18. Buarque

1402 Words
A sala de reunião da base estava cheia, abafada, e o som dos rádios e das botas batendo no chão fazia o ar parecer mais pesado. O mapa do Vidigal estava aberto na parede, cheio de marcações, setas vermelhas, e pontos de cerco que iam fechar o morro inteiro em menos de quarenta e oito horas. Eu ouvi tudo. O comandante falava, Caveira anotava, e o resto dos homens só acenava com a cabeça. A gente ia subir de novo. E dessa vez, não era pra intimidar. Era pra acabar. Mas, enquanto eles falavam sobre entradas e saídas, eu só conseguia pensar nela. A casa de número três na viela quatorze. A voz dela, o olhar que sempre me desafiava. E o menino, o garoto que m*l sabia o tipo de inferno em que vivia. O morro ia virar zona de guerra. Eu conhecia o protocolo, conhecia os riscos. Quando o BOPE sobe, ninguém é inocente. Bala não escolhe destino, nem parede segura. E por mais que ela não fizesse parte de nada, o endereço dela era o epicentro de tudo. "Buarque, você tá ouvindo?" A voz do comandante me arrancou do pensamento. — O plano é bom. Se entrar por cima, eles não têm pra onde correr. — Assenti Caveira me lançou um olhar rápido, desconfiado. Ele me conhecia bem demais pra acreditar que eu tava prestando atenção. Quando a reunião acabou, ficou pra trás, me seguindo até o corredor. — Tu vai fazer merda, não vai? — Não começa. — Cê tá pensando nela. Eu sei. — Ele encostou na parede, cruzando os braços. — Se subir o morro do jeito que tão planejando, aquele canto vai virar fumaça. — Eu sei. — Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Então? — Então eu vou tirar ela de lá. — Buarque... — Ele suspirou, balançando a cabeça. — Isso não é resgate, é suicídio. — É ordem. — De quem? — Minha. Caveira me encarou, e por um segundo parecia que queria dizer algo que o bom senso segurava. Depois riu, baixo, cansado. — Tu é doente, cara. — Eu sou o que precisa ser. Saí dali e fui pra sala dos arquivos. Peguei o mapa do perímetro e marquei o caminho mais curto até a viela dela. Eu conhecia cada curva, cada casa, cada beco estreito. Ia entrar antes da tropa. Sozinho. De noite, fiquei dentro do carro estacionado numa rua sem saída, observando o alto do morro. As luzes piscavam fracas lá em cima, como se a comunidade soubesse o que estava por vir. As operações têm um cheiro antes de acontecer: mistura de medo e presságio. Acendi um cigarro, deixei a fumaça escapar devagar. O rosto dela me veio de novo. A voz calma, o olhar firme, o orgulho de quem nunca teve nada, mas ainda assim se recusava a se curvar. E o moleque. Eu não devia me importar. Nenhum homem fardado devia. Mas, de alguma forma, ela atravessou o que restava da minha humanidade e ficou ali, cravada. No rádio, a voz do comandante soou: "Operação confirmada. Quatro da manhã. Entrada principal e cobertura aérea." Respondi com o protocolo, desliguei e fiquei em silêncio.Pensei no plano, no tempo que teria. Pouco. O suficiente pra tirar ela e o menino. O problema é que ela não ia aceitar fácil. Manuela era orgulho e resistência em carne viva. Ia me olhar daquele jeito, como se eu fosse o próprio inferno e ia me enfrentar. Mas eu ia tirar ela de lá, nem que fosse à força. Ficaria de fora quem quisesse. Ela, não. A operação já não era mais sobre o morro, nem sobre os traficantes, nem sobre o comando. Era sobre ela. Sobre a mulher que entrou no meu mapa sem eu permitir. Eu acabei o cigarro e joguei a bituca pela janela. O vento quente da madrugada batia no rosto, trazendo o cheiro do asfalto queimado e da gasolina. (…) A madrugada ainda carregava o frio miúdo quando saí do carro e fiquei olhando a viela pela última vez antes de subir. O morro dormia em camadas: aqui e ali uma luz acesa, um rádio abafado, passos que faziam menos barulho por respeito ao sono das crianças. Subi a ladeira com o passo medido, o coturno acertando o piso irregular. Me permiti