Fazia alguns dias desde a operação, mas o som do helicóptero ainda morava dentro da minha cabeça. Às vezes, quando o vento batia diferente, eu jurava ouvir de novo o barulho das hélices cortando o céu e sentia o coração acelerar do mesmo jeito. No morro, o medo nunca vai embora, ele só aprende a se calar quando o dia amanhece.
Hoje o sol nasceu quente demais, o tipo de calor que cola na pele antes mesmo das oito da manhã. Eu deixei o Ítalo na creche, com o uniforme limpo e o cabelo penteado, e desci o morro devagar, cuidando pra não escorregar na lama seca que sobrou da última chuva.
Tava indo trabalhar de novo na casa da moça do asfalto, a mesma que me chamou uma semana depois da confusão, dizendo que precisava de alguém "de confiança" pra manter tudo em ordem enquanto ela cuidava das crianças.
O nome dela era Camila. Jovem, bonita, cabelo arrumado até pra ficar em casa. Tinha um sorriso educado, desses que não chegam no olho, e falava comigo com aquela delicadeza ensaiada de quem não sabe o que é precisar. Mas era boa pagadora, e isso já era o bastante pra mim.
No caminho, o movimento da rua era outro mundo. O asfalto era silencioso, limpo, cheio de gente apressada demais pra olhar pra quem limpava o chão.
As crianças de uniforme caro passavam com lancheiras coloridas, e eu pensava no Ítalo, lá na creche, com o biscoito que a professora dava de lanche.
Ele merecia estar aqui embaixo, nesse mundo que parecia mais seguro, mesmo que eu soubesse que segurança era palavra cara demais pra quem vem de onde eu vim.
Toquei o interfone e ouvi a voz dela pelo alto-falante.
— Pode entrar, Manuela. A porta tá aberta.
Subi as escadas devagar, sentindo o ar fresco do ar-condicionado escapando pela fresta. A casa tinha cheiro de limpeza e lavanda, e de dinheiro, aquele tipo de cheiro que a gente reconhece sem precisar explicar.
Camila apareceu na sala, com o cabelo preso e uma xícara de café nas mãos.
— Que bom que você veio cedo. As crianças ainda estão dormindo, mas a casa tá de pernas pro ar.
— Pode deixar, dona Camila. Começo pela cozinha.
Ela sorriu, satisfeita, e saiu falando algo sobre o marido que tava viajando. Eu fui pra cozinha e comecei o trabalho. Lavei a louça, varri o chão, troquei os panos, limpei o balcão. Cada movimento era automático, um jeito de calar a mente.
O rádio da casa tocava baixo, música lenta, dessas que a gente ouve e sente vontade de lembrar do que perdeu. Eu tentava não pensar em nada. Mas, às vezes, o rosto do Ítalo vinha, o barulho da operação voltava, e o coração apertava.
Enquanto esfregava o chão da sala, ouvi vozes infantis no andar de cima. Duas crianças, uma menina e um menino, rindo alto. O som me arrancou um sorriso involuntário. Havia algo bonito na inocência delas, na paz de brincar sem medo de bala perdida, sem precisar aprender a se abaixar quando o barulho vinha.
Camila apareceu de novo, com o telefone na mão.
— Desculpa, Manu, mas meu irmão deve passar aqui hoje mais tarde. Ele vai ver as crianças antes de ir trabalhar.
Assenti, sem pensar muito.
— Tudo bem. Quer que eu vá embora antes dele chegar?
— Não precisa, ele é tranquilo. Só vem deixar um presente pros sobrinhos.
Tranquilo. Quase ri por dentro. Nenhum homem rico é tranquilo. Mas engoli a resposta e continuei limpando.
O tempo passou rápido. Quando dei por mim, já era quase meio-dia. A casa brilhava, as crianças brincavam no quintal, e Camila conversava ao telefone, rindo alto. Parecia o tipo de vida que eu nunca ia ter: bonita, segura, previsível.
Lavei as mãos, guardei os produtos de limpeza na bolsa e esperei ela vir me pagar. Ela desceu as escadas, ainda sorrindo, e me entregou uma nota dobrada.
— Toma, Manu. E leva umas frutas, peguei demais essa semana.
— Obrigada, dona Camila.
— E, olha, se quiser vir uma vez a mais por semana, pode. As crianças gostam de você.
— Claro, posso sim. — Sorri de leve.
Peguei a bolsa e as frutas, pronta pra descer. Mas antes que eu alcançasse a porta, ouvi o som de um carro estacionando do lado de fora. Um motor forte, freio curto, o tipo de barulho que faz o corpo da gente reagir sem saber por quê.
Camila se virou, sorrindo.
— Deve ser ele. —
Abriu a porta.
O barulho do portão elétrico ecoou, e, por instinto, olhei pra trás. Um homem alto atravessou o portão.
Farda preta, passos firmes, olhar frio.
E o tempo pareceu prender o ar por um segundo. Camila sorriu, indo até ele.
— Irmãozinho!
— Falei que vinha, né? — a voz dele era grave, calma.
O som daquela voz me gelou por dentro. Era impossível confundir.
O mesmo tom, o mesmo comando. O mesmo homem que, dias atrás, apontava uma arma na minha direção enquanto o arroz caía no chão.
O capitão da BOPE.
O homem que mandou eu calar a boca e voltar pra casa. Minha garganta secou. Baixei o rosto, fingindo arrumar a bolsa. Camila ria, abraçando ele, falando das crianças. Eu só queria desaparecer.
Mas ele entrou e quando o olhar dele passou por mim, eu soube que ele lembrava. Mesmo que fingisse o contrário.