19. Manuela

888 Words
A porta do quarto do hotel se fechou atrás da gente com um estalo abafado, e por um instante o silêncio pareceu me engolir. O ar era frio, o chão limpo demais, e o cheiro do lugar, lençóis lavados, perfume caro, desinfetante, me fez perceber o quanto eu estava longe de casa. O quanto aquele mundo era o oposto do meu. Ítalo adormeceu rápido, encolhido na cama de casal, com o ursinho que eu trouxe do barraco apertado entre os braços. Eu ajeitei o lençol sobre ele, tentando ignorar o peso do olhar de Alex me seguindo em cada movimento. Ele estava encostado na parede, braços cruzados, o corpo imenso parecendo preencher o quarto pequeno. — Ele dorme fácil — disse, a voz baixa, rouca, com aquele tom calmo que sempre vinha antes do incômodo. — Tá cansado. — respondi sem olhar pra ele. — A gente anda o dia inteiro, come m*l, dorme m*l. Quando para, o corpo apaga. Ele soltou um som que parecia uma risada curta. — Você devia aprender com ele. Revirei os olhos, me virando pra encará-lo. — Cê acha que eu consigo dormir fácil depois de ser tirada da minha casa à força? — Eu não te tirei à força. Te salvei. — Você me sequestrou. Ele arqueou uma sobrancelha, e o canto da boca subiu num sorriso torto. — Sequestrar é quando a pessoa não tem escolha. Você veio porque quis. — Porque eu não sou i****a o bastante pra morrer no fogo cruzado que você mesmo vai acender. — Inteligente. — respondeu, dando um passo à frente. — Mas ainda te falta entender que às vezes o inferno é o único lugar seguro. Suspirei, cansada, tentando manter distância. Mas era difícil. Alex Buarque não era o tipo de homem que dava espaço, ele tomava. Até o ar parecia obedecer a ele. — Por que eu? — perguntei, quebrando o silêncio que começava a pesar. — Tanta gente no morro. Por que me tirar de lá? Ele se aproximou mais, devagar. Os olhos escuros, atentos, varrendo meu rosto. — Porque eu quis. — Isso não é resposta. — É a única que eu tenho. A voz dele tinha alguma coisa: grave, firme, carregada de uma segurança que irritava e... outra coisa que eu não queria nomear. O coração começou a bater rápido, e o pior era que ele percebia. Dava pra ver pelo sorriso discreto, pelo jeito como a língua passava de leve pelos dentes, num gesto quase provocador. — Você é arrogante, sabia? — soltei, cruzando os braços. — Já me chamaram de coisa pior. — Acredita que pode mandar em todo mundo. — Não em todo mundo. — Ele deu mais um passo, tão perto agora que o cheiro dele: fumaça, couro e algo quente, me cercou completamente. — Só em quem insiste em me enfrentar. Tentei desviar, mas ele bloqueou o caminho com o corpo. O quarto parecia menor, o ar mais espesso. Eu podia sentir a respiração dele perto da minha, lenta, pesada. — O que você quer, Buarque? — Quero entender por que, entre tanta gente, foi você que ficou na minha cabeça. — Talvez porque você não tem nada além da própria solidão pra ocupar esse espaço. Ele sorriu, um sorriso curto, perigoso. — Pode ser. Mas isso não muda o fato de que, quando eu fecho os olhos, é você que aparece. O coração deu um salto, e eu senti o sangue ferver, misturando raiva e algo que me fazia perder o fôlego. Ele estava perto demais, quente demais. E o olhar dele, firme, me despia mais do que qualquer toque. — Cê devia ir embora. — falei, tentando recuperar o controle. — Antes que eu comece a acreditar que você tem coração. — E se eu tiver? — Então é pior do que eu pensei. Ele soltou um riso baixo, quase um sussurro. — Você fala como se soubesse me decifrar. — E você fala como se eu fosse mais uma das suas jogadas. — Talvez seja. — Ele ergueu o queixo, o olhar pesado no meu. — Mas eu nunca gostei de perder. Por um instante, ninguém se mexeu. O silêncio carregava mais do que qualquer palavra o som da respiração dele, o bater descompassado do meu coração, o frio da parede nas minhas costas contrastando com o calor que vinha dele. Então ele deu um passo atrás. O olhar ainda cravado em mim, mas a voz voltou ao tom prático, cortante. — Amanhã eu volto. Fica aqui. Ninguém vai te tocar. — E se eu resolver sair? — Não vai. Ele foi até a porta e parou por um segundo antes de abrir. — E, Manuela... — virou levemente o rosto, aquele meio sorriso voltando. — Se eu quisesse te machucar, já teria feito. Fiquei parada, sem resposta, assistindo ele sair. O som da porta fechando pareceu deixar o quarto mais vazio. Mas o ar continuava denso, cheio da presença dele. Passei a mão no peito, tentando desacelerar o coração, e encarei o espelho. Meu reflexo parecia diferente, os olhos mais escuros, a respiração mais curta. Ele tinha me tirado do morro, mas o verdadeiro perigo era o que ele deixava pra trás: a sensação de que, a cada vez que ele chegava perto, uma parte de mim deixava de resistir.
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