Confissão completa

1241 Words
Rycon estava sentado ao lado da cama, os olhos fixos na figura adormecida de Gael. O menino respirava com calma, o rosto sereno. A cada movimento sutil do peito de seu filho, Rycon sentia uma estranha mistura de alívio e impotência. Segurava uma das pequenas mãos de Gael entre as suas, os dedos fortes envolvendo com delicadeza aquela fragilidade. Foi então que reparou em algo que lhe pareceu estranho: uma cicatriz discreta atravessava um dos dedos do menino. Ele franziu o cenho, passando o polegar sobre a marca, como se quisesse decifrar a sua origem. O silêncio do quarto foi interrompido pela voz baixa de Cara. — Ele... ele quebrou esse dedo. Rycon ergueu os olhos de imediato, o corpo enrijecendo como aço. A voz dela ecoava em sua mente, pesada e sombria. — O quê? — sua voz saiu grave, quase num rosnado. — Do que você está falando, Cara? Ela o observou por um instante, e então, com um sorriso triste que não alcançava os olhos, respondeu: — Você queria a verdade, não queria? Pois bem... eu vou te contar a verdade. Rycon sentiu o coração acelerar. Os seus olhos, antes cheios de carinho pelo filho, agora brilhavam de fúria contida, como uma tempestade prestes a romper. — Quem... fez isso com ele? — perguntou em tom baixo, a respiração pesada. Cara desviou o olhar, a suas mãos entrelaçadas sobre o colo, o corpo ainda frágil do choro anterior. — O pai dele. — disse, finalmente. Aquelas três palavras caíram no ar como lâminas. — Gael tentou me defender uma vez... e pagou o preço por isso. O silêncio que se seguiu era quase insuportável. O sangue de Rycon fervia, a suas mãos apertando com mais força a de Gael, como se pudesse protegê-lo até mesmo em seus sonhos. Ele fechou os olhos por um momento, tentando conter a explosão que ameaçava dominá-lo. — Você sabia... e nunca me contou. — disse entre dentes, a voz baixa, carregada de raiva e incredulidade. Cara respirou fundo, as lágrimas voltando a se formar em seus olhos, mas sua voz manteve-se firme: — Isso não é da sua conta. Minha vida não tem nada a ver com você. Só não queria perder o pouco de paz que consegui ter ao lado do meu filho. Rycon levantou-se de repente, a cadeira arrastando no chão com um som áspero. Ele caminhou até a janela, tentando respirar, tentando conter o turbilhão que lhe corroía por dentro. As mãos fechadas em punhos tremiam levemente. — Ele... — murmurou, quase para si mesmo. — Ele encostou a mão em vocês. Cara permaneceu em silêncio, mas suas lágrimas confirmavam cada palavra que Rycon temia ouvir. Ele se virou de volta para ela, os olhos agora incendiados de uma fúria que parecia impossível de conter. — Me diga tudo, Cara. — ordenou, a voz baixa, mas carregada de ameaça. — Tudo. Eu quero cada detalhe. Ela respirou fundo, o coração acelerado, sabendo que aquele seria o momento em que todas as barreiras cairiam. Rycon permaneceu parado diante dela, os olhos fixos em cada movimento, em cada palavra não dita. O quarto estava silencioso, apenas o som das máquinas e da respiração de Gael preenchia o espaço, mas o ar parecia pesado demais. Cara respirou fundo, fechou os olhos por um instante e, quando voltou a falar, sua voz carregava uma frieza que o fez estremecer. — As agressões começaram... quando Arthur começou a beber. — ela fez uma pausa, e um sorriso amargo curvou-lhe os lábios, sem qualquer traço de alegria. — No início eram apenas gritos. Só isso. E eu... eu achava que estava tudo bem. Que era normal. Rycon manteve-se imóvel, mas por dentro sentia o estômago revirar. — Depois... os gritos viraram empurrões. — continuou Cara, a voz mais distante, como se falasse de outra mulher, de outra vida. — E dos empurrões... vieram os tapas, os socos... tudo o que ele encontrava pelo caminho. — ela respirou fundo, as mãos trêmulas. — Normalmente ele me espancava até eu desmaiar. E então... então era Gael que sofria. Porque ele sempre tentava me proteger. Rycon apertou os punhos, a mandíbula rígida. Os seus olhos desceram para a mão pequena de Gael ainda entre as suas, e a cicatriz parecia queimá-lo. — Foi assim que o dedo dele quebrou. — murmurou Cara, os olhos perdidos no vazio. A forma como ela dizia aquilo fez Rycon sentir o peito arder. Não havia lágrimas, não havia gritos, apenas uma frieza dolorosa, como se já não restasse nada dentro dela além de cinzas. Ele percebeu que a mulher altiva, que sempre enfrentava tudo de cabeça erguida, não estava ali. Diante dele, havia apenas uma sombra. Cara ergueu os olhos por um instante, e sua voz vacilou: — Por muito tempo... eu tentei salvar o meu casamento. Eu acreditava que ele podia mudar. Que tudo não passava de uma fase. — um riso curto, amargo, escapou dos seus lábios. — Mas na última vez... eu percebi que se ficasse, iria embora em um caixão... ou Gael cresceria acreditando que aquilo era amor. Ela ergueu o queixo devagar, afastando uma mecha de cabelo para revelar uma cicatriz fina, logo abaixo da linha do maxilar. Era quase invisível, mas ao apontá-la, a dor em seus olhos tornava-a nítida. — Isso aqui... — disse, com um fio de voz. — Foi o resultado de uma cirurgia no hospital. Ele quebrou o meu maxilar, várias costelas... e o braço. Rycon sentiu o corpo inteiro esquentar, como se fogo corresse em suas veias. Sua respiração acelerou, pesada, o peito subindo e descendo com esforço. A fúria o dominava de uma forma que ele nunca tinha experimentado. Não era apenas raiva — era algo primal, um instinto violento de proteger e vingar. Ele encarou Cara, esperando que ela o olhasse de volta, mas ela desviou os olhos, encolhendo-se levemente, como se ainda carregasse a vergonha de algo que não era sua culpa. E isso, para Rycon, era inadmissível. — Não. — murmurou, sua voz rouca, carregada de fúria e dor. — Não ouse baixar os olhos, Cara. Ela estremeceu, surpresa pelo tom dele. — Você não tem nada do que se envergonhar. — continuou, aproximando-se um passo, sua voz mais firme, mas ainda vibrando de cólera. — Vergonha é dele. Do monstro que fez isso com você. Do covarde que tocou em vocês. Cara o olhou por um instante, os olhos marejados, como se lutasse contra a própria fragilidade. Rycon respirou fundo, fechando os olhos por um momento para não deixar que a raiva o dominasse por completo. Ele queria gritar, destruir, caçar Arthur onde quer que estivesse. Mas, mais do que isso, naquele instante, queria apenas envolver Cara e Gael, protegê-los de tudo e de todos, até do próprio passado. Quando abriu os olhos novamente, havia neles algo diferente: não só fúria, mas também uma determinação quase feroz. — Eu juro a você, Cara... — disse com firmeza, sua voz baixa mas inquebrantável. — Enquanto eu estiver vivo, ninguém nunca mais vai encostar em você ou em Gael. As lágrimas finalmente romperam a barreira dela, escorrendo silenciosas, e por um instante a casca que a mantinha erguida se quebrou. Rycon, observando-a assim, sabia que aquela dor não era apenas uma história do passado. Era uma ferida aberta, que sangrava todos os dias. E ele, agora, não poderia descansar até arrancar cada sombra que Arthur havia deixado nela.
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