reforçava aquilo.
Rycon franziu o cenho, ainda digerindo o que acontecera. Ele sabia que Cara escondia algo desde o dia em que tivera um desmaio na empresa, e o que o menino tinha dito apenas reforçava a ideia que ela escondia algo.
— Ouvi. — respondeu secamente. — E não gostei.
— Não gostou porque a criança lhe enfrentou… ou porque citou o pai dele? — César retrucou, arqueando uma sobrancelha com astúcia.
Rycon desviou o olhar, irritado.
— Ele é só um garoto. Pode ter repetido algo que ouviu em casa. Crianças falam demais sem entender o que dizem. Mas sei que tem mais nessa história.
César soltou um riso curto, cético.
— Pode ser. Mas, ainda assim… foi espontâneo. Saiu de dentro. Não era ensaio. — Ele pousou a taça sobre a mesa de canto, inclinando-se para mais perto. — Você não achou estranho?
Rycon respirou fundo, desconfortável.
— Achei. — admitiu, finalmente. — Aquele olhar… como se quisesse me medir. Eu já enfrentei homens em negociações que não tiveram a coragem que aquele menino teve.
César assentiu, satisfeito com a sinceridade do filho.
— Pois é. — murmurou. — E essa coragem não vem do nada. Vem de criação. Vem de sangue.
Rycon girou o copo de uísque entre os dedos, o líquido âmbar refletindo a luz do salão.
— Está sugerindo o quê, exatamente, pai?
César sorriu, mas não respondeu de imediato. Apenas colocou a mão no ombro do filho e apertou com firmeza.
— Estou sugerindo que, talvez, a história daquela mulher e do menino não seja tão simples quanto você pensa.
Os olhos de Rycon se estreitaram. Dentro dele, algo começava a se mover — uma mistura de curiosidade, desconfiança e um estranho desejo de compreender Cara de uma vez por todas. Ele já estava investigando mais sobre ela, e agora com aquelas palavras do menino seu desejo por respostas apenas aumentava.
Mas antes que pudesse insistir na pergunta, os convidados chamaram por César, interrompendo a conversa.
César se ergueu com elegância, deixando Rycon sozinho com os seus pensamentos.
Rycon observava a forma que Cara se movia pelo salão acompanhada da sua mãe, ao que parecia Mira tinha se afeiçoado rápido por Cara, o que deixava Rycon feliz. Sua mãe podia ter uma personalidade difícil, mas quando gostava de alguém aquele sentimento era cem por sento verdadeiro.