Duas semanas se passaram desde que Cara começara a trabalhar na empresa de César. Ela já se sentia mais confiante, acostumada com o ritmo acelerado e com as exigências do novo cargo. Naquela manhã, César a chamou à sua sala.
— Hoje vamos almoçar com um possível cliente — disse, entregando-lhe um pequeno bloco de anotações. — O encontro vai ser no restaurante La Hacienda. E você vai dirigir.
Cara sorriu, animada. Dirigir para César era quase um sinal de confiança, ainda mais por ele não estar totalmente recuperado do seu braço. Pouco depois, já estavam a caminho. A reunião transcorreu sem imprevistos: conversas cordiais, risos pontuais e a promessa de um contrato que parecia favorável para ambos.
Ao retornar à empresa, o clima no carro era leve. César parecia satisfeito, e Cara, orgulhosa de ter ajudado. Assim que ela estacionou a caminhonete na vaga reservada a ele, desligou o motor e abriu a porta.
Foi então que ouviu um grito.
— César!
A voz vinha carregada de fúria, e Cara ergueu os olhos para ver uma mulher se aproximando a passos rápidos. O semblante de César mudou instantaneamente; ele afundou no banco, como se quisesse desaparecer.
César era um misto de sentimentos, o seu coração disparava ao ver os olhos da mulher a sua frente, a saudade era tanto que ele nem via imaginado que reagiria daquela forma, mas ao ouvir o seu tom sabia que ela não estava feliz com ele.
— Quem é? — murmurou Cara, surpresa.
— Mira… — respondeu ele, quase sem voz.
Cara entendeu que estava diante de um problema — um problema sério. Quando Mira tentou se aproximar de César, Cara, instintivamente, se colocou à frente dela. Ela não conhecia aquela mulher e o seu único objetivo naquele momento era impedir que ela fizesse qualquer coisa com seu chefe.
— Seja lá quais forem as suas intenções, você não vai tocar nele. — Diz Cara se recusando a sair do caminho de Mira.
Mira arqueou as sobrancelhas, incrédula. Ao olhar novamente para César os seus olhos se escurecem ainda mais, ao que parecia ele ainda não havia aprendido a sua lição direito.
— E quem você pensa que é para me impedir?
— Eu trabalho com ele — respondeu Cara, firme. — E não vou deixar você criar uma cena.
Ao ouvir Cara chamar César pelo nome, Mira quase explodiu.
— Ah, então vocês já estão nesse nível de i********e? — disse, com ironia e raiva.
— Não é da sua conta — retrucou Cara, sem recuar.
O estacionamento ficou em silêncio por um instante, apenas o som dos passos apressados de alguns funcionários que passavam ao longe. O olhar de Mira queimava, e o de Cara era uma mistura de proteção e desafio. A tensão estava armada, e qualquer palavra poderia acender o estopim.
— Chega! — A voz de César ecoou pelo estacionamento, firme, mas com um traço de cansaço.
Cara e Mira se voltaram para ele ao mesmo tempo. Ele saiu lentamente da caminhonete, ajeitando o paletó como se precisasse ganhar alguns segundos para escolher as palavras.
— Mira, isso não é lugar para discutir — disse, tentando manter o tom calmo.
— Não é lugar para discutir? — ela rebateu, indignada. — Então onde, César? Você bloqueia os meus cartões e não me dá nenhuma satisfação. Você quer morrer!
César encolhe diante da fúria de Mira, o seu corpo se arrepiando por inteiro diante do tom de voz dela, como ele tinha sentido falta daquilo.
Cara franziu a testa, confusa.
— Espera… vocês dois se conhecem?
César suspirou profundamente, passando a mão pelos cabelos.
— Cara… — começou, evitando encará-la diretamente. — Mira… é minha esposa.
O mundo pareceu parar por um instante. Cara piscou, como se não tivesse entendido direito. Ela olhava de César para a mulher enfurecida a sua frente sem acreditar no que estava ouvindo.
— Sua… o quê?
— Esposa — repetiu ele, mais baixo desta vez, como se a palavra pesasse na boca.
Mira cruzou os braços, com um meio sorriso de triunfo.
— Exatamente. Então me diga, “assistente”… ainda vai ficar na minha frente me impedindo de falar com o meu próprio marido?
O peito de Cara se apertou. Parte dela queria dar meia-volta e simplesmente entrar no prédio, mas havia algo na expressão de César — uma mistura de vergonha e exaustão — que a fez ficar.
— Eu não sabia… — disse Cara, recuando um passo, mas ainda olhando para Mira com firmeza. — Mas mesmo assim, você não vai gritar com ele aqui, na frente de todo mundo.
César fechou os olhos por um segundo.
— Não se preocupe Cara, ela sempre faz isso. — Diz ele se aproximando de Mira lentamente. — Senti tanto a sua falta meu amor.
Ao ouvir as palavras de César Mira relaxa se permitindo ser abraçada por ele. Seu marido era a melhor coisa que ela tinha na vida, e por mais que brigassem Mira o amava profundamente.
— Eu também senti a sua falta, César. — Respondeu ela segurando o rosto dele entre as mãos e lhe dando um beijo apaixonado.
Um largo sorriso se abre no rosto de César com as palavras dela.
— Vamos para casa querida, tenho alguns presentes para você. — Diz ele visivelmente animado.
— Você planejou isso, não foi? — Pergunta ela cruzando os braços e o encarando.
— Era a única forma de fazer você voltar, já não aguentava mais de saudades de você querida. — diz ele com olhos brilhantes.
Cara não acreditava no que os seus olhos estavam vendo, seu chefe tinha sido totalmente dominado pela mulher assustadora a sua frente.
— Eu vou, mas antes quero saber quem é ela. — Diz apontando para Cara mais atrás.
— Ela é minha assistente pessoal, contratei uma depois do acidente na fazenda. — Diz ele.
— Que acidente César? — Pergunta Mira dano um passo em sua direção, os olhos sombrios novamente.
— Não foi nada, apenas desloquei o ombro, já estou bem melhor. Esse fui um dos motivos para contratar a Cara, ela dirige para mim.
Mira lança um olhar de canto para Cara e se volta novamente para César.
— Vamos agora mesmo para o hospital, quero ouvir do médico que esta bem, e vamos conversar depois sobre você não me contar o que ouve. — Diz ela já o arrastando para o carro novamente. Mira o coloca no carro e põem o seu cinto de segurança, então dá a volta e abre a porta do motorista, mas antes de entrar olha fixamente para Cara.
— Quando eu resolver o que preciso teremos uma conversinha mocinha. — Diz ela fuzilando Cara com o olhar.
— Ficarei aguardando senhora. — Diz Cara sentindo o seu corpo se arrepiar. Ela estava lascada.