15. Manuela

1495 Words
O sábado amanheceu com o barulho do morro acordando devagar, rádio alto vindo da casa da vizinha, o som de vassoura raspando o chão, gente rindo na rua. O sol batia forte logo cedo, fazendo o telhado esquentar antes mesmo das oito. Acordei com Ítalo me chamando, os cachinhos desgrenhados e a voz sonolenta. — Mãe, já é de dia. — Já, meu amor. Vamos levantar. Hoje a gente vai na feira. Ele sorriu, empolgado, e foi logo pegando as sandálias enquanto eu ajeitava a cama. Tinha aprendido a começar o dia limpando, talvez porque quando a gente vive num lugar pequeno, o mínimo de bagunça parece caos. Abri as janelas, deixando o vento entrar. A luz invadiu o barraco e revelou as paredes simples, mas limpas, e o chão que eu mesma encerava todo sábado. Passei pano, lavei a pia, dobrei as roupas. O rádio tocava um pagode antigo, e por alguns minutos esqueci o peso que o nome do capitão ainda deixava dentro de mim. Enquanto arrumava o quarto, o cheiro do café preto se espalhou, e Ítalo apareceu com um pão na mão, feliz. Peguei o dinheiro que tinha separado, e a sacola de pano que eu sempre usava. Fechei a casa, dei uma olhada na rua antes de sair e comecei a descer com ele pela viela. A feira ficava mais embaixo, perto do asfalto. Era simples, mas viva. Gente gritando preço, cheiro de frutas, de alho e de peixe fresco. As cores das barracas faziam tudo parecer festa, mesmo quando o bolso doía. Fui escolhendo o que dava pra comprar: tomate, cebola, batata, cheiro-verde, e uma abóbora bonita, redonda. O homem da banca reconheceu a gente e fez desconto. Ítalo segurava a minha mão e olhava tudo curioso. Pediu pra levar uma maçã. Eu deixei. Quando voltamos, o sol já tava alto, queimando o chão. Subimos devagar, dividindo o peso das sacolas. O morro fervia de gente, criança jogando bola, vizinha botando roupa no varal, rádio tocando alto em alguma esquina. Era o caos de sempre, mas familiar. Chegando em casa, deixei tudo na pia e lavei o rosto. — Vai brincar um pouco, filho. Mamãe vai fazer o almoço. Ele assentiu e sentou no chão, desenhando no caderno velho que ganhou da professora. Peguei a panela de ferro e comecei a cozinhar. O cheiro do alho dourando encheu a cozinha, seguido do da cebola e do colorido das verduras. Cozinhei arroz, refoguei abóbora com carne moída, e fiz um feijão grosso, daqueles que lembram comida de domingo. Enquanto mexia a panela, o barulho da rua se misturava ao som da colher batendo. Lá fora, o morro parecia longe, ali dentro, era só eu, o cheiro bom de comida e o riso do meu filho. Sentei com ele na mesa pequena e servi os pratos. — Tá bom, mãe! — ele falou com a boca cheia. — Tá, né? Hoje a gente comeu bonito. — Sorri, cansada, mas satisfeita. Por um instante, tudo pareceu certo. A casa limpa, o prato cheio, o calor bom do meio-dia. O dia ainda estava claro quando deixei o Ítalo com a vizinha. Tinha conseguido um bico pra aquela tarde, fazer o cabelo da amante do dono do morro. Não era o tipo de trabalho que eu gostava, mas pagava bem e, no fim das contas, era o dinheiro que mantinha o gás aceso e o leite na geladeira. Subi até a parte alta, onde o barraco dela ficava. A mulher era bonita, dessas que parecem viver num mundo diferente, mesmo cercada pela mesma pobreza. Corpo de quem nunca passou fome, unha sempre feita, cabelo hidratado toda semana. Quando me viu chegar, abriu um sorriso exagerado e disse: — Ainda bem que cê veio, Manu! Tô com um compromisso hoje à noite, e o bonitão quer me ver linda. — Vamos deixar esse cabelo um espelho, então. — Sorri de leve, fingindo paciência. Ela me deu um copo de refrigerante e começou a falar sobre a vida, o "chefe", as brigas, os presentes caros. Eu só respondia com monossílabos, concentrada no trabalho. Quanto mais ela falava, mais eu pensava em como o mundo era c***l com as escolhas. Umas vendiam corpo, outras tempo, outras alma. No fim, todo mundo pagava um preço. Demorei quase duas horas pra terminar. Quando ela se olhou no espelho, deu um sorriso satisfeito e me pagou em dinheiro vivo. O suficiente pra encher a