14. Manuela

1189 Words
O dia começou como qualquer outro: o sol subindo cedo demais, o barulho das motos rasgando o morro, e o cheiro de café forte misturado com sabão em pó vindo das casas ao redor. Ítalo brincava sentado no chão com as tampinhas de garrafa que ele chamava de "carrinhos", e eu tentava organizar a cozinha pequena, apertada, mas limpa. Sempre limpa. Era o único jeito que eu tinha de manter alguma ordem quando o mundo insistia em ser um caos. Eu ainda pensava no encontro da outra noite. No capitão. No jeito como ele apareceu, falando baixo, com aquele olhar que me atravessava sem esforço. Desde então, não consegui dormir direito. Toda vez que o vento batia nas janelas, eu achava que era o barulho do carro dele. Era estranho, como se ele ainda estivesse por perto, mesmo longe. O som de passos na viela me tirou do devaneio. Era o barulho de gente subindo, pesado, apressado. Olhei pela janela e vi dois homens carregando uma caixa. Um deles parou na frente do meu portão e chamou: — Dona Manuela? Fiquei desconfiada na hora. O morro ensina a desconfiar de tudo, até de presente. — Sou eu. O que foi? — Mandaram deixar isso aqui pra senhora. — Mandaram de onde? — Disseram que é do posto. Coisa de ajuda pras famílias. Saí até a porta, devagar. Ítalo veio atrás de mim, segurando minha perna. A caixa era grande, pesada. Nela, vinham arroz, feijão, leite, óleo, biscoito, remédio, sabonete. Tudo novinho. Coisa que eu não via junta havia tempo. — Cês têm certeza que é pra mim? — Tá com teu nome aqui. — Ele mostrou um papel colado na lateral. "Manuela Souza, Viela 14, casa 3." O estômago embrulhou. Meu nome ali, escrito com cuidado demais. Era simples, mas me deu calafrios. — Obrigada. — falei por fim, tentando esconder a desconfiança. Eles deixaram a caixa e foram embora. Eu fechei o portão e fiquei parada, olhando aquilo por longos minutos. Era coisa demais pra ser coincidência. Coisa boa demais pra cair do céu. Peguei uma das latas e li o rótulo, só pra fazer alguma coisa com as mãos. Ítalo olhou pra mim, os olhos curiosos. — Quem mandou, mãe? — Deve ter sido o posto. — Demorei pra responder. — O posto do doutor Ricardo? — É, deve ser. — forcei um sorriso. Mas eu sabia que não era. Nada naquele morro vinha fácil. Nem ajuda. Coloquei os mantimentos sobre a mesa e comecei a guardar. Meus dedos tremiam de leve. No fundo, eu já tinha entendido de onde vinha. Ou melhor, de quem. A lembrança dele voltou, o corpo grande, o olhar gelado, o sorriso torto que nunca era de verdade. O capitão. Buarque. Ele tinha o tipo de poder que não precisava de palavra pra se impor. E agora, ele tinha achado um jeito de atravessar a porta da minha casa sem sequer bater. O cheiro do sabão e da comida nova se misturou ao medo, um medo silencioso, daqueles que a gente não sabe onde começa. Ele podia estar em qualquer lugar. Podia estar observando. E o pior era a sensação de que tudo aquilo não era generosidade, era controle. Sentei na beira da cama e olhei pro Ítalo, que agora montava os "carrinhos" com o pacote vazio de biscoito. Ele ria, inocente, e aquilo me apertou o peito. Eu devia estar feliz, tinha comida, remédio, o que faltava. Mas só conseguia pensar que, de alguma forma, eu tinha acabado de aceitar um favor que vinha com preço. Olhei pra janela. A rua parecia calma, mas o ar pesava. A caixa ainda tinha o papel com meu nome. Peguei e amassei até virar um punhado de papel úmido na palma da mão. — Ninguém me compra. — murmurei pra mim mesma, num tom que soou mais como promessa do que como aviso. Mas, no fundo, uma parte de mim sabia que ele não ia parar por ali. Ele não parecia o tipo de homem que aceitava "não" como resposta. (…) A noite caiu devagar sobre o morro, tingindo as vielas de um laranja sujo que logo virava cinza. O barulho do dia foi se apagando aos poucos, as vozes, o corre das crianças, o som das panelas batendo. Mas, dentro de casa, o silêncio parecia ainda mais alto. Eu tinha guardado tudo. Cada pacote, cada lata. O armário que antes só tinha vento agora parecia cheio demais, e isso, em vez de trazer alívio, me deu um desconforto estranho. Era como se a comida tivesse um cheiro diferente, não o de sustento, mas o de dívida. Ítalo dormia cedo, cansado de tanto brincar. A respiração dele era o único som no quarto pequeno. Eu fiquei ali, sentada na beira da cama, observando o rosto dele à meia-luz. A boca entreaberta, os cílios compridos, a paz que eu não sabia mais o que era. A caixa no canto parecia me observar de volta, um lembrete silencioso de que nada vem de graça. Peguei o papel amassado que eu ainda não tinha jogado fora. "Manuela Souza, Viela 14, casa 3." O nome escrito bonito, firme, traço de homem. O coração acelerou, e uma sensação fria me percorreu as costas. Era ele. Não havia dúvida. Levantei e fui até a janela. O morro dormia, mas os barulhos de sempre ainda estavam lá, o ronco de uma moto, o latido distante, o som abafado de um rádio tocando. Olhei pro beco, e por um instante achei ter visto um vulto. A sombra de alguém encostado num muro, parado demais pra ser coincidência. Fechei a cortina com força e fiquei imóvel, o peito subindo e descendo num ritmo descompassado. Talvez fosse paranoia. Talvez. Mas a verdade é que, desde que aquele homem cruzou meu caminho, nada mais parecia seguro. Voltei pra cozinha, tentando me distrair. A luz fraca do teto tremia, e o vento batia na janela, fazendo ranger a madeira. Lavei a caneca, enxuguei, guardei. Tudo em silêncio, tudo no automático. Mas a cabeça não parava. Por que ele faria aquilo? Por que alguém como ele, se daria ao trabalho de mandar comida pra uma mulher que ele m*l conhece? Fechei o armário e fiquei ali parada, de costas pra caixa. O barulho do vento parecia mais forte agora. Cada estalo da casa me fazia virar o rosto, atenta, como se esperasse o som da bota dele subindo a viela. Respirei fundo e fui pro quarto. Deitei ao lado do meu filho, abraçando ele com força. O corpo dele era quente, o cabelo cheirava a shampoo infantil, e isso foi o único consolo que tive. Enquanto o sono não vinha, fiquei olhando pro teto, ouvindo o coração bater no escuro. Lá fora, o morro dormia, mas dentro de mim, o medo e a raiva se misturavam. Eu queria acreditar que podia viver sem cruzar o caminho dele de novo.Mas uma parte de mim - a parte que já conhecia a lógica desse mundo - sabia que ele voltaria. E quando voltasse, não seria pra conversar.Seria pra me lembrar que, pra ele, tudo e todos têm um preço.
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