Trauma

985 Words
O sol já se punha no horizonte quando Cara saiu pela porta do trabalho. Os tons em laranja e vermelho enchiam o céu de uma forma maravilhosa. Cara parou por um momento, apenas observando o quão belo aquilo era. O sorriso no rosto denunciava o quanto aquele dia tinha sido especial. Havia aprendido mais do que esperava, cada nova tarefa revelando segredos e habilidades que nem imaginava possuir. Enquanto caminhava pela calçada, empurrando a sua bicicleta, as lembranças do dia se misturavam em sua mente — até que uma imagem específica a fez parar por um instante. O olhar de Rycon. Não era algo que pudesse definir com clareza, mas aquele instante estava cravado em sua memória como se tivesse acontecido segundos atrás. Um frio subiu-lhe pela espinha, arrepiando cada centímetro de pele. Não havia lógica para aquilo: nunca tinham se falado, sequer trocado uma palavra. E, ainda assim, havia algo naquele olhar... algo que a deixava inquieta, quase vulnerável. Sacudiu a cabeça, tentando afastar a sensação, e apressou o passo até chegar em casa. Não ganharia nada pensando no filho de César e, se dependesse dela, manteria a maior distância possível do homem m*l-humorado daquele dia. Assim que abriu a porta, um som leve e familiar a recebeu: risadinhas misturadas ao arrastar de peças de madeira. Na sala, Gael e Lúcia estavam sentados no tapete, concentrados em montar um enorme quebra-cabeça. O menino ria sempre que a amiga encaixava uma peça no lugar errado de propósito, apenas para vê-lo protestar. Sobre a mesa, várias embalagens de comida ainda abertas denunciavam o cardápio improvisado daquela noite. Uma carranca se formou no rosto de Cara; ela odiava quando Lúcia gastava dinheiro à toa. — O que é isso tudo? — perguntou Cara, com a sobrancelha arqueada. Lúcia ergueu o olhar e deu de ombros, como se fosse óbvio. — Resolvi te dar uma folga da cozinha. Imaginei que, depois de um dia inteiro de trabalho, você estivesse cansada. Cara ficou em silêncio por um momento, sentindo um calor diferente no peito. Observou Gael, tão feliz e despreocupado, e depois olhou para Lúcia, sempre disposta a cuidar deles como se fosse parte da família. — Sabe que não quero que gaste dinheiro sem necessidade, eu posso cozinhar. — disse ela, sentando-se ao lado deles. — Eu sei, mas hoje pensei que poderia ser bom para você. — disse Lúcia, servindo-lhe um copo de suco. — E não faça essa cara, isso não foi nada. — Tudo bem, mas não faça mais isso. A despensa está cheia, eu posso cozinhar para nós. — disse ela, levantando-se. — Tudo bem, minha senhora. — disse Lúcia, fazendo-a rir. — Como foi no trabalho, mamãe? — perguntou Gael, com os olhos brilhando. — Foi ótimo, querido, não sabe o quanto aprendi hoje. — disse ela, animada. — Isso é bom. Espero que estejam te tratando bem lá. — disse Lúcia. — Estão. A menina que está me treinando tem muita paciência e não se importa com as minhas perguntas incessantes. Gostei muito dela. — E Cara realmente tinha gostado. — E o chefe? Como ele é? — Cara podia ver a curiosidade brilhando nos olhos de Lúcia. — Bem, o senhor César é muito gentil e simpático. Já o filho dele, ao que parece, é mais complicado. — respondeu ela, passando a mão pelos cabelos. — Não brinca! — disse Lúcia, aproximando-se mais dela. — O que dizem sobre ele? Vai, me conta. Cara riu da curiosidade da amiga. — Dizem que ele é m*l-humorado e sempre demite alguém quando está zangado. — Pensando no olhar que Rycon tinha lhe dado, Cara imaginava por que as pessoas não paravam no emprego. Para sua sorte, ela era funcionária de César, que era o oposto do filho. — Jura! Aposto que deve ser apenas conversa das pessoas. — Acho que não. Hoje eu pude ouvir os gritos dele da sala, é assustador. — disse ela, passando a mão pelos braços. — Sai de lá, mamãe, não quero que se machuque de novo. — disse Gael, segurando a mão dela com força. — Querido... — Por favor, mamãe, não quero ficar sem você. — disse ele, com lágrimas descendo pelo rosto. Cara olhou para Lúcia, chocada com o que via, mas então se lembrou de que, na última agressão que havia sofrido, Gael tinha presenciado tudo. Ela só não imaginava que o filho pudesse ter desenvolvido um trauma por causa daquilo. — Ei, não chore. A mamãe não trabalha para ele, mas sim para um senhor gentil. Ele não pode fazer nada com a mamãe, querido. — disse Cara, embalando-o nos braços. — Promete? — perguntou ele, esfregando o rosto na roupa dela. — Prometo, meu amor. Você jamais ficará sem mim. Depois de algum tempo, Gael adormeceu nos braços de Cara. Ela o pegou com cuidado e o colocou na cama. Quando retornou à sala, Lúcia tinha um olhar de desculpa no rosto. — Eu lamento por isso. Não teria perguntado se soubesse que ele ficaria desse jeito. — Não é culpa sua, Lúcia. Nem eu percebi que ele se sentia assim. — disse ela, suspirando, cansada. — Nunca tinha notado isso nele. Aquele canalha destruiu as nossas vidas. — Ei, querida, não fique assim. — disse Lúcia, abraçando-a. — Ele não pode mais tocar em vocês, e o Gael vai se recuperar. — Eu espero que esteja certa, Lúcia. Não quero ver meu filho com medo por causa do que aconteceu antes. — Ele vai superar isso, Cara. Gael tem eu e você ao lado dele. Tudo vai ficar bem. — disse ela. — É o que digo a mim mesma todos os dias. — respondeu Cara, levantando-se. Cara entrou no banheiro e permitiu que a água quente lavasse o seu corpo e, junto com a sujeira, levasse também as lágrimas que desciam de forma incessante — mesmo que ela não quisesse.
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