geladeira de novo. Guardei rápido dentro da blusa, agradeci e desci a viela antes que escurecesse. O céu já começava a mudar de cor, aquele tom avermelhado que antecede a noite e que sempre me deixava inquieta. O morro parecia quieto demais, e eu apertava o passo, sentindo a bolsa bater contra o quadril. Foi ali, numa curva estreita, que o barulho me pegou. Passos rápidos. Risada suja. — Ô, princesa, pra onde tá indo tão apressada? O primeiro apareceu na minha frente, magro, com o olhar perdido, os dentes amarelados. O segundo veio logo atrás, com uma faca pequena na mão. Dois noiado, desses que não têm nada a perder. — Deixa eu passar, moço. — falei baixo, tentando não demonstrar o pânico. — Calma aí, vamo conversar — o da faca riu, mostrando os dentes. — A gente só quer uma ajudinha... — Não tenho nada. — Ah, tem sim. — O olhar dele desceu, e a mão também. — Mostra o que esconde aí. O coração disparou. Dei um passo pra trás, mas bati no outro. O cheiro de álcool e sujeira me enjoou. Ele agarrou meu braço, e eu gritei sem pensar. O som do grito ecoou pela viela, e tudo aconteceu rápido demais depois disso. Um barulho de motor, freio brusco, e então a voz dele. Grave, firme, cortante. — Solta ela. Os dois se viraram. O capitão estava ali, farda preta, fuzil nas costas, a sombra cobrindo metade da viela. O olhar dele gelava o ar. — Solta. — repetiu, e dessa vez a palavra veio como sentença. Um dos noiado tentou correr. Não chegou a dar dois passos. O som do soco foi seco, o corpo caindo no chão, o gemido sufocado. O outro recuou, tentando balbuciar alguma coisa, mas o capitão já o segurava pelo colarinho. — Gosta de encostar em mulher, é? — a voz dele soava calma demais, o que tornava tudo pior. — Vamos ver se continua gostando quando eu arrancar teus dentes. O som dos golpes ecoou alto, um atrás do outro. O sangue espirrou na parede, e eu fiquei imóvel, segurando a bolsa com força, o corpo tremendo. Não conseguia desviar o olhar, nem pedir pra ele parar. O medo e o alívio se misturavam até ficar impossível entender o que eu sentia. Quando terminou, ele soltou o corpo no chão como se fosse lixo. Respirava pesado, o olhar escuro. Me encarou por um tempo que pareceu longo demais. — Tá machucada? — perguntou, a voz mais baixa agora. Balancei a cabeça, sem conseguir falar. Ele deu um passo à frente, e eu recuei um pouco. — Eu te levo pra casa. — Não precisa. — Precisa, sim. Não tive coragem de insistir. Ele pegou minha sacola e foi andando na frente, e eu o segui em silêncio. As pessoas se escondiam nas janelas quando viam a farda. A viela parecia mais estreita, o ar mais pesado. Quando chegamos na porta da minha casa, ele parou. Entregou a sacola, olhou pra dentro e depois pra mim. — Cuida melhor de por onde anda, Manuela. — É fácil falar isso de onde o senhor vem. — Ainda não desaprendeu a me chamar de "senhor"? — Ele arqueou a sobrancelha, o canto da boca puxando num meio sorriso. — Não tô com humor pra brincadeira. — Respirei fundo, o coração ainda descompassado. — Eu sei que foi o senhor que mandou a cesta. O sorriso sumiu. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, analisando cada palavra. — Então sabe. — Sei. E não quero mais nada vindo do senhor. — Eu não costumo pedir permissão pra fazer o que quero, Manuela. — Ele inclinou um pouco a cabeça, e o olhar dele escureceu. — E eu não costumo aceitar nada de quem acha que manda em mim. O silêncio entre nós ficou denso. Ele deu um passo, tão perto que o cheiro de cigarro e couro tomou o ar. — É por isso que você me irrita. — murmurou. — Porque não sabe o lugar que devia ocupar. Engoli seco, mas não desviei o olhar. — E o senhor também não sabe quando parar. Ele ficou mais um segundo ali, os olhos cravados nos meus, e então deu um passo atrás, abrindo um meio sorriso quase perigoso. — Boa noite, Manuela. Virou as costas e desceu a viela como se nada tivesse acontecido, o som das botas ecoando no chão. Fiquei parada na porta, o corpo inteiro tremendo, sem saber se queria chorar ou gritar.
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