O calor daquela noite grudava na pele, e o vento que subia do asfalto trazia o cheiro de comida frita e fumaça de escapamento. O morro vivia. barulho de gente rindo, moto passando, criança chorando em algum barraco mais acima. Era o tipo de noite em que tudo parecia normal, mas a qualquer momento o silêncio podia mudar de lado. Eu vinha voltando da creche com Ítalo no colo, o corpo dele mole de sono, a cabeça encostada no meu ombro. A sacola balançava na outra mão, um pacote de macarrão, um sabonete, um litro de leite. Coisa pouca, mas suficiente pra alimentar a esperança de mais um dia. O chão da viela ainda molhado refletia as luzes dos postes, e o barulho distante de um motor fez meu estômago apertar sem motivo. Quando dobrei a esquina, o som ficou mais próximo. O ronco grave de um

