A tarde tinha caído rapidamente e, quando Cara chegou em casa, tudo o que ela desejava era cair na cama e esquecer do dia que tinha acontecido. Gael a encontrou na sala com a mão na cabeça.
— O que aconteceu, mamãe? — perguntou o menino, preocupado, os seus pequenos olhinhos se apertando.
Cara parou e se voltou para o pequeno que tinha se sentado ao seu lado. Ela podia ver os olhos dele preocupados com a sua expressão e, lembrando-se do que havia acontecido, rapidamente escondeu o seu desgosto.
— Nada, querido, estava apenas pensando em algo. — respondeu ela, apertando a bochecha dele. Cara não desejava que Gael se preocupase sem motivo.
— Mãe! Não gosto disso. — disse ele, passando a mão no rosto.
— Essas bochechas são minhas e adoro apertá-las. — respondeu Cara, enquanto se aproximava dele e as apertava de leve.
— Mamãe! — ralhou ele.
— O que está fazendo com o meu docinho, Cara? — perguntou Lúcia, entrando na casa.
— Ela estava apertando as minhas bochechas, tia. — disse ele, correndo até ela.
— Sério? Foi assim mesmo? — perguntou Lúcia, apertando as bochechas dele.
— Tia!
— Lamento, garoto, mas, dessa vez, estou com a sua mãe. — disse Lúcia, dando um beijo nele e se sentando ao lado de Cara. Gael tinja um olhar consternado ao ouvir aquilo.
— Como foi seu dia? — perguntou Cara ao ver o rosto cansado de Lúcia.
— Eu preciso de férias. — suspirou. — E o seu?
— Nada de novo. Tive uma discussão com meu chefe, ele me demitiu e eu me recusei a ir embora. — disse ela com tranquilidade.
Lúcia parou o que estava fazendo e olhou para Cara sem acreditar no que ouvira. A sua cunhada era muito meiga e tranquila para agir daquela forma.
— Como assim? Não pode me dizer isso sem nenhum detalhe. — disse ela.
— Ele estava estressado e resolveu descontar em mim. Quando respondi, ele me demitiu. Mas eu disse a ele que quem tinha me contratado era o pai dele e que apenas o César poderia me demitir. — explicou, morrendo de vergonha.
Lúcia olhou para a cunhada de olhos arregalados e, então, começou a rir do que Cara havia dito. Ria tanto que se dobrava sobre o sofá.
— Não ria! É sério. — respondeu Cara.
— Ai, Cara, eu fico imaginando a expressão dele quando você falou isso. — disse, voltando a rir.
— Eu não esperei uma resposta, apenas o deixei sozinho e voltei para a minha mesa.
— Mas e agora? O que você vai fazer? — perguntou Lúcia, parando de rir.
— Aí é que está. A mãe dele me convidou para um jantar na casa dela, como um pedido de desculpas pelo que ele fez. Ela ainda disse que garantiria que eu continuasse no emprego. — Cara tinha uma dívida com Mira por ajudá-la daquela forma, e jamais esqueceria o que ela havia feito.
— Isso é bom. Ela deve ter percebido que o comportamento dele foi errado.
— Será? E se for uma armadilha? — Cara não pensava que César fosse capaz de armar contra ela, mas não conhecia bem Mira.
— Como vai ser esse jantar? Ela te explicou?
— Disse que haverá mais alguns amigos e que eu poderia levar o Gael comigo. — explicou.
— Eu vou também, mãe? — perguntou Gael, animado.
— Sim, querido, você vai comigo. — disse ela.
— Isso não é uma armadilha, Cara, ela está apenas tentando ser gentil. — disse Lúcia.
Cara suspirou. De toda forma, não podia recusar o convite de Mira. Já tinha aceitado, só esperava que tudo ocorresse bem.
— Tudo bem, vou dar o benefício da dúvida. — disse, por fim.
— Isso! E quero você bem linda para esse jantar. Vá e se divirta com o Gael. — disse Lúcia, animada.
— Você está certa.
— Isso! Quero sair um pouco, mamãe, vai ser divertido. — respondeu Gael, animado.
— Você está certo, querido. Vamos nos divertir no final de semana. — disse ela.
— Eba!
Assim que Gael saiu do quarto, Lúcia se voltou séria para Cara.
— Tem que sair um pouco com esse menino, Cara. Ele precisa se distrair.
— Eu sei, vou fazer isso. Ele precisa viver mais como uma criança, sei que não anda muito bem depois de tudo o que houve.
Cara via seu filho preocupado a cada passo que dava enquanto andava. Vozes altas o incomodavam muito, o que ela associava ao que ele tinha vivido.
— Aquele desgraçado... eu espero que morra, onde quer que esteja. — disse Lúcia, com o maxilar trincado de raiva.
— Ele é seu irmão, Lúcia. Não pode desejar a morte dele. — disse Cara.
— É sério que está me dizendo isso? Ele quase te matou, Cara! E, se eu não tivesse chegado, teria agredido o Gael também!
Cara suspirou. Quando Lúcia chegou à casa deles, ela não estava bem e não tinha percebido o que havia acontecido. Tudo o que sabia foi Lúcia quem lhe contou.
— Eu sei, Lúcia. Eu o odeio, mas ainda é uma vida.
— Eu não me importo, Cara. Ele deixou de ser meu irmão no momento em que fez aquilo com você. — Lúcia nunca passava pano para o que o irmão fizera com Cara quando eram casados. Pelo contrário, queria que ele pagasse por tudo.
— Eu lamento mesmo por isso.
— Não lamente, Cara. Cada um de nós é responsável por nossas escolhas, e ele escolheu fazer aquilo. Vai ter que arcar com as consequências.
Cara não respondeu, apenas deu um beijo em Lúcia e foi para seu quarto. Também não desejava relembrar aqueles dias de terror que havia passado. Mas, de certa forma, a sua mente insistia em lembrar-se do homem que fizera parte de sua vida durante tantos anos — alguém a quem se dedicara de todo o coração, e que, em troca, lhe dera apenas dor e decepção.