um minuto pra observar a fachada gasta e entender que ali, por trás daquele portão, morava aquele pedaço do mundo que eu queria arrancar de vez. Bati na madeira sem pressa. A batida veio firme, autoritária, a mesma batida que dá ordens pra serem obedecidas sem discussão. Ouvi o som de passos, o trinco solto e a porta se abrir. Ela apareceu com o cabelo preso, o olhar ainda pesado de sono. Ítalo encostou no lado, com os olhos pesados, agarrado a um ursinho. A visão da cena foi mais afiada que qualquer aviso: mãe e filho, mundo frágil. — Acorda cedo, capitão? — ela disse antes que eu abrisse a boca, voz cansada, tentando controlar o tom. — Sempre — respondi, seco. — Vem comigo. — Pra onde? — Ela franziu a testa. — Pra fora daqui. — A frase saiu curta, sem romantismo. Era uma ordem com verniz de proposta. — Não pergunte. Só vem. Houve um instante em que tudo pareceu depender da escolha dela. Vi a resistência surgir: orgulho, medo, a velha lição de não confiar. Ela deu um passo pra trás, puxando Ítalo mais perto do corpo, como se um gesto de proteção pudesse segurar o mundo. — Eu não levo ninguém à força. — disse, e a promessa soou mais dura que carinho. — Mas também não deixo que as coisas aconteçam por acaso. Hoje tem uma chance de sair. Amanhã o morro pode ser outra história. Ela apertou os lábios, tentando entender onde a declaração acabava e a ameaça começava. Eu não quis fingir piedade que não tinha. Não ofereci longas explicações. A verdade é que não precisava. Ela sabia que, quando eu me metia, não era por caridade. Era por controle. Ainda assim, naquele instante, eu decidi que o controle incluiria tirá-la dali. Ela hesitou mais um segundo, e foi o suficiente pra ver o quanto o filho entendia a urgência: Ítalo, ainda com o olhar sonolento, esticou a mão e tocou minha bota com curiosidade infantil. O gesto dela, o pequeno aperto no peito quando soltou a mão dele, foi a rendição necessária. — Me dá cinco minutos — murmurou, apertando o filho contra o peito, e foi fechar a porta. Esperei encostado no carro, o corpo em alerta, olhando a linha do morro como quem marca território. Em poucos minutos, ela apareceu novamente, mochila pequena nas costas, o menino na cadeirinha improvisada, olhos cheios de desconfiança. Era a visão de alguém que estava aceitando um risco calculado porque o risco que já vivia era maior. Dirigi sem pressa, mas sem perder tempo. O hotel ficava do outro lado da cidade, num bairro neutro, limpo, com cara de mundo que não conhece bala perdida. Reservei um quarto com nome corporativo, paguei em dinheiro que não relacionasse meu posto e, enquanto esperava o elevador subir, senti uma estranheza curta: a sensação de atravessar uma linha que eu mesmo havia traçado, do policial que rege a lei pro homem que decide fora do protocolo. O quarto se abriu em cheiro de novo e lençóis limpos. Pedi que ficassem de portas trancadas, que nada fosse anotado na recepção além do essencial. — Não quero favor. — Não é favor. — respondi. — É utilidade. Preciso que você esteja fora do morro amanhã. Seguro pra mim. Ela me encarou por um longo tempo, avaliando cada sílaba. Havia raiva ali, sim e também a exaustão visceral de quem já teve que aceitar humilhação por sobreviver. Não ofereci consolo porque não havia. Só ofereci um fato: eu seria o responsável por tirar o ponto de perigo naquela madrugada. — Você me leva e depois me abandona? — ela perguntou, quase em sussurro. — Não abandono. Protejo. No meu jeito. — respondi, e havia pouca ternura naquela garantia. Ainda assim, era garantia. Ítalo começou a cochilar no colo dela, e algo dentro de mim quietou por um segundo. Aquelas respirações pequenas, o peso leve do sono infantil, eram mais obrigação do que apelo. Ficar de fora da vida dele foi sempre impossível depois do primeiro golpe que dei em defesa dela.
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