Jogo de provocações

1057 Words
Cara mantinha-se discretamente encostada a uma das colunas do salão, os olhos atentos a cada movimento. As mulheres riam e conversavam animadamente à mesa, mas ela permanecia afastada, a observar. O seu olhar, no entanto, desviava-se sempre para Gael, que comia sozinho num canto mais reservado. Aquele não era um ambiente que ela estava acostumada a frequentar e apesar de todos a ter tratado com respeito e cordialidade ela se sentia fora da sua realidade, mas seu filho estava gostando muito e até mesmo havia dado uma pequena volta pela casa com César. Estava tão concentrada que quase não notou a aproximação de um homem de postura tranquila e sorriso confiante. Ele caminha até ela com tranquilidade, um pequeno sorriso nos seus lábios. — Parece um peixe fora de água aqui dentro — disse ele, a voz baixa e serena. Cara ergueu o olhar para ele e sorriu de leve, aceitando a provocação. Ela realmente parecia um peixe fora dágua naquele lugar. — Tem razão… Não estou muito habituada a este tipo de ambiente. — Luka Valdez — apresentou-se, estendendo a mão. — Sou investidor do grupo Vasquez. Ela apertou-lhe a mão com elegância e respondeu num tom educado, ainda que com certo distanciamento. — Cara. A conversa seguiu amena. Luka mostrava-se cortês, com aquele tipo de charme que parecia natural e estudado ao mesmo tempo. Cara, surpreendentemente, relaxava; o sorriso que lhe oferecia era genuíno, algo raro para quem a conhecia bem. Num canto mais sombrio do salão, Rycon observava. O olhar dele era uma lâmina prestes a cortar. Aquilo incomodava-o mais do que queria admitir: ver Cara sorrir com leveza, sem defesas, diante de outro homem. Com ele, ela erguia muros; com Luka, parecia abrir as portas de casa. — Posso ver a intenção nos seus olhos filho, é melhor não fazer isso. — Diz César se aproximando de Rycon. — Não sei do que esta falando. — responde ele tomando o resto de sua bebida em um único gole. — Acha mesmo que pode me enganar garoto, sou seu pai, conheço você melhor do que eu mesmo. — Responde César. — Só vou dar um oi. — Diz ele se afastando. Sem conseguir conter o impulso, Rycon avançou até eles. Os passos firmes ecoaram no chão, anunciando a tempestade que se aproximava. — Tenha cuidado, Valdez — disse Rycon, a voz carregada de veneno. — Cara tem uma queda pelas carteiras dos homens. A expressão de Cara mudou instantaneamente. O sangue subiu-lhe ao rosto, e a ira brilhou nos olhos. Ela não acreditava que Rycon tinha dito aquilo a um convidado, ainda mais sobre ela, algo que não era verdade. — Está irritado porque teve de gastar um pouco comigo. Apesar de nadar em dinheiro, Rycon é mais pão-duro que mendigo em esquina. Os olhos de Rycon se escureceram no mesmo instantes com as palavras dela, se raiva matasse Cara haveria caído dura com a forma que Rycon a olhava. Luka não conteve uma gargalhada, erguendo o copo em sinal de aprovação. — Gosto do seu senso de humor, Cara. — Responde ele ainda rindo da provocação entre eles. Rycon, porém, não achou graça. Os olhos dele cravaram-se nela, desafiadores, como se cada palavra tivesse sido uma afronta pessoal. Cara, por sua vez, sustentou o olhar com igual intensidade. Havia um fogo silencioso entre os dois, uma mistura de raiva, desejo e ressentimento, que Luka apenas observava com interesse — como quem assiste a um jogo perigoso onde cada movimento pode incendiar tudo. Rycon inclinou-se ligeiramente para a frente, o olhar cravado nela como uma ameaça. — Essa sua língua ainda vai te colocar em problemas. — Diz Rycon de forma ríspida. — Como se conheceram senhorita Cara? — Pergunta Luka. — Sou a assistente pessoal do César. — Responde ela sorrindo para ele. — Deve ser muito boa no que faz, César é um homem bastante exigente até onde sei. — Nada, ela mau da conta do serviço dela. — Diz Rycon com desdém. — Eu estou aprendendo Luka. — Diz Cara ignorando as palavras acidas de Rycon. — O senhor César me deu essa oportunidade e estou me dedicando ao máximo. — Acho que o seu máximo não serve para a função que ocupa. — Diz Rycon antes que Luka pudesse responder. Luka olhava de um para o outro sem entender o que estava acontecendo ali, ele podia ver os olhos de Rycon se escurecer ao olhar para a mulher a sua frente, e aquilo era novo para ele, já que o CEO tendia a ignorar o sexo feminino nos encontros entre sócios. — Se for assim então acho que outra pessoa deveria ocupar o seu lugar. — Responde Cara fazendo Rycon ferver. — Você... — Ao que parece você já percebeu como esses dois se comportam Luka. — Diz César se aproximando e cumprimentando o homem. — Isso não é nada de mais, — responde ele apertando a mão de César. — obrigada pelo convite, você tem uma casa linda. — Obrigada, Rycon me contou que você está interessado em modificação genética? — Pergunta César. — Sim, tenho algumas fazendas e tenho investido nisso. — Luka amava a área da genética e gostava de investir, quando se tratava de melhoramento genético para animais de corte. — Ótimo, espero que goste da visita de amanhã na fazenda. — Responde César sorrindo,então ele percebe um puxão em sua roupa e ao olhar para baixo encontra os olhos de Gael. — Eu posso conhecer a sua fazenda senhor? — Pergunta com os olhos brilhando de animação. — Gael! Isso é conversa de adulto não pode entrar no meio. — Diz Cara o puxando para si. — Me desculpem por isso. — Não se desculpe, e acho uma boa ideia Gael conhecer a fazenda, quem sabe um dia ele não trabalha com bovinos também. — Responde César de forma tranquila. — Olha César eu não acho uma... — Não seja chata, não é apenas você que pode se divertir,ele também precisa de um descanso. — Diz Rycon a interrompendo. — Mas... — Está decidido Cara, amanhã mando o motorista te buscar, é bom que adiantamos alguns documentos. — Diz César. Cara olhava de um para o outro sem acreditar naquilo, mas foram os olhos animados de Gael que a tinha convencido a aceitar o convite.
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