Golpe Baixo

999 Words
Sozinho, Rycon serviu um copo de uísque e se jogou no sofá. Ainda via os olhos dela — não submissos, não amedrontados... mas firmes. Ele queria poder apertar aquele lindo pescoço de Cara até ficar satisfeito. Ela tinha ousado desafiá-lo de forma aberta diante da empresa, e aquilo não poderia ficar como estava. Ele detestava admitir, mas algo naquela ousadia acendia uma faísca perigosa. Cara tinha uma chama interna que nunca havia aparecido nos dias em que ela trabalhava na empresa. Mas, quando ele disse que ela estava demitida, a mulher dócil e tranquila dos outros dias havia se transformado completamente diante dos seus olhos. Tomou um gole, sentindo o líquido queimar na garganta. Mas aquela queimação não era nada perto do seu ego ferido com as palavras de Cara mais cedo. — Isso não vai ficar assim — murmurou. Mas, no fundo, nem ele sabia se falava de punição... ou de outra coisa. Com toda certeza, ele acertaria contas com Cara, e isso não iria demorar. A porta do escritório de Rycon se abriu e César entrou com um largo sorriso no rosto. Rycon desviou o olhar do pai ao perceber que ele devia ter visto a pequena discussão de mais cedo. — Quero aquela mulher fora do meu prédio — disse ele, sem olhar para o pai, os seus olhos fixos no líquido âmbar do copo. — Por quê? — perguntou César, ignorando o que o filho havia dito. — Você ainda pergunta, papai? — disse ele, voltando-se para César com a sobrancelha arqueada. — Ela foi desrespeitosa e deselegante, mancha a imagem da nossa empresa. — Então o que ela fez não tem nada a ver com o fato de você ter descontado o seu mau humor nela? — perguntou César, olhando fixamente para Rycon. Rycon encarou o pai e desviou o olhar, resmungando. Ele não daria o braço a torcer nem diria as palavras que o pai esperava ouvir. — Pai... — Eu não vou demitir ela, filho. Como ela mesma te disse, é minha funcionária, e você está proibido de mandá-la embora. — Rycon virou-se para o pai com os olhos faiscando de raiva. — Pai, você está contrariando a minha decisão, e isso não será bom para a empresa — tentou argumentar. — Sabe o que não será bom para a empresa, filho? Você continuar descontando o seu mau humor nos outros — respondeu César de forma relaxada. — Devia sair mais, quem sabe distrair-se um pouco. Rycon olhou para o pai sem acreditar no que ele estava dizendo. Era como se o homem tivesse enlouquecido. — Não pode estar falando sério! — disse ele, chateado. — Estou. Quem sabe assim o seu mau humor passe — respondeu César, rindo. — Seu pai tem razão — disse Mira, entrando na sala de Rycon com o rosto sério. Rycon levantou-se da cadeira com um sorriso no rosto, foi até a mãe e a envolveu em um abraço apertado. Ele havia sentido falta dela por perto. — Senti a sua falta, mamãe — disse ele, dando um beijo em sua bochecha. — É bom que tenha sentido mesmo. Não te carreguei nove meses na barriga para receber essa ingratidão — disse ela, com um olhar altivo. — Também senti falta da sua língua afiada — respondeu Rycon, rindo. — Ingrato! Não pode falar assim da sua mãe — disse ela, fazendo drama. — Isso é o que acontece quando duas personalidades iguais se encontram — disse César, aproximando-se dela e envolvendo-a nos braços. — Esse menino puxou a você, querida, até mesmo o mau humor. César se orgulhava de ser um homem tranquilo e com uma personalidade amável. Já Mira era o oposto total: agitada, extravagante e quase sempre de mau humor, assim como o filho. — César! Não pode falar essas coisas — disse ela, corando. — Digo porque é a verdade. — Bem, se já terminaram, podem ir. Tenho muito a fazer por aqui — disse Rycon, voltando à sua mesa. — Seu filho ingrato! Eu fico semanas fora e é assim que ele trata a própria mãe! — disse ela, enquanto se deixava embalar nos braços de César. — Eu te disse que devia ter tido mais filhos, César. Aposto que outro filho não me trataria assim. Rycon olhou para a mãe sem acreditar no drama que ela estava fazendo. Aquela não era a primeira vez que Mira distorcia as palavras do filho para obter vantagem, e mesmo sabendo que era um truque, Rycon sempre cedia. — Me desculpe, mamãe, não quis ser rude com você. Sabe que eu a amo — disse ele, levantando-se e indo até ela. Mas, quando tentou abraçá-la, ela desviou. — Não, você não me ama. Olha como me trata! — disse, encolhendo-se nos braços do marido e chorando. — Conserte isso. Sua mãe ficou fora muito tempo, não merece esse comportamento — disse César, bravo. — Papai! — Agora, Rycon! — disse ele, sem vacilar. Rycon não acreditava naquilo, mas não causaria uma cena com a família. Amava os pais e estava feliz por sua mãe ter retornado para casa. — Me desculpe, mamãe. O que posso fazer para você me perdoar? — perguntou, passando a mão nas costas dela de forma reconfortante. — Está falando isso da boca pra fora apenas — respondeu ela. — Farei qualquer coisa que a deixe feliz novamente — disse ele. — Promete? — perguntou ela. — Sim, qualquer coisa — confirmou ele. — Ótimo! Leve aquela moça para jantar conosco no final de semana — disse ela, virando-se para ele e secando as lágrimas. — Obrigada, querido. Sabia que me amava. Rycon encarou a sua mãe com uma carranca enorme no rosto. Ele havia caído em seus truques como um patinho mais uma vez. Ao olhar para o pai, viu que César apenas acenava para que deixasse para lá. Quando se tratava de Mira, o melhor a fazer era realizar a sua vontade, mesmo que ele não desejasse aquilo.
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