Aquela mulher tinha me ficado na cabeça de um jeito que eu não conseguia explicar e, pior ainda, eu nem queria tentar. Já fazia dias desde o reencontro no morro, e eu ainda me pegava lembrando da forma como ela me olhou: não como a maioria olha pra mim, com medo, mas com raiva. Uma raiva viva, ardendo. Aquele tipo de olhar que não se esquece.
Manuela. Só o nome já soava perigoso. Uma mistura de desafio e desgraça. Eu já devia ter esquecido, apagado a lembrança como faço com todas as outras, mas tinha alguma coisa nela que ficou presa, latejando.
Talvez fosse o jeito dela segurar o filho, a força em esconder o medo, ou o tom de voz firme, mesmo tremendo. Eu, que sempre gostei de ver o mundo se curvar, senti uma vontade absurda de ver até onde aquela mulher aguentava ficar de pé.
Desde então, comecei a subir o morro com mais frequência. Oficialmente, por "patrulha de rotina". Na prática, por causa dela. O Caveira ria, dizendo que eu tava obcecado, e talvez estivesse certo. Mas não era o tipo de obsessão doce, dessas que levam pro amor.
Era o tipo que nasce do poder, do instinto, da curiosidade suja. Queria entender o que me irritava tanto nela, o que me fazia querer provocá-la de novo.
Passei a prestar atenção em cada beco, cada esquina. Até o dia em que vi ela saindo da venda, o filho pela mão e a mesma sacola surrada. Estava distraída, o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto suado, e ainda assim havia uma beleza crua, real, que nenhuma mulher do asfalto carregava. A beleza da sobrevivência.
Estacionei a viatura no alto, desci e fui até ela. Os outros policiais ficaram no carro, me observando em silêncio. Manuela percebeu minha presença só quando já era tarde. Endireitou o corpo, apertou a mão do menino e fingiu que não me via.
— Finge que não me conhece, é? — falei, a voz arrastada, carregada de ironia.
Ela não respondeu, só continuou andando. O orgulho dela era o que me atiçava. Não havia submissão ali, só resistência.
— Acha que pode me ignorar, Manuela? — Apertei o passo até alcançá-la, parando bem na frente.
— Eu só quero viver a minha vida, capitão. — Ela ergueu o queixo, o olhar firme.
— E eu quero saber mais sobre a sua. — Sorri, inclinei um pouco a cabeça.
— O senhor devia se ocupar com bandido, não com mãe de família.
— Quem disse que são coisas diferentes? — retruquei, rindo baixo. — Nesse morro, todo mundo tem pecado. Uns maiores, outros mais bonitos.
Ela desviou os olhos, mas eu percebi o tremor mínimo no canto da boca. Estava tentando não reagir. Eu me aproximei mais, o suficiente pra ela sentir o meu cheiro.
— Eu não sou seu inimigo, Manuela.
— Não parece.
— E o que eu pareço, então? — perguntei, baixo, a voz roçando entre provocação e ameaça.
— Alguém que gosta de brincar com o medo dos outros.
— Talvez eu só goste de ver coragem onde ninguém tem. — Dei um meio sorriso, satisfeito.
— Não tem coragem nenhuma aqui, capitão. Só cansaço. — Ela se afastou um passo, o menino puxando sua mão. O olhar dela ficou duro.
Fiquei parado, observando enquanto ela se afastava pela viela, o corpo pequeno desaparecendo entre as luzes amarelas. E quanto mais ela fugia, mais a vontade crescia.
Aquela mulher tinha me atravessado de um jeito que nenhuma outra tinha conseguido. Não era sobre beleza, nem desejo. Era sobre o poder de não ceder, e isso me instigava mais do que qualquer coisa.
Eu queria ela. Não como homem quer uma mulher, mas como predador persegue aquilo que o desafiou.
E, no fundo, já sabia: não ia parar até ela ceder.
(…)
Sentei na cadeira da minha sala na delegacia e fiquei olhando pro mapa do Vidigal estendido na parede. As vielas pareciam riscar a cidade feito cicatrizes, e eu sabia exatamente onde cada uma levava.
Os números, os becos, as saídas. O tipo de informação que todo policial do BOPE guarda de cor, mas naquele dia, o número que me veio à mente não era o de uma operação. Era o da casa dela.
A quatorze.
Passei a ponta do dedo pelo traçado no mapa, devagar, lembrando da voz dela, das palavras que me jogou na cara sem tremer. "Eu só quero viver a minha vida, capitão." A frase voltava como um eco irritante, me cutucando por dentro.
Ela tinha falado comigo sem baixar o olhar. E o pior: eu ainda lembrava o jeito exato que ela respirava, tentando manter a calma, como se desafiar fosse o único jeito de não desabar.
O rádio na mesa estalou, me trazendo de volta. Caveira entrou logo depois, mancando, com o mesmo ar debochado de sempre.
— Tá com essa cara de quem tá planejando infernizar alguém, Buarque.
— Mais ou menos isso. — respondi, acendendo um cigarro.
— Adivinha. — Ele deu um meio sorriso. — Aquela mulher, né?
— O nome dela é Manuela.
— Ah, então já tá decorando nome agora.
Ignorei o comentário e me levantei, pegando um papel na gaveta. Escrevi o número da viela, o endereço exato, e dobrei o bilhete.
— Quero que um dos caras leve umas coisas lá pra cima.
— Que tipo de coisa?
— Comida. E uns remédios básicos.
— Tá caridoso agora? — Caveira arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— Chama de estratégia. — dei um trago no cigarro, soltando a fumaça devagar. — Quero ela lembrando que eu existo, mesmo quando eu não tô perto.
— Isso parece coisa de maluco, Buarque.
— Então é perfeito pra mim.
Peguei o celular e mandei mensagem pro sargento Silva, um dos mais novos, mas obediente.
"Faz uma compra de mantimentos, verduras, frutas, uns remédios pra gripe e antibiótico infantil. Entrega na viela 14, casa de número 3. Diz que é do posto. E não menciona meu nome."
O som da mensagem enviada preencheu o silêncio por um segundo. Caveira me observava com aquele olhar que mistura riso e reprovação.
— Tu acha que ela vai acreditar que é do posto?
— Não precisa acreditar. Só precisa aceitar.
— E se ela devolver?
— Aí eu subo.
Soltei um meio sorriso, malicioso, e joguei a bituca do cigarro no cinzeiro. Não era sobre ajuda. Nunca foi. Era sobre presença. Controle. Eu podia não estar no morro, mas o morro ainda lembrava do meu nome. E agora, ela também.
— Sabe que isso vai dar merda, né? — Caveira balançou a cabeça, rindo.
— Tudo que vale a pena dá.
Ele saiu, ainda rindo, e eu fiquei sozinho. O mapa continuava ali, o traçado das vielas parecendo mais vivo sob a luz fraca da lâmpada. Puxei a cadeira, sentei de novo e apoiei os cotovelos na mesa.
Fechei os olhos por um instante, visualizando o caminho. O portão da casa dela, a janela pequena, o som do menino chamando "mãe". Aquela mulher podia tentar me apagar da cabeça, mas eu já tinha encontrado o jeito de voltar.
E, uma coisa eu sabia bem: quando o BOPE marca um alvo, cedo ou tarde, ele volta pra conferir.