Cara chegou em casa com a cabeça latejando. Cada passo ecoava no silêncio do apartamento, e cada lembrança do embate com a esposa de César voltava como uma fisgada no estômago. Ela alternava entre a vergonha do que tinha feito e a raiva de ter perdido o controle.
A única coisa que a consolava era saber que não conhecia a mulher elegante, e que por isso tinha sido grosseira com ela, mas aquilo não a livraria da bronca que sabia que Mira lhe daria no outro dia por seu comportamento inadequado.
Jogou a bolsa sobre o sofá e afundou na poltrona, massageando as têmporas. As palavras ditas, o olhar gélido, a tensão no ar... tudo se repetia na sua mente como um filme irritante que ela não conseguia desligar.
Quando Lúcia entrou pela porta, o aroma de café e o barulho das chaves quebraram o peso da atmosfera.
— Mas que cara é essa? — perguntou, deixando a bolsa na mesa.
Cara suspirou fundo.
— Eu... tive um desentendimento com a mulher do chefe.
Lúcia arqueou uma sobrancelha, interessada.
— Desentendimento... ou você jogou gasolina e acendeu o fósforo?
Cara deu um meio sorriso cansado e contou tudo, detalhe por detalhe. No fim, Lúcia soltou uma gargalhada.
— Ai, eu queria ter visto a sua cara! — disse, secando as lágrimas de tanto rir. — Você fez a coisa certa. Defender o chefe é defender o seu trabalho. Vai ficar tudo bem.
Mas Cara não estava tão convencida. Ela via aquele emprego como a sua oportunidade de mudar de vida, e estava disposta até mesmo a rastejar nos pés de Mira por seu emprego, a sua vida e de seu filho dependia daquilo.
Na manhã seguinte, o café ainda parecia amargo quando Cara atravessou a portaria da empresa. Ajeitou a blusa, prendeu o cabelo e respirou fundo. Assim que entrou no saguão, deu de cara com ele.
Rycon.
O CEO.
Mau humor estampado no rosto como sempre.
— Você está atrasada — disse, sem nem um bom dia. Ele nem ao menos havia olhado direito para seu rosto antes de dizer aquilo.
Cara olhou o relógio. Um minuto. Um mísero minuto.
— Eu já estava no prédio quando deu a minha hora — respondeu, tentando manter a voz calma. Sabia que não devia entrar em uma discussão com o CEO da empresa, mas ao que parecia o destino estava brincando com ela colocando justo ele em seu caminho.
Ele ergueu o queixo, olhar frio.
— Incompetente. Você deveria estar na sua mesa no horário certo.
O choque fez o sangue dela ferver. Cara o olha com ódio brilhando em seus olhos, o homem acabara e ter a ousadia de a ofende sem nenhum motivo justo pela manhã.
— Isso é injusto. — Tenta argumentar
— Quer justiça? Procure um advogado. Eu não sou um para ouvir a sua choradeira.
O coração de Cara acelerou, e a raiva subiu como um incêndio. A sua boca caiu com as palavras que deixaram os lábios de Rycon.
— Você é um playboy sem coração que trata todo mundo ao seu redor m*l.
Assim que as palavras saíram, ela percebeu o erro. Os olhos de Rycon se tornaram sombrios, perigosos. Cara lava a mão a boca mais já era tarde, ela podia ver nos olhos dele que o estrago já tinha sido feito.
— Eu não tolero esse tipo de comportamento na minha empresa. Você está demitida.
O mundo pareceu parar. O ar ficou pesado, ela não estava acreditando no que estava ouvindo. Mas Cara, em vez de recuar, ergueu o queixo.
— O seu pai me contratou. Só ele pode me demitir. — Disse em tom desafiador com o maxilar serrado de raiva. Rycon podia estar em um mau dia, mas ela também estava e o responderia à altura.
Sem esperar resposta, virou-se e caminhou para sua mesa. Sentia o olhar dele queimando as suas costas, como uma faca prestes a ser lançada.
No corredor, César e Mira, que haviam assistido à cena inteira, trocaram um olhar cúmplice.
— Parece que o garoto encontrou alguém à altura — murmurou César, com um meio sorriso.
Rycon ficou parado no meio do corredor, observando Cara se afastar como se nada tivesse acontecido. O som firme dos saltos dela ecoava, e cada passo parecia uma afronta silenciosa.
Os músculos em sua mandíbula se contraíam. Ele não estava acostumado a ser desafiado — ainda menos por alguém que trabalhava sob o seu comando. Normalmente, bastava um olhar para fazer qualquer um recuar. Mas Cara... Cara havia cuspido fogo na cara dele e ainda virado as costas.
— Atrevida — murmurou, mais para si do que para os outros.
Mira, encostada à parede ao lado de César, cruzou os braços, divertindo-se com a cena.
— Isso vai dar trabalho.
— Ou diversão. — respondeu César, um sorriso malicioso surgindo no canto da boca. — Ele precisa de alguém que o tire do pedestal de vez em quando.
Rycon se virou lentamente para o pai.
— Você está achando isso engraçado?
— Muito. — disse César, sem sequer disfarçar. — E mais... eu gosto dela.
Rycon bufou, passou a mão pelos cabelos e seguiu para o elevador. Apertou o botão com mais força do que o necessário, como se isso fosse aliviar a tensão que borbulhava dentro dele.
Cara tentava se concentrar no computador, mas as mãos ainda tremiam. As palavras que havia dito ecoavam na sua cabeça. Playboy sem coração... O que tinha dado nela?
Ivy apareceu na porta, segurando duas canecas de café.
— Fiquei sabendo que você brigou com o chefe supremo. — disse, entregando uma das canecas. — E, pelo que ouvi, não foi qualquer briga.
Cara suspirou.
— Acho que acabei de assinar a minha sentença de morte profissional.
Ivy sorriu de canto.
— Ou acabou de chamar a atenção dele de um jeito que ninguém mais conseguiu.
Cara não queria pensar naquilo, tudo o que passa em sua mente era a forma que ele havia olhado para ela, uma promessa silenciosa de vingança. Apenas pensar naquilo fez Cara jogar a cabeça para trás e gemer, a guerra havia sido declarada e infelizmente para ela o adversário era justo aquele que assinava seu pagamento.