Voz de Criança

1022 Words
Enquanto os convidados retomavam as suas conversas, um olhar fixo pairava sobre Rycon. Gael, firme e inabalável, encarava o CEO como quem enfrenta um inimigo em campo de batalha. O contraste entre o menino, pequeno e elegante em seu smoking, e o homem corpulento e imponente, arrancaria sorrisos de qualquer observador atento. Gael, no entanto, não sorriu. Ele tinha ouvido a discussão entre o homem, a sua frente e a sua mãe, e não havia gostado nada daquilo. — Por que o senhor foi grosseiro com a minha mãe? — perguntou, a voz clara e direta, sem qualquer hesitação. Rycon piscou, surpreso, como se a criança tivesse acabado de lhe atirar uma pedra invisível. Ele nem ao menos tinha reparado que o menino estava li, os seus olhos estavam apenas em Cara. — Isso é… coisa de adulto. — respondeu, tentando parecer paciente. — Você não pode se meter no meio. Mas Gael não recuou. Pelo contrário, ergueu o queixo com determinação. Ele não se importava com quem a pessoa a sua frente era, tudo o que a sua cabecinha de criança entendia era que ele tinha sido grosseiro com a sua mãe e ele não a queria ver triste. — Eu posso sim. O senhor foi m*l-educado. E homens não podem ser grosseiros com mulheres. O silêncio se instalou por alguns instantes, até ser quebrado por uma gargalhada profunda e sincera de César. Ele não acreditava que seu filho estava recebendo uma bronca de um menino de seis anos de idade. — Escutou isso, Rycon? — disse, limpando discretamente uma lágrima do canto do olho. — Até um menino sabe mais sobre como tratar uma mulher do que você, que já é adulto! Rycon lançou um olhar fulminante ao pai, mas não respondeu. Estava mais impressionado com a coragem daquele garoto do que queria admitir. Ele podia ver a forma que o menino o encarava, como se ele fosse uma ameaça a sua querida mãe. Alheio às trocas de olhares, Gael continuou com naturalidade, como quem apenas repetia lições de casa: — A mamãe sempre me ensinou a ser bom com as mulheres. — Gael se orgulhava da mãe que tinha e gostava de ouvir os seus conselhos. E, sem perceber o peso do que dizia, acrescentou: — Eu nunca vou ser r**m como o meu pai foi. — Diz ele com um olhar sério, como quem os desafiava a questionar o que tinha dito. As palavras pairaram no ar como uma pedra lançada em um lago silencioso. O rosto de Cara empalideceu, mas antes que pudesse intervir, Rycon e César trocaram um olhar cúmplice, carregado de perguntas não ditas. O menino tinha falado com uma inocência tão grande que ninguém ousou repreendê-lo. Antes que qualquer um pudesse abrir a boca, Mira surgiu como um raio, sorridente e ágil, segurando Gael pela mão. — Vamos, querido, você precisa experimentar os doces antes que se acabem! — disse, puxando-o com delicadeza. — Deixe os adultos com as conversas chatas. Gael, distraído pela promessa de açúcar, soltou-se sem protestar. E, enquanto ele se afastava, Rycon e César permaneceram imóveis, acompanhando-o com o olhar. Aquele pequeno deslize tinha aberto uma fresta de mistério que nenhum dos dois poderia ignorar. Para César e Rycon as palavras de Gael continuavam ecoando como sinos dentro da cabeça. O menino já havia desaparecido para o lado dos doces com Mira, mas o peso do que dissera permanecia. César ergueu a taça de vinho, levando-a aos lábios devagar, os olhos fixos no filho. — Você ouviu bem, não ouviu? — disse em voz baixa, quase um sussurro entre eles. César podia ver nos olhos de Gael que nem tudo estava sendo dito, e a forma que cara tinha reagido ao ouvir as palavras do filho apenas reforçava aquilo. Rycon franziu o cenho, ainda digerindo o que acontecera. Ele sabia que Cara escondia algo desde o dia em que tivera um desmaio na empresa, e o que o menino tinha dito apenas reforçava a ideia que ela escondia algo. — Ouvi. — respondeu secamente. — E não gostei. — Não gostou porque a criança lhe enfrentou… ou porque citou o pai dele? — César retrucou, arqueando uma sobrancelha com astúcia. Rycon desviou o olhar, irritado. — Ele é só um garoto. Pode ter repetido algo que ouviu em casa. Crianças falam demais sem entender o que dizem. Mas sei que tem mais nessa história. César soltou um riso curto, cético. — Pode ser. Mas, ainda assim… foi espontâneo. Saiu de dentro. Não era ensaio. — Ele pousou a taça sobre a mesa de canto, inclinando-se para mais perto. — Você não achou estranho? Rycon respirou fundo, desconfortável. — Achei. — admitiu, finalmente. — Aquele olhar… como se quisesse me medir. Eu já enfrentei homens em negociações que não tiveram a coragem que aquele menino teve. César assentiu, satisfeito com a sinceridade do filho. — Pois é. — murmurou. — E essa coragem não vem do nada. Vem de criação. Vem de sangue. Rycon girou o copo de uísque entre os dedos, o líquido âmbar refletindo a luz do salão. — Está sugerindo o quê, exatamente, pai? César sorriu, mas não respondeu de imediato. Apenas colocou a mão no ombro do filho e apertou com firmeza. — Estou sugerindo que, talvez, a história daquela mulher e do menino não seja tão simples quanto você pensa. Os olhos de Rycon se estreitaram. Dentro dele, algo começava a se mover — uma mistura de curiosidade, desconfiança e um estranho desejo de compreender Cara de uma vez por todas. Ele já estava investigando mais sobre ela, e agora com aquelas palavras do menino seu desejo por respostas apenas aumentava. Mas antes que pudesse insistir na pergunta, os convidados chamaram por César, interrompendo a conversa. César se ergueu com elegância, deixando Rycon sozinho com os seus pensamentos. Rycon observava a forma que Cara se movia pelo salão acompanhada da sua mãe, ao que parecia Mira tinha se afeiçoado rápido por Cara, o que deixava Rycon feliz. Sua mãe podia ter uma personalidade difícil, mas quando gostava de alguém aquele sentimento era cem por sento verdadeiro.
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