5. Buarque

904 Words
O helicóptero já tinha deixado o céu quando eu desci do blindado. O morro ainda fumegava, o cheiro de pólvora, gás e barro misturado formava uma névoa quente, o tipo de ar que cola na pele e não sai nem depois do banho. Os homens estavam cansados, suados, mas ninguém ousava relaxar. Operação encerrada não significava segurança. No Vidigal, nada terminava de verdade. Andei devagar entre os becos, observando as portas semiabertas, os olhares que espiavam pelas frestas, o silêncio pesado que sempre vem depois do caos. O rádio chiava no meu ouvido, cheio de vozes nervosas tentando confirmar números, mortes, baixas. Fiz sinal pra desligarem. Não precisava ouvir mais nada. Eu preferia o barulho do vento batendo nas telhas do que o som de alguém contando corpos. O sol já estava alto, refletindo no metal do fuzil e me cegando por um instante. Enxuguei o suor com a manga da farda e parei diante da viela principal. Foi ali que eu tinha visto aquela mulher, a moça do mercado, a das mãos tremendo, da voz engasgada. Lembrei do olhar dela, não porque ele me marcou, mas porque havia medo demais nele. E o medo é o que mais ensina sobre um lugar. Caveira veio logo atrás, mancando, com o fuzil pendurado no ombro. — Tá pensando no quê, capitão? — perguntou, a voz rouca, como se o cigarro fizesse parte da garganta dele. — Tô pensando que aqui a vida nunca muda. Ele deu um meio sorriso torto. — A vida muda sim, Buarque. Só não pra quem mora aqui em cima. Ficamos um tempo em silêncio. A rua ainda cheirava a pólvora e leite derramado, alguém devia ter perdido a compra no meio da correria. Lembrei da sacola daquela mulher, do arroz espalhado, do feijão rasgado no chão. Uma besteira, mas foi a única coisa limpa no meio da confusão. — E o saldo da operação? — perguntei, sem olhar pra ele. — Dois presos, três feridos. Um civil baleado na perna, já desceu com o SAMU. Assenti devagar. Era o de sempre. Nem bom, nem r**m. Só o que precisava ser feito. — A imprensa já tá sabendo? — Já. Tão dizendo que o BOPE invadiu sem ordem. Revirei os olhos e acendi um cigarro. — A imprensa fala, a gente trabalha. — Um dia tu ainda vai morrer nessa farda, Buarque. — Caveira riu baixo. — A farda é o único caixão que me serve direito. Ele balançou a cabeça e foi andando. Eu fiquei. Meu olhar varreu o alto do morro, as casas empilhadas umas sobre as outras, os fios cruzados, as roupas penduradas. Tudo precário, tudo vivo. Aquela gente não sabia o que era paz. E talvez nem eu soubesse mais. Caminhei até o ponto onde o helicóptero tinha pairado antes. O chão estava cheio de marcas de pneu e cascas de bala. Vi um carrinho de brinquedo virado, quebrado no meio da rua. Uma roda ainda girava, movida pelo vento. A imagem ficou presa na cabeça. — Capitão, vamo descer. Era um dos soldados. Novo, o olhar ainda tentando esconder o incômodo de quem não aprendeu a endurecer. — Vai na frente. Eu chego em cinco. Ele assentiu e foi. Fiquei ali, sozinho, ouvindo o som distante do mar, o bater do vento nos fios e o eco do helicóptero se apagando. Essas horas sempre me deixavam em suspenso. Era o intervalo entre o que a gente destrói e o que volta a nascer. Me abaixei, recolhi uma cápsula do chão e girei entre os dedos. Tão pequena. Tão simples. E, mesmo assim, era ela que decidia quem vivia e quem não. O BOPE vive de equilíbrio. A gente pisa na beira da loucura todo dia e finge que é normal. Mas, no fundo, todo homem daqui tem um pedaço morto dentro do peito, uma parte que a gente enterra pra conseguir seguir. Caveira gritou de longe: — Bora, chefe! Enfiei a cápsula no bolso e comecei a descer. No caminho, passei por uma mulher chorando no portão, o avental sujo de sangue e farinha. Passei por uma criança dormindo no colo da mãe, o rosto manchado de poeira. E passei por uma sacola rasgada, o arroz ainda espalhado, colado na lama. Olhei rápido, sem parar. Mas, por dentro, uma parte de mim entendeu o que aquilo significava. A guerra sempre leva primeiro o pouco que o pobre tem. No carro, já no asfalto, Caveira me lançou um olhar curioso. — Tá calado demais hoje. — Tô pensando. — No quê? — No que a gente chama de vitória. — No teu caso, vitória é voltar vivo. — Ele riu. — Não. — Cruzei os braços, olhando pela janela o morro ficando pra trás. — Voltar vivo é sobrevivência. Vitória... é quando a gente ainda sente alguma coisa. Caveira ficou quieto. O rádio chiava, a cidade lá fora continuava o dia como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia. Cada vez que a gente sobe, o morro sangra. E, no fundo, uma parte da gente sangra junto. Só que ninguém no BOPE admite isso, nem eu. Respirei fundo, o cheiro de pólvora ainda grudado nas mãos, e deixei o carro seguir em frente. O asfalto parecia limpo demais, mentiroso demais. E o silêncio dentro de mim era o mesmo de sempre: pesado, gelado, perigoso. O tipo de silêncio que só quem já cruzou a linha sabe carregar.
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