Mira caminhava pelos corredores da empresa com apenas uma coisa na mente: conhecer a pessoa que tinha tirado seu filho do sério. Mira nunca tinha visto alguém responder ao filho e, mais ainda, ferir o seu ego da forma que Cara havia feito. Ela precisava saber mais, conhecer a pessoa que tinha conseguido aquele feito impressionante.
Os saltos de Mira estalavam pelo corredor enquanto ela caminhava em direção à mesa de Cara. O seu olhar altivo atraía a atenção dos que passavam, mas eram inteligentes o bastante para não dar um segundo olhar na joia de César. O vice-presidente podia ser tranquilo, mas, quando se tratava do amor da sua vida, aquilo mudava totalmente.
— Venha comigo. — disse ela, parando apenas alguns segundos ao lado de Cara e entrando na sala de César.
Cara olhou para Ivy com um olhar de súplica.
— Ela é muito amável, vai te entender. — disse Ivy, dando um tapinha nas costas de Cara para incentivá-la.
— Acho que não tenho muita escolha. — respondeu Cara com um suspiro.
Cara puxou uma grande lufada de ar e entrou na sala de César. Observou Mira sentada de forma despreocupada na cadeira do seu chefe. Os olhos castanhos da mulher se fixaram nela, examinando-a de cima a baixo. Cara observava Mira com curiosidade: ela tinha pele clara e cabelos castanhos que iam um pouco abaixo dos ombros; a luz da janela refletia nos fios, dando-lhe um ar impressionante. Dava para ver que Mira era uma mulher de classe, que sabia se portar e, acima de tudo, sabia como controlar uma situação.
— Sente-se. — disse Mira.
Cara correu e se sentou na cadeira à frente de Mira, esperando que ela começasse.
— Confesso que não tive uma boa primeira impressão de você — começou ela, analisando as reações de Cara. — mas lhe devo um agradecimento por ter ajudado César esses dias e, antes, com o carro.
— Não me agradeça, senhora. O César é uma pessoa generosa e gentil, além de ter me dado uma boa oportunidade. Sempre que ele precisar, estarei aqui.
Mira sorriu com a forma como Cara chamava o seu marido.
— Não gosto da forma como o chama, mas vou abrir uma exceção para você. — respondeu ela.
— Ele que pediu, senhora, mas, se não gosta, não o chamarei assim novamente. — disse, abaixando a cabeça.
— Não é isso que quero ver. — disse Mira, levantando-se e dando a volta na mesa. Aproximou-se de Cara e ergueu o seu queixo. — Onde está a mulher que desafiou meu filho no meio de todos nesta empresa?
Cara corou violentamente. Tudo o que ela queria era desaparecer de tanta vergonha ao ouvir aquilo. Mas o que tinha feito não poderia ser mudado, então só lhe restava se conformar.
— Eu lamento, senhora, não quis ser desrespeitosa.
Mira soltou o rosto de Cara e voltou ao seu lugar, sentando-se novamente.
— Então por que fez aquilo? E quero que seja sincera. — Mira queria entender Cara. Ela podia perceber, pelo jeito simples, que não parecia ser daquelas mulheres que corriam atrás do dinheiro dos homens — essas, Mira reconhecia de longe. Mas Cara, para ela, era um pequeno mistério naquele momento.
Cara odiava ter que expor os seus assuntos pessoais, mas não via outra forma de manter o emprego a não ser ser sincera com Mira. Caso contrário, ela poderia convencer César a mandá-la embora e, pela forma como Cara tinha visto o chefe olhar a sua esposa, não tinha dúvidas de que ele a obedeceria.
— Eu não podia perder o emprego, senhora. — disse de cabeça baixa.
— Explique. — pediu Mira.
— Eu tenho um filho que depende de mim. Por alguns motivos pessoais, tive que me mudar de cidade e moro de favor no momento. Só quero poder dar uma vida melhor para ele. Quando o senhor Rycon me mandou embora, tudo o que eu pensava era em não voltar ao que era antes, dependendo dos outros. — Cada palavra era como uma punhalada no peito de Cara; ela se sentia envergonhada e humilhada ao ter que dizer aquelas coisas.
— Você é casada? — perguntou Mira.
— Não, senhora. Somos apenas eu e meu filho. — respondeu.
— Tudo bem, não vou especular sobre a sua vida pessoal. E não se preocupe, vou garantir que você mantenha o seu emprego. — Mira tinha planos para Cara e precisava dela trabalhando na empresa para que tudo desse certo.
— Obrigada, senhora! — disse Cara, erguendo o rosto depressa e pegando uma das mãos de Mira. — Eu não esquecerei a sua boa vontade.
— Apenas continue com o seu bom trabalho, e tudo estará certo. — respondeu Mira.
— Sim, farei o meu melhor. — disse Cara.
— Mas eu tenho um pedido a fazer. — disse Mira, chamando a atenção dela novamente.
— Claro, farei qualquer coisa que precisar. — respondeu rapidamente.
Mira olhou nos olhos de Cara e viu apenas gratidão. A mulher à sua frente estava louca para agradá-la, o que a ajudaria bastante.
— Venha jantar em minha casa no final de semana. Será meu pedido de desculpas a você pelo comportamento do meu filho. — disse com tranquilidade.
Cara travou no lugar. Mira podia ver que ela lutava contra a vontade de aceitar aquele convite.
— É claro, traga seu filho também. — acrescentou, sorrindo.
Cara se sentia em uma armadilha. A mulher à sua frente tinha um largo sorriso no rosto enquanto a olhava. Ela não conseguiria negar aquele pedido, não quando Mira tinha acabado de dizer que garantiria o seu emprego.
— Tudo bem, senhora, se insiste, nós iremos. — disse, com um sorriso sem graça no rosto.
— Ótimo! Vou mandar enviarem roupas para vocês. Meu motorista a pegará no final de semana. — disse Mira, animada com a ideia.
— Não precisa, senhora, eu tenho roupas. — disse depressa.
— Não pode ir com essas, querida. Teremos alguns amigos lá e quero você linda nesse jantar. — respondeu Mira, já se levantando para sair.
— Mas... — disse Cara enquanto Mira abria a porta. — Mas... não precisa.
Mira não a ouviu. Tinha planos para a noite do jantar, e eles dependiam da beleza de Cara para que dessem certo.