Segredos não revelados

1012 Words
A sala estava mergulhada num silêncio que contrastava com o pequeno que estava ali. O tique-taque do relógio na parede era o único som que competia com o arrastar ritmado da caneta de Rycon sobre os papéis. A luz do entardecer entrava pela janela, tingindo o ambiente com tons dourados e alaranjados. No tapete, deitado de bruços, Gael rabiscava com pincéis coloridos um caderno aberto. Murmurava para si mesmo, como se cada traço fosse acompanhado de uma melodia secreta que só ele conhecia. Rycon ergueu os olhos dos documentos por um instante, observando o menino. Havia algo hipnótico na forma inocente com que Gael mergulhava no seu pequeno mundo de cores. Sem perceber, a mente de Rycon começou a divagar — e se fosse sempre assim? Se pudesse ter aquele menino por perto todos os dias? A companhia suave, a presença silenciosa mas tão viva... Uma pontada súbita no peito o fez despertar. Apertou os olhos e balançou a cabeça, repreendendo-se em silêncio: i****a, isso jamais aconteceria. Se forçou a voltar aos papéis. Mas, ao deslizar o olhar por uma das páginas, os olhos se arregalaram. Um erro gritante estava diante dele, um absurdo que jamais poderia ter passado despercebido. Um rugido de frustração escapou-lhe pelos lábios: — Maldição! Rycon odiava quando as pessoas erravam ao trabalhar para ele, tudo ao seu ver tinha que sair perfeito, e naquele momento ele tinha sorte por examinar o documento antes que fosse passado para o cliente. Empurrou a cadeira para trás com violência e se levantou, os sapatos ressoando contra o chão. Apressado, agarrou a pasta com os documentos e saiu da sala, o som seco da porta batendo atrás de si. Ao chegar ao escritório do pai, encontrou Cara de costas, ajeitando uma pilha de arquivos nas estantes. Sem pensar duas vezes, lançou a pasta sobre a mesa com força, fazendo os papéis escorregarem. — Como é possível, Cara?! — a voz de Rycon ecoou, dura como aço. — Como conseguiu ser tão incompetente a ponto de deixar passar algo assim? Cara se virou, surpresa. O olhar dela pousou no documento aberto e, ao lê-lo rapidamente, suspirou. O erro era grave, de fato, mas a violência do tom dele a feriu mais do que as palavras. Ela se lembrava do dia que tinha redigido aquele documento, assim como se lembrava do que tinha acontecido e roubado a sua concentração. — Eu... eu vou refazer isso agora mesmo — respondeu, num fio de voz, tentando não demonstrar o incômodo. Cara não queria discutir com Rycon naquele dia, ela só queria um pouco de paz nos últimos minutos de trabalho antes de ir para casa. Rycon, no entanto, elevou o tom. Ele não entendia o que Cara tinha que o desafiava daquela forma, mas naquele momento a sua mente via as palavras dela apenas como um desafio. — Refazer?! Isto não devia nem ter acontecido! Não tem noção das consequências? O coração de Cara se apertou. Estava acostumada às exigências, mas o peso da voz dele parecia esmagá-la naquele momento. Antes que pudesse responder, um som cortou o ar como uma flecha: — PÁRA! Gael surgiu na porta, os olhos arregalados, o peito arfando. Correu até a mãe e agarrou a sua cintura com força, como se tentasse protegê-la com o próprio corpo. — Não vou deixar que faça m*l à minha mãe! — gritou, a voz tremendo, mas firme. Rycon congelou. O impacto daquelas palavras o atingiu como uma lâmina invisível. Deu um passo atrás, incapaz de acreditar. Ele jamais tocaria em Cara, podia ter os seus momentos de descontrole, mas jamais a machucaria. — Eu nunca faria isso — murmurou, a confusão estampada no rosto. Cara se abaixou, tentando segurar os ombros do filho. — Gael, amor, você entendeu m*l. Ele não ia... — Não! — interrompeu o menino, com os olhos marejados de lágrimas. — Eu vou te proteger! Ninguém vai te machucar, mãe. Ninguém! Rycon, num impulso, tentou se aproximar, estendendo a mão numa tentativa de acalmar a situação. Mas esse gesto apenas inflamou ainda mais o menino. — Se afasta! — Gael empurrou Rycon com todas as forças pequenas que tinha, recuando logo em seguida para junto de Cara. — Eu vou cuidar de você, mãe. Você vai ficar bem... Eu prometo! O choro de Cara, até então contido, se rompeu em soluços. O desespero em ver o filho naquele estado era mais do que podia suportar. E naquele momento ela se recriminou por ver os sinais e nunca ter feito nada, seu filho tinha mais traumas do que ela poderia imaginar e eles começavam a aparecer para todos. — Gael, por favor, respira... está tudo bem... — tentava ela, mas as palavras pareciam não alcançar o menino. O pequeno tremia, os lábios cada vez mais pálidos. A respiração acelerada denunciava o início de um ataque de pânico. O segundo que o menino sofria depois do que tinha acontecido com eles. — Ninguém vai te tocar, mãe... ninguém... — repetia, entre lágrimas e respirações curtas. Rycon assistia, paralisado, o coração martelando no peito. O que via diante de si não era apenas um m*l-entendido infantil. Havia algo mais profundo, algo errado naquela reação. Cada segundo parecia arrastar o menino para um abismo invisível. — Gael... — arriscou Rycon, mas a voz morreu na garganta quando percebeu o estado dele. O rosto de Gael estava agora quase sem cor. O olhar perdido, fixo na mãe, como se a única âncora no mundo fosse ela. Cara, desesperada, sacudia-o de leve, as lágrimas escorrendo. Ela tentava tirá-lo daquela situação, mas já era tarde, ela não conseguia o alcançar. — Por favor, filho, respira... fica comigo... E então, o grito dilacerante de Cara quebrou o ar. — GAEL! O corpo do menino cedeu, desmaiando nos braços da mãe. Rycon, atónito, sentiu o sangue gelar nas veias. O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. O que quer que tivesse acabado de acontecer... não era normal. Algo muito errado se escondia por trás daquele colapso e dessa vez Cara teria que lhe dar uma explicação.
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