O sol ainda queimava o asfalto quando eu cheguei na creche. O calor do meio da tarde grudava na pele, e o ar parecia mais pesado do que o normal. Talvez fosse cansaço. Ou o peso de mais um dia que tinha dado errado.
Entrei pelo portão tentando sorrir, mesmo com o coração apertado. Ítalo veio correndo assim que me viu, os cachinhos balançando e o rosto suado.
— Mãe! — gritou, pulando no meu colo.
Segurei ele firme, sentindo o corpo pequeno e quente, aquele cheirinho doce de sabão e infância. Beijei o topo da cabeça dele e fingi que o mundo não tava me esmagando.
— Como foi o dia, meu amor?
— A tia deixou a gente desenhar! Fiz um sol bem grande.
— Que lindo. — Forço um sorriso, mesmo sem ânimo pra sorrir de verdade. — Depois você me mostra, tá?
A professora apareceu na porta, sorrindo cansada.
— Ele comeu direitinho hoje, Manu. Tá um anjinho.
Assenti, agradecendo, e saí com ele no colo. O sol batia direto nos olhos, e o vento trazia o cheiro de comida dos botecos da rua. Era quase hora do jantar, e o estômago começou a reclamar.
— Mãe, a gente vai comer o quê hoje? —
— Vamos passar no mercado pra ver o que dá pra comprar, tá bom? — Suspirei, ajeitando ele no quadril.
Desci a rua devagar, contando as moedas dentro da bolsa com os dedos. O dinheiro do dia a dia m*l dava pra comprar o básico, mas ainda era melhor do que nada.
Depois do que aconteceu na casa da dona Camila e da humilhação que veio junto, eu não tinha coragem de voltar lá. E trabalho novo não aparecia fácil pra quem vinha do morro.
Ítalo segurava minha mão, pulando nas calçadas rachadas, falando sem parar sobre o desenho do sol e o lanche da creche. Eu ouvia, meio no automático, mas guardando cada palavra. Era o que me mantinha de pé, aquele pedacinho de alegria que o mundo ainda não tinha conseguido roubar.
O mercado era pequeno, com prateleiras apertadas e cheiro de arroz velho. Peguei uma cestinha e fui direto pro básico: arroz, feijão, óleo, macarrão. Passei os olhos pela carne, mas o preço me fez rir. sem graça, amarga.
— Mãe, posso levar biscoito? — Ítalo perguntou, segurando um pacote colorido.
Olhei pra ele. Os olhos grandes, esperançosos.
— Hoje não, filho. A gente leva semana que vem, tá?
Ele abaixou o olhar, sem reclamar. O silêncio dele me cortou mais do que se tivesse chorado.
No caixa, a moça me cumprimentou com aquele tom automático de quem repete as mesmas palavras cem vezes por dia.
— Débito ou crédito?
— Dinheiro mesmo. — Tirei as notas dobradas do bolso, tentando não deixar transparecer que eu tava contando antes de entregar.
Ela passou tudo devagar, e quando falou o total, meu coração falhou um segundo. Deixei o óleo pra trás. E o macarrão.
— Pode tirar esses, moça.
Ítalo olhou pra mim, confuso, e eu disfarcei com um sorriso.
— A gente já tem em casa, amor.
Peguei a sacola leve demais, agradeci e saí. O sol já começava a descer, pintando o céu de laranja. Caminhamos até o ponto, o barulho das motos subindo o morro e o cheiro de gás escapando de alguma cozinha por perto.
Ítalo falava, e eu respondia com meias palavras, o pensamento longe. Eu ainda sentia a voz fria daquele homem na cabeça, o jeito que ele me olhou como se eu fosse sujeira no chão. Aquilo tinha ficado grudado em mim, como poeira que não sai.
Mas não deixei o Ítalo ver isso. Apertei a mão dele com força e sorri.
— Hoje tem arroz e feijão, viu? Vou fazer com ovo frito e farofa de banana, você gosta? Ainda vai sobrar banana pra sobremesa.
Ele sorriu, satisfeito, como se fosse a coisa mais linda do mundo.
Quando o ônibus chegou, subimos juntos, e eu encostei a testa no vidro. Lá de cima, o asfalto foi ficando pra trás, e o morro aparecia de novo, o mesmo cenário de sempre, bonito e triste ao mesmo tempo.
E, enquanto o vento quente batia no rosto, pensei que talvez um dia tudo aquilo mudasse. Mas, por enquanto, era só eu, meu filho e a luta de todo dia pra chegar viva até amanhã.