A porta do quarto do hotel se fechou atrás da gente com um estalo abafado, e por um instante o silêncio pareceu me engolir. O ar era frio, o chão limpo demais, e o cheiro do lugar, lençóis lavados, perfume caro, desinfetante, me fez perceber o quanto eu estava longe de casa. O quanto aquele mundo era o oposto do meu.
Ítalo adormeceu rápido, encolhido na cama de casal, com o ursinho que eu trouxe do barraco apertado entre os braços. Eu ajeitei o lençol sobre ele, tentando ignorar o peso do olhar de Alex me seguindo em cada movimento. Ele estava encostado na parede, braços cruzados, o corpo imenso parecendo preencher o quarto pequeno.
— Ele dorme fácil — disse, a voz baixa, rouca, com aquele tom calmo que sempre vinha antes do incômodo.
— Tá cansado. — respondi sem olhar pra ele. — A gente anda o dia inteiro, come m*l, dorme m*l. Quando para, o corpo apaga.
Ele soltou um som que parecia uma risada curta.
— Você devia aprender com ele.
Revirei os olhos, me virando pra encará-lo.
— Cê acha que eu consigo dormir fácil depois de ser tirada da minha casa à força?
— Eu não te tirei à força. Te salvei.
— Você me sequestrou.
Ele arqueou uma sobrancelha, e o canto da boca subiu num sorriso torto.
— Sequestrar é quando a pessoa não tem escolha. Você veio porque quis.
— Porque eu não sou i****a o bastante pra morrer no fogo cruzado que você mesmo vai acender.
— Inteligente. — respondeu, dando um passo à frente. — Mas ainda te falta entender que às vezes o inferno é o único lugar seguro.
Suspirei, cansada, tentando manter distância. Mas era difícil. Alex Buarque não era o tipo de homem que dava espaço, ele tomava. Até o ar parecia obedecer a ele.
— Por que eu? — perguntei, quebrando o silêncio que começava a pesar. — Tanta gente no morro. Por que me tirar de lá?
Ele se aproximou mais, devagar. Os olhos escuros, atentos, varrendo meu rosto.
— Porque eu quis.
— Isso não é resposta.
— É a única que eu tenho.
A voz dele tinha alguma coisa: grave, firme, carregada de uma segurança que irritava e... outra coisa que eu não queria nomear. O coração começou a bater rápido, e o pior era que ele percebia. Dava pra ver pelo sorriso discreto, pelo jeito como a língua passava de leve pelos dentes, num gesto quase provocador.
— Você é arrogante, sabia? — soltei, cruzando os braços.
— Já me chamaram de coisa pior.
— Acredita que pode mandar em todo mundo.
— Não em todo mundo. — Ele deu mais um passo, tão perto agora que o cheiro dele: fumaça, couro e algo quente, me cercou completamente. — Só em quem insiste em me enfrentar.
Tentei desviar, mas ele bloqueou o caminho com o corpo. O quarto parecia menor, o ar mais espesso. Eu podia sentir a respiração dele perto da minha, lenta, pesada.
— O que você quer, Buarque?
— Quero entender por que, entre tanta gente, foi você que ficou na minha cabeça.
— Talvez porque você não tem nada além da própria solidão pra ocupar esse espaço.
Ele sorriu, um sorriso curto, perigoso.
— Pode ser. Mas isso não muda o fato de que, quando eu fecho os olhos, é você que aparece.
O coração deu um salto, e eu senti o sangue ferver, misturando raiva e algo que me fazia perder o fôlego. Ele estava perto demais, quente demais. E o olhar dele, firme, me despia mais do que qualquer toque.
— Cê devia ir embora. — falei, tentando recuperar o controle. — Antes que eu comece a acreditar que você tem coração.
— E se eu tiver?
— Então é pior do que eu pensei.
Ele soltou um riso baixo, quase um sussurro.
— Você fala como se soubesse me decifrar.
— E você fala como se eu fosse mais uma das suas jogadas.
— Talvez seja. — Ele ergueu o queixo, o olhar pesado no meu. — Mas eu nunca gostei de perder.
Por um instante, ninguém se mexeu. O silêncio carregava mais do que qualquer palavra o som da respiração dele, o bater descompassado do meu coração, o frio da parede nas minhas costas contrastando com o calor que vinha dele.
Então ele deu um passo atrás. O olhar ainda cravado em mim, mas a voz voltou ao tom prático, cortante.
— Amanhã eu volto. Fica aqui. Ninguém vai te tocar.
— E se eu resolver sair?
— Não vai.
Ele foi até a porta e parou por um segundo antes de abrir.
— E, Manuela... — virou levemente o rosto, aquele meio sorriso voltando. — Se eu quisesse te machucar, já teria feito.
Fiquei parada, sem resposta, assistindo ele sair.
O som da porta fechando pareceu deixar o quarto mais vazio. Mas o ar continuava denso, cheio da presença dele. Passei a mão no peito, tentando desacelerar o coração, e encarei o espelho.
Meu reflexo parecia diferente, os olhos mais escuros, a respiração mais curta. Ele tinha me tirado do morro, mas o verdadeiro perigo era o que ele deixava pra trás: a sensação de que, a cada vez que ele chegava perto, uma parte de mim deixava de resistir.